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Livro de Wilhelm Reich, pai das terapias corporais.

“A posição política e econômica do pai reflete-se nas relações patriarcais com os restantes membros da família. O Estado autoritário tem o pai como seu representante em cada família, o que faz da família um precioso instrumento do poder.

A posição autoritária do pai reflete o seu papel político e revela a relação da família com o Estado autoritário. A posição que o superior hierárquico assume em relação ao pai, no processo de produção, é por este assumida dentro da família. Ele reproduz nos filhos a sua atitude de submissão para com a autoridade. É deste tipo de relações que resulta  a atitude passiva e obediente do indivíduo da classe média baixa face à figura do führer.

(…) É que a posição do pai exige as mais rigorosas limitações sexuais à mulher e aos filhos. Enquanto as mulheres. sob as influências da classe média baixa, criam uma atitude de resignação forçada, os filhos criam, além da atitude submissa para com a autoridade, uma forte identificação com o pai, que forma a base da identificação emocional com todo tipo de autoridade. Ainda falta muito tempo para descobrir como é possível que a criação das estruturas psíquicas da camada básica da sociedade se adapte tão bem à estrutura econômica e aos objetivos das forças dominantes, como as peças de um instrumento de precisão.”

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Qual o melhor amor

Livro a Insustentável Leveza do Ser. Casal: Tereza e Tomas. Cachorro: Karenin.

Do caos confuso dessa idéia, germina no espírito de Tereza uma idéia blasfematória da qual ela não consegue se desvencilhar: o amor que a liga a Karenin é melhor que o amor entre ela e Tomas. Melhor, mas não maior. Tereza não quer acusar ninguém, nem ela, nem Tomas, não quer afirmar que poderiam se amar mais. Parece-lhe apenas que o casal é criado de forma tal que o amor do homem e da mulher é a priori de uma natureza inferior ao que pode existir (pelo menos na melhor de suas versões) entre um homem e um cachorro – esta coisa estranha da história do homem, que o Criador certamente não previu.

É um amor desinteressado: Tereza não pretende nada de Karenin. Nem mesmo amor ela exige. Nunca precisou fazer as perguntas que atormentam os casais humanos: será que ele me ama? será que gosta mais de mim do que eu dele? terá gostado de alguém mais do que de mim? Todas essas perguntas que interrogam o amor, o avaliam, o investigam, o examinam, será que não ameaçam destruí-lo no próprio embrião? Se somos incapazes de amar, talvez seja porque desejamos ser amados, quer dizer, queremos alguma coisa do outro (o amor), em vez de chegar a ele sem reivindicações, desejando apenas sua simples presença.”

Estou relendo maravilhado o livro A Insustentável Leveza do Ser, do tcheco Milan Kundera. Tinha lido na adolescência e não tinha entendido nada. Agora resolvi reler e é um deleite. Vou citar uma parte entre muitas outras que falam por si só:

No começo do Gênese está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os pássaros, os peixes e os animais. É claro, o Gênese foi escrito por um homem e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo. O direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a humanidade manifesta acordo unânime.

Esse direito nos parece natural porque somos nós que estamos no alto da hierarquia. Mas bastaria que um terceiro entrasse no jogo, por exemplo, um visitante de outro planeta a quem Deus tivesse dito: ‘tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas’, para que a evidência do Gênese fosse posta em dúvida. O homem atrelado à carroça de um marciano – eventualmente grelhado no espeto por um habitante da Via -láctea- talvez se lembrasse da costeleta de vitela que tinha o hábito de cortar em seu prato. Pediria então (tarde demais) desculpas à vaca.

(…)

Tereza acaricia a cabeça de Karenin (sua cadela moribunda) que descansa tranquilamente em seus joelhos. Faz mais ou menos esse raciocínio: não existe nenhum mérito em sermos corretos com nossos semelhantes. Tereza é forçada a ser correta com os outros moradores da aldeia, ou não poderia viver ali; e, mesmo com Tomas, é obrigada a se portar como mulher amorosa, pois precisa dele. Nunca se poderá determinar com certeza total em que medida nosso relacionamento com o outro é o resultado de nossos sentimentos, de nosso amor, de nosso não-amor, de nossa complacência, ou de nosso ódio, e em que medida ele é determinado de saída pelas relações de força entre os indivíduos.

A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade ( o mais radical, num nível tão profundo que escapa a nosso olhar ), são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. É aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras.”

(…)

Tenho sempre diante dos olhos Tereza sentada sobre um tronco, acariciando a cabeça de Karenin, e pensando no desvio da humanidade. Ao mesmo tempo surge para mim outra imagem: Nietzche está saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços.

Isso aconteceu em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, é justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por Descartes. Sua loucura (portanto seu divórcio da humanidade) começa no instante em que chora sobre seu cavalo.

É este Nietzsche que amo, da mesma forma que amo Tereza, acariciando em seus joelhos a cabeça de um cachorro mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastam do caminho no qual a humanidade, ‘senhora e proprietária da natureza’, prossegue sua marcha para frente.

Melhor deixar aqui mesmo as idéias de Kiríllov, personagem do romance “Os Demônios”, de Dostoievski, escrito nos anos 1870. Ele, Kiríllov, se sacrificou por nós, seu sangue tem o poder de nos salvar.

Está em conversa com Piotr Stiepánovitch, que foi à sua casa cobrar dele o suicídio prometido.

“- Kiríllov, nunca pude compreender por que o senhor quer se matar. Sei apenas que é por convicção… por firmeza. Mas se o senhor sente a necessidade de, por assim dizer, desabafar, estou ao seu dispor… Lembro-me que havia aí qualquer coisa sobre Deus… porque o senhor me explicou uma vez, aliás duas. Se o senhor se matar, então se tornará um deus, não parece que é assim?

– Sim, me tornarei um deus.

(…)

– Deus é necessário, por isso deve existir. Mas eu sei que ele não existe nem pode existir.

– Isso é mais certo. (Piotr)

– Porventura não compreendes que um homem com dois pensamentos como esses não pode continuar entre os vivos?

– Então tem de suicidar-se?

– Será que não compreendes que só por isso alguém pode se suicidar? Não compreendes que pode haver uma pessoa, uma enm cada mil dos seus milhões, uma que não vai querer nem suportar?

(…)

– Sempre me surpreendeu que todos continuassem vivos. (…) Se não existe Deus, então eu sou Deus.

-Pois bem, nunca consegui compreender esse ponto do seu pensamento: por que você é Deus? (Piotr)

– Se Deus existe, então toda a vontade é Dele, e fora da vontade Dele nada posso. Se não existe, então toda a vontade é minha e sou obrigado a proclamar o arbítrio.

– Arbítrio? E por que obrigado?

– Porque toda a vontade passou a ser minha. Será que ninguém, em todo o planeta, depois de ter eliminado Deus e acreditando no arbítrio, não se atreve a proclamar o arbítrio no seu aspecto mais pleno? É o que ocorre com aquele pobre que recebe uma herança, fica assustado e não se atreve a chegar-se ao saco por se achar fraco para possuí-lo. Quero proclamar o arbítrio. Ainda que sozinho, mas o farei.

– E faça.

– Sou obrigado a me matar, porque o ponto mais importante do meu arbítrio é: eu mesmo me matar.

– Acontece, porém, que o senhor não é o único a se matar; há muitos suicidas.

– Movidos por uma causa. Mas sem nenhuma causa e tão-somente para afirmar seu arbítrio, só eu.

– Sabe de uma coisa – observou irritado Piotr – , no seu lugar, para mostrar meu arbítrio eu mataria qualquer um e não a mim mesmo. Poderia vir a ser útil. Eu indico a pessoa, se o senhor não se amedrontar. Nesse caso, não se mate hoje. Podemos fazer um acordo.

– Matar outra pessoa seria a parte mais vil do meu arbítrio; isso é para ti. eu não sou tu: quero a parte suprema e vou me matar.

(…) – Sou obrigado a proclamar a descrença – Kiríllov andava pela sala. – Para mim não existe idéia superior à de que Deus não existe. Tenho atrás de mim a história da humanidade. O homem não tem feito outra coisa senão inventar um deus para viver, sem se matar; nisso tem consistido toda a história do mundo até hoje. Sou o único na história do mundo que pela primeira vez não quis inventar um deus. Que saibam de uma vez por todas.

(…)

– Não compreendo como até hoje um ateu pôde saber que Deus não existe e não se matou no ato! É um absurdo alguém reconhecer que Deus não existe e no mesmo instante não reconhecer que é um Deus, senão ele mesmo se mataria. Se você o reconhece, é um rei e você mesmo já não se matará e irá viver na mais alta glória. Mas um, aquele que foi o primeiro, deve se matar infalivelmente, senão quem irá começar a provar? Serei eu mesmo a me matar infalivelmente para começar a provar. Ainda sou apenas um Deus involuntário e sou infeliz por ser obrigado a proclamar meu arbítrio. Todos são infelizes porque todos temem proclamar seu arbítrio. O homem foi até hoje tão infeliz e pobre porque temeu proclamar a parte essencial do seu arbítrio e exagerou no arbítrio como um colegial. sou terrivelmente infeliz porque sinto um terrível medo. O medo é a maldição do homem. Mas proclamo o meu arbítrio e sou obrigado a crer que não creio. Começarei, terminarei, e abrirei a porta. E salvarei. Só isso salvará todos os homens, e já na geração seguinte eles renascerão fisicamente; porque na feição física de hoje, segundo penso, será impossível ao homem passar sem o antigo Deus. Durante três anos procurei o atributo da minha divindade e o encontrei: o atributo da minha divindade é o Arbítrio! Isso é tudo com que posso revelar, em sua parte central, minha insubordinação e minha liberdade nova e terrível. Porque ela é muito terrível. Mato-me para dar provas de minha insubordinação e de minha liberdade terrível e nova.”


quem somos nós

Essas coisas O Segredo não fala:

“A responsabilidade pela organização de sua vida reside no todo, no “sistema”, a soma total das instituições que determinam, satisfazem e controlam suas necessidades.

O elevado padrão de vida, no domínio das grandes companhias, é restritivo num sentido sociológico concreto: os bens e serviços que os indivíduos compram controlam suas necessidades e petrificam suas faculdades. Em troca dos artigos que enriquecem a vida deles, os indivíduos vendem não só seu trabalho, mas também seu tempo livre. A vida melhor é contrabalançada pelo controle total sobre a vida. As pessoas residem em concentrações habitacionais — e possuem automóveis particulares, com os quais já não podem escapar para um mundo diferente. Têm gigantescas geladeiras repletas de alimentos congelados. Têm dúzias de jornais e revistas que esposam os mesmos ideais. Dispõem de inúmeras opções e inúmeros inventos que são todos da mesma espécie, que as mantêm ocupadas e distraem sua atenção do verdadeiro problema — que é a consciência de que poderiam trabalhar menos e determinar suas próprias necessidades e satisfações.” (Herbert Marcuse – Eros e Civilização)

Um pouco de futebol

Não sei porque nunca escrevi sobre futebol. É coisa que atrai grande parte do meu tempo e dos meus pensamentos. É coisa que me proporciona enorme prazer estético. E acontece sempre, pelo menos duas vezes por semana.

Gosto de pensar que o futebol é um refinamento dos antigos combates em arena. Uma coisa inicialmente mecânica. Um tanto para o lado de cá, um tanto para o lado de lá, tem que colocar a bola em tal lugar, em tais e tais e tais condições. Veja o refinamento em que chegamos. Guerrear virou arte. Em vez de morte, gera prazer, muito. Verdadeira vitória da vida.

Dos jogadores que vi jogar o que tinha o mais belo estilo é o Zidane. Uma classe nos movimentos, elegância, técnica, equilíbrio. É, na minha opinião, o maior carrasco do futebol brasileiro de todos os tempos.

Agora o melhor que vi jogar, mais completo, foi o Ronaldinho Gaúcho . A molecagem mais técnica, eficiente e divertida que vi. A mais bonita. Que pena que aquilo só durou uns 4 anos. O auge mesmo foram dois anos.

É, um pouco de futebol não faz mal a ninguém. Muito futebol faz bem à saúde mental. Produz beleza e a beleza é benigna. Sem falar do futsal. No dá pra esquecer do Falcão em termos de inventividade e técnica.

Como expressão da necessidade lúdica humana é perfeito. E como distração da agressividade, refinamento dela, não é mal.

Mudanças

Quis apagar todos os textos, mas não achei uma tecla única que o fizesse por mim. Pensava assim, dando uma renovada nos escritos, dar por consequência uma renovada nos pensamentos, dando assim uma renovada nos sentimentos. Só quererei mudar meus pensamentos para me sentir melhor com novos pensamentos.

Não percebia que apagar era dar importância demais a eles. E dei tanta importância que não quis apagar.

É como o nosso passado mesmo. Fico querendo apagar certas coisas. Ora, apagar é dar importância demais. Dar importância demais não é uma forma de não apagar? Seria bom nunca ter me interessado por aquela mulher que me ignorou, diz meu orgulho. Melhor seria nem precisar pensar em não ter vivido isso. Quantas negativas! No texto. Umas expressões contradizendo outras… Tantas contradições tornam o texto truncado, a vida.

Apagar seria dar importância demais a eles. E o que quero é tirar sua importância. Então escrevo sobre eles? Não, escrevo sobre escrever, ou penso sobre o viver. É necessário. Será? Penso escrevendo. Quero mudar o rumo dos meus pensamentos. Cansei da estrada de sempre. Se é que existe a estrada de sempre. Talvez não. Dá pra pensar que enquanto caminhava, caminhava em linhas retas ou tortuosas, mas sem nunca voltar ao mesmo lugar. Mas como o modo de me sentir nunca mudou totalmente, parece que havia uma estrada nos meus pensamentos, uma coerência. Mas não consigo distinguir a estrada que havia então da estrada que projeto agora em direção ao passado. Parece que estou agora criando a estrada, criando uma história onde só haveria cacos independentes. Criando o que acho que sou agora, de frente para trás. Será que nos criamos do início para o fim da vida ou do fim para o início? Um pouco dos dois? Quanto dos dois?  Não sei se estou indo ou se estou vindo.

Há alguns caminhos que parecem melhor que outros para percorrer daqui para a frente. Parece melhor não me preocupar em apagar os caminhos e descaminhos, deixá-los seguir seu rumo, rio abaixo. Isso é uma mudança. Onde ela está? Apenas nos pensamentos? Mas me sinto novo. Não, me sinto velho. Quando for me sentir novo mesmo, parece que o silêncio terá que estar junto. Escrever é mais como tentar inspirar para dentro de mim essa mudança. Quando me calar, pode ser que a mudança já esteja lá. Enquanto isso, devo respirar umas palavras.