Frase de Hui Neng, o Sexto Patriarca da tradição Zen, vivido no séulo VII:
“Desde o princípio, nada é.”
Esses paradoxos zen são das coisas mais interessantes que tenho lido. Nunca sei se devo entendê-los como verdades profundas ou como verdadeiras palhaçadas. Como os Koans. Ao batermos as palmas das mãos uma na outra ouvimos aquele barulho conhecido. Qual seria então o barulho de uma só mão? Tem cabimento alguém passar a vida se entretendo com perguntas como essa?
Esses koans são o seguinte: são ataques contra a linguagem, é o que são.
Com desestruturar a linguagem, a lógica das proposições, desestruturam nosso ego, centro da consciência, feita de linguagem.
No reino da linguagem há o que é compreendido, o que não é compreendido mas é capaz de vir a ser; e o que não é compreendido e nunca será. São daqui os verdadeiros paradoxos.
Qual o som de uma mão sozinha? É uma pergunta que atinge o umbigo da linguagem. Normalmente um só golpe não nos desembaraça deste domínio. Mas, fora do normal, pode chegar um momento em que acontece. Parece que o ego coloca a cara para fora da cortina, fora da linguagem. Ousa sair da toca. E como é feito de linguagem, ao sair desta percebe sua própria inexistência. A libertação é um paradoxo.
Quem viu o filme Identidade, talvez lembre. Lá o cara pira e fica repetindo sobre a presença, subindo as escadas, daquele que não estava lá. Aquele que não existe.
No zen, aquele que não existe é que percebe sua própria inexistência.
O objetivo do zen com o golpe do koan é fazer conhecer que fora da linguagem só existe o não-nascido. Por isso dizem que o não-nascido não morrerá. Mas o que nasceu, morrerá.
Conhecer o que é o não-nascido por definição só se poderá conhecer quando morrer o que nasceu.
Desde o princípio, nada é. Que coisa confortadora!