Uma das sensações mais pungentes que podemos ter é a da solidão. Quem nunca percebeu esse sentimento? Pequenas sensações de solidão acontecem sempre. E tem a grande sensação, como se fosse a pura solidão. Já senti lampejos dela, momentos rápidos em que me sinto absolutamente sozinho no mundo. É como se o mundo crescesse e ameaçasse me mastigar. É como se o mundo fosse absolutamente hostil, ou absolutamente indiferente, não sei bem. A indiferença absoluta é extremamente agressiva. Num sonho que tive entrei em contato com uma agressividade enorme jorrando de mim para outra pessoa, medonha. E ela me parece com uma indiferença total, como se ao agredir aquela pessoa eu me colocasse completamente indiferente à existência dela, ao direito de viver dela. Nunca senti conscientemente tanta agressividade como nesse sonho. Há quem diga que vivemos num universo hostil. Carlos Castaneda por exemplo. Aliás, li um livro dele, chamado a arte do sonhar, que é uma das coisas mais delirantes que já li na minha vida. Acho mais provável existir coelhinho da páscoa do que aqueles seres inorgânicos e seu mundo. Não, acho tão provável uma coisa como outra.
Quem acredita em Deus está na obrigação de acreditar que o universo é benigno. Ou não?
Acho que o universo é indiferente.
Voltando à solidão. Uma das formas mais agradáveis de ludibriar esse sentimento é nos sentirmos conectados ao mundo, ao universo e à vida. E me sinto assim quando acontece uma sincronicidade, uma coincidência. Dá aquela sensação de que estou no lugar certo e na hora certa, que estou onde devia estar. Isso é aconchegante. É uma das coisas que me seduzem em Lost, a interdependência, as coincidências. Engraçado, mesmo pequenas coincidências aparentemente insignificantes nos dão um pouco dessa sensação, como se o fato de duas coisas co-incidirem fosse consequência da ação de uma força que as une, ou fosse sinal da união de todas as coisas, da ligação de tudo com tudo.
Enfim, aconteceu uma muito curiosa comigo ontem. Estava sentado na praça da liberdade, em Belo Horizonte, depois do trabalho, lendo um livro, na maior tranquilidade. Eu não me lembro de ter pensado algum dia que nosso mundo ou a humanidade já passou da meia idade. Estou lendo dois livros. Um chama Breviário de Decomposição, de Émile Cioran. Li o seguinte de manhã:
“Ávida (a humanidade) de seu próprio pó, preparou seu fim e o prepara todos os dias. Assim, mais próxima de seu desenlace que de seu começo, só reserva a seus filhos o ardor desiludido ante o apocalipse…”
O outro livro chama-se Confissões do Impostor Felix Krull, de Thomas Mann. A palavra:
-vinte minutos depois:
Putz, perdi a citação. O texto perdeu seu sentido. Se eu achar depois coloco aqui. Mas é a mesma idéia. De que estamos mais próximos do fim do que do começo. Li as duas no mesmo dia. Amém.
Outra situação, acontecida anteontem, me deu a sensação de que eu estava no lugar certo e na hora certa. Estava em casa a noite, 11 da noite. Queria dormir cedo mas fui pego pelo desejo e fiquei vendo coisas eróticas na internet, por assim dizer. Meu cachorro latiu e fui até a janela olhar. Passava um cachorrinho subindo a rua, em frente à minha casa. Fui ver. Assustado pelos latidos do meu cachorro, ele continuou subindo a rua, meio cambaleando. Chamei-o, já na rua. Parou, olhou, veio andando timidamente. Chegou perto. Me assustei muito com sua aparência, um frio, um gelo na alma. Sujo, tremendo de frio, com a pele toda descascada. Entrei e peguei ração. Voltei à rua e coloquei num canto. Ele comeu desenfreadamente. Minha mãe trouxe uma coberta. Ele “correu” e deitou na coberta, depois levantou e foi comer mais, tremendo de frio, sem saber se cuidava do frio ou da fome. Fui dormir com vontade de chorar. No outro dia de manhã, ontem, ele estava lá todo encolhido.
Quis levá-lo ao veterinário, na esperança de aliviar seu sofrimento. Levamos. O veterinário diagnosticou sarna avançada, leshmaniose e cinomose avançada, doença gravíssima e altamente contagiosa. Deu uma injeção, ele dormiu. Segurei-o enquanto ele cambaleava e caía para não levantar mais. Preto, pequeno, despelado. Segundo o médico ele teria ficado mais uns cinco dias na rua, tremendo de frio e fome e coceira e transmitindo a cinomose.Tirei uma foto e talvez depois coloque aqui. Ele andando rua acima bem devagar era um retrato da solidão, do desamparo total. A conta do veterináio foi 112 reais, provavelmente o dinheiro mais bem gasto do mês. E a sensação de estar onde deveria…
Situações que envolvem cachorro, principalmente se estão doentes e que no fim morrem, me tocam. Na minha casa já tivemos que “sacrificar” dois, a terceira que pegamos pra criar veio da rua com bicheira em uma das patas, quebrada, com leishimaniose e prenha.
Os filhotes morreram, mas fizemos o tratamento de leishimanea e ela viveu uns seis anos, feliz e saudável até que pegou babesiose e, por causa do fígado já perrengue, (consequencia do tratamento da doença acima citada) ela não aguentou… tentamos de tudo, meu irmão chegou a cogitar fazer transfusão de sangue nela.
Não sei, acho que “fazer dormir” é menos fácil quando não se pensa na morte como uma passagem , quando a culpa por não ter tentado vem a tona. Veterinários sempre optam primeiro pelo “sacrifício”…coisa bem católica, não?
O fato é que, neste caso, acho mesmo que não teria jeito. Bom saber que tem mais gente disposta a ser a pessoa certa, na hora certa!
ps importante: quando essa cadela morreu, a veterinária veio dizer que nós não deveríamos ter tentado, que fizemos ela prolongar o sofrimento…
Acho interessante que dentro das práticas da medicina veterinária esta seja a conduta padrão, enquanto no “mundo humano” se discute tanta ética medica, eutanásia e outros pontos… enfim, não sei se o paralelo faz sentido pra todo mundo, mas pra mim faz.
É, também tenho avaliado esse paralelo entre eutanásia animal e humana. E penso que a humana deveria se inspirar um pouco na animal. Podem acontecer abusos sim, mas tenho visto muita gente mantendo cachorros a muito custo, principalmente para os cachorros, sem necessidade na minha opinião.
Acho que a vida não é sagrada e tento pensar no bem estar do animal quando avalio esses casos. O bem estar sim considero sagrado. A morte muitas vezes é um alívio negado a quem sofre sem esperanças, negado por apego e egoísmo. As vezes pode ser praticada por egoísmo também, é verdade.
Isso tudo é muito complicado, claro. Se fosse para cuidar de um animal com doença grave e crônica, eu preferiria sacrificá-lo numa clínica e adotar outro no centro de zoonozes, outro que seria sacrificado mesmo tendo saúde. E seria sacrificado de forma cruel, com bastante sofrimento, como acontece com milhares todos os dias.
Enfim, a vida não é sagrada na minha opinião.
me tocou…
“A morte muitas vezes é um alívio negado a quem sofre sem esperanças, negado por apego e egoísmo.”
Concordo plenamente.