Algumas idéias são fecundas. Tava ali lendo um livro do Eric Berne, americano criador da Análise Transacional. Soltou lá que o tempo não passa, isso é uma ilusão, nós é que passamos. Gostei. Não quis avaliar se isso é fato ou apenas jogo de linguagem, apenas gostei. Aí sentei na poltrona que fica no meu quarto e fiquei observando, não o tempo passando, mas eu passando. De outras vezes eu sento para meditar e fico observando tudo passando. Dessa vez fiquei observando eu passando e o tempo parado. Foi puro. Me senti bastante presente.
Estando presente posso perguntar: o que fazer então enquanto passo? Fui perguntando a cada coisa que fazia: isso é digno de absorver o meu passar? Tava vendo um jogo de futebol na televisão e perguntando. Não soube a resposta. Se perguntamos demais queremos u t i l iz a r cada momento. Acho que foi o que aconteceu com Dostoievski depois que foi absolvido na última hora da pena de morte, já no cadafalso. No seu livro O Idiota (salvo engano) ele cria esse personagem que sobreviveu ao cadafalso e decidiu a partir daí pedir contas a cada minuto da vida. Aproveitar cada minuto. Depois chegou à conclusão de que isso é impossível.
Sim, porque precisamos de lazer, aquela hora livre de necessidades, inclusive da necessidade de utilizar. Sentar e se ver passando é uma ótima coisa a se fazer.
Mas tem coisas que são melhores de fazer que outras. Melhor passar transando do que orando numa igreja. Mas a maioria das pessoas acha que não devemos passar transando, transando por transar. Todo mundo devia transar somente por transar, com ou sem amor, o que é outra coisa. A evolução selecionou os animais que adoram transar, amam transar. Mas nossa cultura resolveu abolir esse negócio, nada de putaria. Melhor passar rezando.
Gosto de passar vendo-lendo histórias de vidas interessantes. Tava vendo prison break, seriado americano sobre um irmão que comete um crime para ir preso com o outro irmão que estava condenado a morte, com o objetivo de fugir com ele (o condenado), resgatá-lo. O que mais gosto de tudo é a relação dele, o salvador, com a médica da prisão. Acho que sou romântico.
Estou aqui parado e percebendo que passo e percebendo que posso passar de várias formas diferentes e escolho a vida, o prazer, o amor. Não a anti-vida, a repressão, o medo.
Gosto muito de passar vendo coisas bonitas. Por isso olho para as mulheres na rua.
Bonito é ver o Ronaldo fazer um gol. Ver aquele sorriso de quem tem tudo o que quer na vida é uma bela forma de passar, porque a alegria plena é contagiosa. Parece que a maior alegria da vida dele é fazer um gol. Não é comprar uma Ferrari ou conquistar uma top model. O gol é o êxtase.
Osho diz que uma vez conheceu um homem iluminado, que fazia esculturas maravilhosas na areia, para no fim do dia a maré vir e derrubar tudo. Esse era o prazer desse homem, contemplar a impermanência, a passagem.
Interessante ler este texto seu só hoje.
Ontem assisti “a partida”… e dá-lhe impermanência!
Assista! Tenho a impressão que vai gostar, se não for por prazer, pode ser pela vivência do incômodo. O filme é.
beiJu
Hum, valeu pela dica, vou anotar. Acabei de ver o trailer e parece legal mesmo.
beijos