Tava ali sentado na minha cadeira. Sentindo frio, puxei para cima de mim aquele cobertor que estava ali ao lado. Parei de pensar outras coisas para sentir o frio e perceber como é. Aquele frio que me subia pelas costas. O que é o frio? É o frio, é só o que sei dizer sobre o frio.
Fui lembrar então de uns gatos abandonados aqui na minha rua, abandonados não, nascidos na rua, da rua. E fui pensar quais são as piores coisas da vida. Me vieram: o frio, a fome, a dor. Tem a sede, mas essa só me veio agora. A sede extrema. E pensar que pesquisadores de laboratório deixam os ratinhos com sede vários dias, muitos ratos, apenas para depois ensinar o rato a apertar umas alavancas e poderem dizer aos arregaçados de sua própria espécie: “Viu, é como diz a teoria!”. Mas então tava lá pensando qual critério poderia adotar para medir o quão ruim as coisas são. Pensei que a reação que ela causa no ser deve ser o melhor critério, a reação de fuga. Quanto mais fugirmos de algo e quanto mais desesperados fiquemos se não conseguirmos fugir, mais dolorosa podemos dizer que é a coisa. Dizer doloroso já enviesa o pensamento, pois estou pensando em usar a “dor” para a dor física na comparação, não a dor em geral, coisa que se pode dizer de qualquer sofrimento, “como dói o frio! como dói a sede! como dói a dor! como dói quando dói sem sabermos o que dói!”
Então fiquei querendo avaliar e colocar na comparação a dor da compulsão, já que a compulsão é uma reação de fuga a alguma coisa. Se o organismo faz algo contra sua vontade deve ser porque não fazê-lo é insuportável. E não sei uma coisa que gostaria de saber, se todas as pessoas têm compulsões. Desconfio que sim, mas no estado em que estou agora eu só desconfio de tudo, como o Riobaldo do Grande Sertão, “Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa!”. É como me sinto agora. Eu tenho minhas compulsões, coisas que faço sem querer racionalmente fazer. Um exemplo: descasco os lábios, fico tirando aquelas pelinhas. É impossível não fazer, tem sido impossível. O mesmo com a energia sexual. Não descarregá-la parece impossível. Então fico tentando lembrar a situação, como realmente me sinto quando vou fazer algo compulsivamente. E o estranho é que não me lembro bem, não sei exatamente como é, no meu corpo, estar tomado de desejo. Lembro como me toma e como fico então. Mas como não me lembro na hora de perceber realmente como isso me dói, não percebo de fato. Talvez se conseguisse perceber de fato não seria tão doloroso, ou seja, não exigiria uma ação compulsiva, que é como estou avaliando o grau de dor que algo acarreta, pela reação de fuga que gera no organismo. A compulsão parece ser aquela coisa que nem nos dá tempo de percebermos o que ela é. Fugimos sem saber de quê, como crianças desesperadas com medo do escuro.
E parece que cada pessoa tem sua compulsões mesmo. Problema é que muitos nem conhecem sua compulsão. Uns têm a compulsão de falar mal dos outros, outros de se sobrepor aos outros. Um de cigarro. Parece que a compulsão física, que chamamos de vício, é mais exigente, portanto mais dolorosa. Mas não sei se é mesmo mais exigente. Será que é mais fácil uma pessoa viciada em mentir parar de mentir que outra parar de fumar? Se a pessoa viciada em mentir as vezes nem sabe que é viciada… não sei, se nem damos tempo de saber como é a dor que a compulsão nos promete.
Se alguém ler isso e não tiver nenhum tipo de compulsão, favor dizer, fica sendo minha pesquisa. Se tiver pode dizer também… De minha parte vou tentar conhecer melhor a dor que é não ceder à compulsão quando ela aflorar. Que dor é essa?
Minhas compulsões: roer unhas. Já é algo involuntário, não vejo, não sinto minhas mãos na boca…só a dor depois de arrancar um belo talo do dedo… não sei explicar, ansiedade talvez…
Outra: doces. Pude perceber melhor depois que me mudei pra longe. Fazia tempo que não passava tanto tempo comigo mesma. Acabei arrumando uma bela e nociva companhia: chocolate (pode me xingar). Talvez funcione mais como uma válvula de escape. É só sentar e refletir nas coisas que vejo aqui e logo sinto o “gosto gostoso”…deve ser pra adoçar a vida amarga que se vive aqui rs. Como vc disse, uma fuga.
Quando estou tomada pela compulsão e percebo isso, não sinto vontade de parar por mais que esteja consciente do que estou fazendo. Uma compulsão consciente é mais dolorosa que uma inconsciente? Talvez seja, ou não. Tem gente que gasta todo o salário – mínimo – em roupas de marca.
Será que tá ligado com auto flagelação? Tem gente que se corta, coloca piercings internos, se pendura pela pele….
Comer chocolate não é doloroso em si, mas ao invés de me proporcionar prazer, proporciona culpa….aí que esta a diferença.
A questão dos animais….aqui tem pessoas que matam enormes crocodilos para tirar uma foto bacana; carregam “bode-mochila” : eu vi um cara de bicicleta que passou as pernas do animal em suas costas e as amarrou na frente. Milhares de artesanato de marfim -matam um elefante por causa de seus dentes- todo mundo ja presenciou um ato de crueldade com um animal…infelizmente acho que estamos condenados. Pura insanidade. Acho que não tenho mais onde sentir dor. Não cabe mais em mim….
Ah, foi mais um desabafo bonito…..hoje fiquei compulsiva para escrever…
adoro seus textos. Menino talentoso.
Beijos
amo
Um tempo sós tende a nos colocar em contato com nossa solidão, nosso abandono, nosso desamparo. Só quando acolhemos esses sentimentos de fato é que podemos nos tornar autênticos, autônomos. Espero que você aproveite bem bonita, que cresça bastante!
É, percebi que quando estamos na onda da compulsão, não sentimos vontade de parar. Ela se justifica, parece que nos seduzindo. Como que nos coloca em outro estado de consciência, onde a compulsão é natural. Então me pergunto porque precisamos entrar nesse estado. Deve ter algo de muito aliviador nele, além de que deve ativar o centro de prazer no cérebro e isso é viciante. Talvez haja outras formas mais interessantes de ativar esses centros de prazer.
bj