Hoje foi a morte de um gato. Coisa corriqueira, fato insignificante na vida de uma metrópole com milhões de vidas, bilhões de vidas. Este gato foi batizado há pouco, apesar de que vivia há muito. Um amigo quis chamar-lhe de Thor. Era surdo, olhos quase fechados, enxergava mal. Tinha poucos dentes. Gato de rua que passava na casa da Ana todo dia para tomar um café da manhã. Espalhava as rações porque não conseguia pegar direito com sua boca sem dentes. Nunca conseguíamos pegá-lo. Era arisco, de uma cara larga, forte. Viveu seus anos ariscamente, talvez por isso tenha vivido tanto. Há alguns dias víamos sangue pela casa. Ele mancando, mas não nos deixava chegar perto, fugia mancando. Hoje havia muito sangue pela casa. Ele estava deitado num canto, atrás da máquina de lavar roupas, prostrado. Não queria mais lutar, não podia mais. Fui chegando perto, com medo de colocar a mão nele. Fui chegando com a casinha de gato. Fui empurrando-o para dentro dela. Ele gemia, reclamava, mas não se defendia mais. Levei ao veterinário. Ao tirá-lo da casinha o susto. A pata dianteira esquerda inchada por três, carcomida por larvas. Esburacada. As larvas caíam pela pata.
Sobreviver nessa selva urbana por mais de uma década é heroísmo para um gato. Precisou ser sacrificado, aliviado de seu sofrimento. Dificilmente se recuperaria, sofreria muito. Agora já não sofre mais. Apenas mais um gato morto. Foi triste compartilhar seus últimos momentos. Uma agulhada de tranquilizante. Seu último gemido, um som de dor, defensivo ainda. Ficamos a veterinária e eu perto dele enquanto ele cambaleava, resistindo ao sono, um último alento da vida. Assistimos e lhe fizemos companhia. Se isso é possível, não morreu sozinho. Apenas um animal. Deve ter deixado milhares de descendentes. Acho que ele merece essa lembrança.
Lendo este seu texto de hoje me lembrei de uma passagem curta, mas belíssima de um livro que li recentemente de um escritor russso, Romain Gary, de uma sensibilidade admirável.
“Não sei bem o que vejo nos olhos dos animais, mas o olhar deles tem uma espécie de interpelação muda, de imcompreensão, de questionamento, que me lembra alguma coisa e me pertuba completamente.
Certa vez, por exemplo, em Los Angeles, onde era então cônsul-geral da França, o que me impunha certas obrigações, ao entrar na sala pela manhã, encontrei um colibri que tinha vindo parar ali todo confiante, sabendo que era minha casa, mas um golpe de ar, fechando a porta, o aprisionara entre as paredes durante a noite. Ele estava pousado sobre uma almofada, minúsculo e tomado de incompreensão, talvez desesperado e ja perdendo a coragem, ele chorava com um canto dos mais tristes que jamais pude ouvir, já que não escutamos nossa própria voz. Eu abri a janela, ele voou, e eu raramente me senti mais feliz do que naquele momento…”
Romain Gary
Maluh, nós abrimos a janela para o Thor voar. Ele está livre.
Foi-se…com todo nosso amor.
Realmente. Belíssima passagem.
Thor é o nome do nosso cachorro que morreu.
Calado e quieto, com um cancer fulminante.
Segundo a Júlia:
“Mãe, ele é a estrela mais brilhante…. pena que ele vai demorar nascer de novo… ser estrela deve ser muito bom”
Acho que vc vai gostar de papear com a Júlinha
Obs: Ela dá tchau e boa noite para as estrelas… uma delas é ele!
Que gracinha! Ela é linda demais, a Julinha.