Uma metáfora das mais fecundas para compreendermos o funcionamento mental é a utilizada por Jung. Diz que o ego, o centro da consciência, é como uma ilha no enorme oceano inconsciente. Esse oceano é povoado por inúmeras outras ilhas e barcos e entulhos isolados. São idéias, emoções variadas e todo tipo de conteúdo mental, memórias, sonhos, desejos… Ele considera que as idéias se distribuem em volta de um centro. São vários centros, vários núcleos no inconsciente. Quando um desses núcleos está ativo, influenciando a consciência diretamente, diz-se que ele está constelado. Esses núcleos é que são os chamados complexos. Ilustrando pelo muito falado complexo de inferioridade. Algumas situações geram em mim sentimentos de inferioridade, de menos valia, desprezo por mim, etc. Diz-se que essas situações constelam meu complexo de inferioridade. Todos temos esses sentimentos de inferioridade, mas em algumas pessoas eles se constelam facilmente. Jung tentou compreender até as aparições espíritas com a idéia dos complexos. Um espírito seria um complexo constelado projetado “fora” da mente. Tudo bem até aqui. Estou preparando o terreno para descrever um pouco minha própria experiência com a morte.
Quando meu pai morreu, aos 28 anos de idade, há 28 anos atrás, eu tinha 11 meses. Hoje tenho 29 anos e não me recordo do meu pai. Semana passada fui com um amigo até uma comunidade do Daime, em Lagoa Santa. Há já algum tempo eu estava querendo experimentar o chá do Santo Daime, ou ayahuasca. Vivenciei muitas coisas. Passei mal fisicamente, vomitando várias vezes, chorei bastante. No auge da experiência, deitado num colchão, vivenciei um desamparo profundo, uma angústia incalculável, como eu não podia imaginar existir e que eu nunca percebera em mim. Era apenas sofrimento puro, sem objeto. Uma dor insuportável, mas vazia de conteúdos. Simplesmente o desespero, nada menos. Isso durou algum tempo e depois passou. Fiquei me perguntando então que dor é essa que não percebo em mim e que me inundou naquele momento.
Compartilhei a experiência com uma amiga do coração, alguém com quem tenho uma sintonia e cumplicidade profundas. Ao falar sobre essa dor sem objeto essa amiga me disse que conhece essa experiência. Ela perdeu o pai muito cedo, numa época em que ainda não podia simbolizar isso, pensar sobre a morte, tentar compreender esse incompreensível. Depois elaborou a experiência e percebeu que essa dor sem objeto diz respeito a essa perda anterior, que deixou uma marca na alma. E que sente isso em mim também. Nós dois perdemos nossos pais muito cedo, numa época em que não podíamos compreender essa falta, que ficou “registrada só como sensação”. A ficha caiu. Quem conhece um pouco a mente humana sabe que no inconsciente não há tempo. Um afeto não vivenciado conscientemente pode ficar se constelando de forma inconsciente por uma vida inteira.
Faz muito sentido esse sentimento não nomeado, essa dor sem objeto se manifestar agora. Minha mãe está doente. Vivenciar isso naturalmente constela em mim experiências anteriores relacionadas com a morte. A experiência de morte principal para mim foi a da morte do meu pai. Esses sentimentos é que foram constelados pelo Daime e me invadiram a consciência de forma brutal. Minha mãe diz que quando meu pai chegava do trabalho eu já estava esperando-o. Ele entrava fingindo me ignorar, depois vinha brincar, me pegava no colo, etc. A partir de certo dia ele não chegou mais. Com certeza aquela criança de 11 meses não sabia o que pensar. Apenas registrou uma falta, que deve ter sido mais pesada a cada dia, apesar de inconsciente. Depois criei uma personalidade bastante “invulnerável”, como se fosse imune ao sofrimento. É uma defesa compreensível. Nosso ego, a representação que temos de nós mesmos, é isso, uma defesa contra o sofrimento insuportável que a criança experimenta e de que não nos lembramos normalmente. Não que meu ego seja fruto apenas disso, da falta do meu pai. Há outras ilhas na minha mente que se constelam e têm sua própria história. Mas essa foi a que me surpreendeu nestes dias, pela sua força inimaginável, pela fragilidade que evidenciou em mim, fragilidade do meu ego, minha defesa. É muito frágil, sou muito frágil. E quanto mais frágil, mais rígido. Nossa história pessoal é a história de nossas frágeis defesas. E essa criança que um dia não soube como lidar com o sofrimento, ainda vive. Ela precisa de nosso amor, do reconhecimento, não da nossa negação nem de autopiedade. Temos razão em negar que isso exista. É difícil demais. Nosso ego auto-suficiente é frágil demais. Assim somos todos.
Pessoas muito rígidas, e são tantas, apenas continuam batalhando, gastando toda sua energia em se defender. Isso é sofrimento também, essa batalha que nunca acaba. E quando reconhecem o sofrimento, tendem a ser as verdadeiras vítimas da vida, dominadas pela auto-piedade. Me parece que os homens tendem mais a se enrijecerem, negando seus sentimentos, criando personalidades racionalistas, verdadeiras couraças contra a fragilidade e os afetos. Conheço muitos assim. E as mulheres parece tenderam mais ao reconhecimento dos sentimentos mas com auto-piedade, vitimização.
Lembrou-me, no meio dos gritos de dor: “Papai… todo mundo morre”
Belo texto. Ele também vai sumir, como a dor, conosco.
Excelente texto.Essa experiência deve ser compartilhada com muitas pessoas.
Entre no site da revista seleções, mande esse texto e peça para ser publicado. UM ABRAÇO
Estou profundamente emocionada… Em minha alma eu olho pra vc e digo: SIM!!
Uau…. maravilhada!
…as vezes me pergunto se minha pele está precisando disso!
Lutei tanto pra ter controle desses sentimentos… não que eu tenha controle de tudo, mas pelo menos a dor está em algum “compartimento” escuro, no qual prefiro não dar atenção..
Só assim consegui dar passos sem essa vitimização… rs… acho que caí na rigidez!! hehehe
Um abraço pra vc…. porque um beijo não faria diferença!!
Abraço para você também Ana. Obrigado pelo carinho.
Ticiano parabéns pela lucidez! Que mais poderia lhe dizer?
Como “tendências” não são rígidas, vejo homens histéricos e mulheres obsessivas. Lindo texto. Recortei um pedaço e Ticianeei.