Coisa mais difícil definir quem somos. O lampejo existencialista é uma boa forma de lidar com esse informe sentimento da minha essência. Diz que somos nossa existência. Primeiro existimos e daí definimos nossa essência. Algo como o que disse Aristóteles quando disse que somos o que repetidamente fazemos. Todas essas tentativas de definir…
Você vai numa entrevista de emprego e o entrevistador te pergunta: “quais suas qualidades? quais suas limitações?” A sensação, que na hora não foi clara, quando passsei por isso foi: “mas tenho que definir assim bonitinho, com claras palavras?” Estranho! Quem exige clareza nessas respostas não pode saber o que é o humano. Gostamos de ver um padrão na nossa história de vida. Sim, podemos ver padrões, repetições. Mas quão claro é esse padrão é que é difícil definir, porque sempre que contemplanos nossa história o fazemos do ponto de vista atual, ponto de vista sintético e construtivo, na medida em que constrói ele mesmo o que pretende ser sua origem. Meu passado me criou ou eu que o crio agora? Um pouco de cada talvez. Ou seja, olho para trás e construo uma história, nela acredito. Quem já viu o filme Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas talvez percebeu que nossa história pessoal é uma ficção que inventamos e que tem sua própria existência. Mas enquanto vamos vivendo, nem tudo é tão claro. Há algumas palavras interessantes sobre isso no livro Memórias de Adriano:
“No fundo, meu conhecimento de mim mesmo é obscuro, interior, informulado e secreto como uma cumplicidade. (…) Quando examino minha vida, espanto-me ao encontrá-la informe. A existência dos heróis, tal como nos é contada, é simples. Vai direto ao fim como uma seta. A maioria dos homens prefere resumir sua vida numa fórmula, não raro uma fórmula de louvor ou uma queixa, e quase sempre uma recriminação. Sua memória fabrica-lhes complacentemente uma existência explicável e clara. Contudo, minha vida tem contornos menos firmes. Como acontece freqüentemente, é justamente aquilo que não fui que a define com maior exatidão.
“A paisagem dos meus dias parece compor-se, como as regiões montanhosas, de material heterogêneo desordenadamente acumulado. Esforço-me em voltar sobre meus passos para tentar encontrar um plano inicial e seguir um veio qualquer, de chumbo ou de ouro, ou mesmo o curso de um rio subterrâneo, mas esse plano inteiramente fictício não é mais que uma aparência enganosa da lembrança.”
E mais:
“Distingo perfeitamente, nessa multiplicidade e nessa desordem, a presença de uma pessoa, mas seus contornos parecem traçados quase sempre pela pressão das circunstâncias, e seus traços baralham-se tal como acontece com uma imagem refletida na água”.
Que delícia este texto, baby. Principalmente a parte do “Memórias de Adriano”, que não conheço. Copiei, colei, guardei e estou pensando…
Carla Nascentes
Me lembrou o livro de Irvin Yalom – Quando Nietzsche Chorou onde o Dr. Breuer “remonta” em sonhos (hipnose) o que seria sua vida se suas atitudes fossem diferentes.
Nessa experiência, ele vivencia coisas novas, uma nova vida e ao final percebe que ama a vida atual e que viveria a mesma vida again and again…
Eu estudo uma ciência, e justamente estou estudando sobre o conhecimento de mim mesma, o que me chamou atenção foi quando voce referiu ao” Obscuro conhecimento de si mesmo”.
O que tenho compreendido que o conhecimento de mim mesma,vai me esclarecendo sobre os enigmas da vida e os mistérios da figura humana, mas para isso, tenho que realizar um estudo aprofundado da minha psicologia,dentre esse estudo posso citar : o caráter,a tendência, os pensamentos, as qualidades; as defiiências, e tudo que participa do jogo das faculdades mentais.
Ticiano, te desejo muitas realizações!
É isso aí Maria Aparecida, obrigado pelos votos e pela participação. Espero que seu projeto caminhe com muito sucesso.
Sensacional!!!!!!