A consciência é como um corredor infinito, com infinitas portas. Cada porta é uma experiência, um pensamento, um sentimento, um vazio, um desconhecido, sem acabar. Cada experiência na vida pode nos ajudar a abrir uma porta nas possibilidades.
Acabo de ver o filme 1408. A melhor ilustração da condição humana que tenho visto ultimamente. Ter uma filha foi o que gerou naquele homem a experiência mais afetuosa. Com isso ele abriu a porta do amor e sentiu que há amor incondicional. Talvez não fosse necessário ter tido uma filha para abrir essa porta. Eis o que muitas pessoas não entendem, acham que suas contingências de vida são as únicas passíveis de abrir certas portas. Uma pessoa ingere LSD e diz que só quem ingeriu pode compreender a experiêcia. Ora, nossa ignorância é enorme demais para podermos dizer isso. Vem a vida e retira dele a filha. O sujeito é um escritor que vive caçando lugares mal assombrados para escrever livretos supersticiosos e ganhar dinheiro. Não acredita em fantasmas até que conhece o quarto 1408.
A casa é uma das coisas mais significativas para um ser humano. Desde que vivíamos nas cavernas, sempre nos identificamos profundamente com o local que nos abriga. Os filmes de terror exploram isso a rodo. Sempre o fantasma está em algum recinto. E sempre podemos interpretar o recinto como algo real ou como a mente de alguém. No filme 1408 não é diferente e é aí que a desarrumação mental do sujeito se mostra cruamente. A princípio ele e o quarto do hotel são seguros, mas basta algumas coisas ignorarem as regras que impomos ao mundo para que este, ou a construção que fazemos deste, venha abaixo. Imagino que seria muito enriquecedor entrar na minha mente e ver o que há em cada “local”. Pode ser que os sonhos sejam essa representação, esse quarto mental, essa casa pessoal. Na verdade essa é a visão dos sonhos que mais me atrai.
E a casa daquele sujeito, ou para dizer mais diretamente, aquele sujeito, estava despedaçado. Realmente de chorar o momento em que ele reencontra sua filha, a toma novamente nos braços e de novo a perde. Não adianta lamentar, dizendo: “de novo não!” É como a vida dizendo para ele: “de novo sim! Não tem jeito, abra suas portas, mas tudo vai morrer, de novo e de novo!” Mas é preciso vivenciar isso, chorar essa perda. É o que a experiência da própria mente o obriga. Ao entrar em seu quarto mal assombrado há de toda bagunça, mas no fim da destruição só resta aquele sentimento de amor, a pessoa amada e a dor de perdê-la. E a mente até parece sádica, obrigando o sujeito a vivenciar de novo aquilo que é intolerável e que não foi bem vivenciado, o abandono, o despedaçamento da mais doce ilusão. E John Cusack chora. Poderia ver a imagem da filha como um aspecto saudável dele mesmo, tentando reconciliá-lo com a natureza: “Papai, todo mundo morre!”. Tento descrever aquele personagem, mas não imagino como. Seu caos é perturbador e bonito demais! Ele descobre que os fantasmas existem, deixam marcas, reaparecem. E podem ser mais amorosos que o próprio amor.
Inclusive é o segundo filme que ele (John Cusack) protagoniza que faz analogias riquíssimas entre a consciência e o espaço, que questiona quem somos nós. O outro é o chamado “Identidade”. Filmes com temáticas batidas, mas bastante originais na minha opinião. Esse ator não tem erro. Outro excelente dele é o “Alta Fidelidade”, uma delícia de filme.
oi, Ticiano! é minha primeira visita aqui, adorei! voltarei mais vezes!
bjo!
boa dica. vou assistir.
Bacana demais o filme, e hoje ao devolvê-lo à Verônica, conversamos sobre ele. E falamos desse caos que é a nossa mente e o caos do personagem que realmente é fantástico. Falamos também das mensagens nas paredes “me queime vivo”, lembramos da Fênix, do renascer das cinzas.
Detalhe, o filme tem final alternativo…não sabia. Snif.
Apenas comecei a ler o texto, mas parei e esperei uns dias para que primeiro eu assistisse o filme. Assiste e não gostei muito logo de cara, só fui entender o significado dele agora, depois que li o seu texto.
Obrigado por esse esclarecimento!
P.S.: Você é psicologo? rs
Oi Roberto. Sou formado em Psicologia sim.
Se quisermos ver o quarto como a mente dele acho que fica muito bonito o filme.
Um abraço.