Uma pergunta feita por um personagem do filme Waking Life fica me rondando desde que vi o filme pela primeira vez. Ao falar sobre a potencialidade do ser humano, um homem diz que gênios como Nietzche e Platão estão mais longe de nós, normais, que nós estamos dos macacos. Então ele pergunta qual a característica humana mais universal: o medo ou a preguiça?
A vida do ser humano médio me parece extremamente entediante. Sujeito é criado para estudar, trabalhar, criar família, ganhar dinheiro para pagar cada vez mais contas. Há até um certo fetiche com a tal da conta. “Ah, eu preciso pagar as minhas contas!” Quando escuto isso não posso deixar de pensar em como a maior parte dessas contas são desnecessárias. Roupas, carros, móveis, viagens. Tudo é bastante sem graça diante de uma experiência de expansão da consciência. Não entendendo mal, qualquer expansão da consciência é uma viagem incomparável. Conhecer uma bela pessoa, olhar nos seus olhos, admirar suas peculiaridades, beijar um beijo molhado daqueles que não dá vontade de acabar. Mas essa experiência é limitada, pois uma vez encontrada uma pessoa casa-se com ela e nunca mais se poderá desfrutar dessa viagem ao mundo de outros, ou ao mundo que fica entre um e outro, pleno. Conhecer uma pessoa é uma viagem única e que na minha opinião não fica devendo nadíssima a uma viagem à Europa, aos Andes, à Índia (apesar de eu não ter ido a esses lugares para comparar. Mas comparando com as viagens que já fiz, insisto que não se compara). Diz que o casamento é conhecer todo dia a mesma pessoa, fazendo essa viagem sempre com a mesma, conhecendo-a sempre de novo. Mas mesmo que isso fosse assim, se o encanto fosse o mesmo ou comparável, ainda fica a perene questão de porque essa viagem excluir as outras possíveis.
A parte da preguiça no que diz respeito à pergunta do primeiro parágrafo me assusta porque percebo a prescrição para sermos normais, normóticos, que só fazem trabalhar, contar dinheiro, buscar realizar seus sonhos profissionais-financeiros, onde a auto-exploração não entra, a não ser como epifenômeno: você precisa se conhecer para “subir” profissionalmente, aprender para melhorar de cargo, se relacionar melhor porque é o que as empresas esperam, etc.
O que me espanta é que há muito para se fazer em proveito da vida. Nossa cultura, com tudo de destrutivo que a caracteriza, fornece boas alternativas para quem quiser utilizar bem o tempo que tem sobre a Terra. Mas não aprendemos nem a conferir o que há, nem experimentar. É tudo para o trabalho, para as contas, as viagens, a igreja, a família. Por isso continuamos mais perto dos macacos. No início do Grande Sertão: Veredas, o protagonista Riobaldo pergunta: “Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe?” Eis a pergunta que devemos nos fazer a cada dia, queremos devassar e conferir o que existe? Me parece que é isso ou ficar na mesmice de sempre, contando dinheiro e vivenciando da nossa mente, como disse William James da maioria dos seres humanos, o mesmo que vivenciaria de seu corpo uma pessoa que só movesse o dedinho do pé.
Nosso corpo permanece um desconhecido, nem poderia dizer ilustre, pois da forma como é tratado pela maioria… E se não conhecemos nosso corpo, não há nenhuma chance de conhecermos a nós mesmos, pois a viagem pela consciência começa pelo corpo. E alternativas não faltam. Pode-se ficar uma vida desenvolvendo-se pacientemente em Yoga, kung-fu, tai-chi, corrida. Tudo depende da atitude diante dessa coisas. Mesmo a musculação, terra privilegiada do narcisismo, pode constituir acesso ao corpo. Os sonhos, quem os conhece? Quem dedica dois minutos do seu dia para conhecê-los? Para estudar o que já descobriram sobre eles? A própria consciência, os pensamentos, quem conhece seus caminhos? Sim, estamos mais perto dos macacos.
Há muitas Veredas e continuo com a dúvida do que é que mais nos impede de conferi-las, a preguiça ou o medo?
Oi. Só agora tive tempo p ler esse texto. Belo texto e ótimos questionamentos.
Concordo q perdemos nossa vida tentando acumular bens e pra quê? Pra nada! Pq a qualquer momento nossa vida pode passar, como uma brisa e o que levamos dela? Nenhum bem material. Talvez levemos as experiências que vivenciamos, não sei…
Discordo que estar com alguém é melhor do que viajar para Paris, Índia ou um interior qualquer do Brasil. A experiência de estar em outros locais, vivenciar outras culturas, hábitos, ver as paisagens, encher os olhos com coisas que vc jamais imaginou que veria é algo que não troco por nada!
Seria tão bom se não vivêssemos nessa sociedade de consumo e pudéssemos simplesmente passar a vida viajando, migrando de local a local, conhecendo pessoas, fazendo amizades e depois partindo para um novo destino desconhecido.
abç
A.
Olá! Ultimamente tenho gasto com muito prazer algum tempo lendo e refletindo sobre essas coisas; capitalismo, consumismo, existencialismo, não necessariamente nessa ordem, e incluindo outras que não vêem ao caso. Eu acho muito bonito o texto, muitas pessoas também o acham, e até sentem a vontade de fazer diferente, “negar tudo” rumo a uma vida sem alienação, menos consumista, viajar, ou, viver no mato longe da sociedade, enfim, poderia citar várias outras, porém, o objetivo não é escrever outro texto, e sim, só um comentário. O problema é sempre a prática. Sei que ainda existem muitas pessoas que vivem sem energia elétrica, sem água encanada, telefone, internet, ou seja, coisas básicas, sem citar carros, aparelhos eletrônicos etc. Pensando em viajar, pra rodar o mundo tem que ter grana, já é um empecilho, mas se é isso que se quer mesmo, arruma dois pares de roupa, uma panela e utensílios básicos, pega carona, pede comida, vai se virando. Pra pensar melhor é ler, refletir, e em alguns casos é vivência prática mesmo. Se a questão for só adquirir conhecimento e se isolar do mundo. Compre uma pequena casa bem no meio do mato, obs.: pra isso já precisa dinheiro, e, depois coma raízes, plante algumas coisas pra subsistência, use água da chuva, do rio, não tenha energia, não tenha contas. Antes de tudo isso, caso vc tenha dinheiro compre a casa, os utensílios básicos e livros para um bom tempo. Caso não tenha trabalhe para comprar e depois faça. Não é preguiça não amigo, é falta de coragem das pessoas.
O medo, é a sensação mais hipoteticamente construída. Por ter uma base de suposições, é também a mais falhada. É o sentir abrangente e o promiscuo querer, limitado por míseras rotinas compostas das mesmas visões, e ações,sensações e… Seria isso medo de mudar ou uma ditada quantidade de energia que seu organismo acostumou a gastar?
Acredito que a sensação universal seja o desvalor. Aquele clamado nas horas em que você se olha, mas não se vê. Por preguiça ou medo? Seria assombroso mesmo gozar da própria felicidade nessa época ”capital desistrutural”, pois até a rotina dos grandes investidores, em trabalhar o dia todo, não foram suficientemente plausiveis SE QUER para o próprio sustento.
Então, você pensa em unir-se a alguém. Sua vida anda muito opaca, oscila por eclodir novas sensações, experiências e, até mesmo, motivações. É!
Conhece, entende, senti, namora, e… Rotina.
Você pensa então em se casar: Marca data, comemora com sexo distorcido; trabalha para melhorar a renda; vê-se em êxtase pelo dia esperado; compra terno com o que era renda; gasta o que não pode à procura do anel e se casa. A festa é memorável, (principalmente se o bêbado master, primo bastardo do seu marido, cair). Abraça, beija, e dança e tira foto, e come (primeiramente o bolo, depois sim faz sexo distorcido),e dorme e sonha e acorda e: Rotina.
Você, sem estar consciente, (muito menos com uma felicidade que supra o que seu corpo acha realmente eficiente)…Você, ”pensa” e tem filhos. E Eu acho, que o motivo de não pararem em alguns casos, é por imaginarem uma escadinha humana feita por crianças, da qual pudessem sair do fundo de um poço.
Sinceramente, dito todos os dias: Não precisa me amar, é só me tirar da rotina.