Uma experiência alucinógena. Deitei e fiquei viajando, assistindo Holanda x Rússia pela Eurocopa. E tudo em câmara lenta. Tive muitos insights. Insight. Há quem diga que é uma reorganização súbita do campo perceptual. Fiquemos por aqui, é algo que nos faz perceber subitamente algo que não tínhamos percebido conscientemente ainda. Ou seja, não significa que meus insights em viagem sejam verdades. Claro, são apenas reorganizações. Estas sumiam rapidamente, memória de curto prazo prejudicada.
Uma dessas novas percepções me encantou, de modo que consegui não esquecê-la rapidamente. Até agora não sei bem o que ela significa. Escrever é um modo de ir costurando sentidos. É que eu começava a perder a consciência, como se fosse cada vez me aproximando mais do sono. E ficava viajando nisso, percebendo atentamente o que aconteceria no limite entre a vigília e o sono. Ia acompanhando a consciência se obnubilando e de repente tomava um susto, ria muito. Recomeçava a perceber, ia apagando, susto, risadas… assim sucessivamente, sem conseguir vivenciar a passagem ao sono de forma consciente. E pensei que não poderia vivenciar essa passagem de forma consciente mesmo, já que essa passagem seria por definição a perda da consciência. Uma verdadeira impossibilidade, parecia, levar a consciência onde ela não pode ser. Queria ter a consciência onde por definição é outro reino, da não-consciência. E ria… Como a última coisa que acontecia quando já ia perder a consciência de vez era um susto, concluí de forma peremptória que o limite entre a consciência e a inconsciência é o susto. Acontece que o susto é uma volta súbita e violenta à consciência ordinária. Mas há sonhos lúcidos. Há quem relate mesmo a possibilidade de sono sem sonhos, lúcido! De modo que o sono não precisaria ser identificado com a inconsciência. Voltando ao susto, isso significa que eu poderia ultrapassar o limite entre a vigília e o sono sem precisar passar pelo susto, que me leva de volta à vigília imediatamente. Perceberia meu corpo se aproximando do sono, entrando no sono, sonhando, consciente. Acho que vale a pena dedicar uma vida para aprender isto (ou várias vidas, caso existam). Parece que o susto é um puxão da consciência destreinada, é um Cérbero feroz, ou a Pisadeira (sobre a Pisadeira ver: www.samsara.blog.br/search?q=pisadeira) que expulsa violentamente quem não está pronto, quem não tem a mente verdadeiramente tranquila. Ele se coloca na saída da consciência ordinária e late, late. Cérbero, o cão feroz que guarda o inferno, é a melhor representação de nós mesmos. É nossa ressonância. Babamos e latimos tanto que ao tentar penetrar o mundo além da consciência ordinária o que encontramos é o eco de nossa própria confusão, o latido é o latido nosso de todo dia, de toda hora. É nossa própria confusão que rosna desenfreadamente, e assusta o corpo inteiro de uma vez. Dependendo da situação isso pode ser bastante engraçado, mas fico pensando que melhor seria passear suavemente de reino em reino.