Estou passeando pela savana. Fim de tarde, ocaso. O leão que me leva em seu lombo tem uma cabeleira bonita. É meu amigo. Esses leões solitários. Chegamos a um rochedo. Avisto um calendário pregado na rocha e cochicho ao ouvido do leão. Ele vai até lá. É um calendário anual e está aberto na página 30 milhões a.C. Após a destruição dos dinossauros 30 milhões de anos atrás essas paragens se tornaram mais habitáveis por mamíferos como nós. Não fosse aquela pedrada que a Terra levou nunca teríamos existido. Os dinossauros não teriam deixado. Será que eles teriam desenvolvido a linguagem a essa altura em que estamos agora? Será que teriam criado um mundo melhor?
Continuamos andando pelo mundo. O tempo está praticamente parado, já que a paisagem está parada. Aqueles elefantes ao longe quase não se movem. Paramos e nos deitamos numa sombra a ver o pôr do sol. Aproveito para fazer uma massagem nas costas do leão, não vá alguém pensar que exploro-o como meio de transporte sem dar nada em troca.
A noite já chegou. Essas estrelas são a coisa mais bonita que já vi. Seu silêncio é pleno, suficiente sem nada dizer. Ao mesmo tempo falam umas coisas que não posso compreender. Muitos milhões de milênios passarão. Se não estivéssemos aqui, o leão e eu, a quem essas estrelas estariam cintilando? Sou o único humano no planeta. Não sei como vim parar aqui e nem para quê. O leão não se preocupa com as estrelas. Só eu. Quando levantarmos os olhos ao céu, daqui a milhões de anos, contemplaremos o mistério absoluto. Nosso desespero nos fará denominá-lo, ao mistério. Diremos pai. Contemplo esse mistério e lamento. Pai? Após milhares de anos sobre a Terra, essa é a melhor palavra que inventamos para isso? Depois que o céu, cansado dos dinossauros, catou um pedregulho no chão e tacou na Terra, uma nova linhagem evolutiva se desenvolveu. Nossa raça toda orgulhosa de ser agora a dona do mundo tem a coragem de olhar para fora do mundo e chamar a imensidão de pai! Quando se passarem mais alguns milhões de milênios e algumas outras estilingadas na Terra, os seres que aqui habitarem, se puderem contemplar os céus e conhecerem a nossa história, se também puderem rir, rirão de nós. Rirão muito. Talvez compreendam nossa situação. Há tão pouco tempo por aqui não tivemos tempo de ver nada além dos nossos medos.
Um cometa passa pelas estrelas. Se não houvesse a Terra nem vida em outros lugares, qual seria o sentido de tudo? Nenhum. Mas como existimos, achamos que tudo deve ter um sentido. Só por nossa causa tudo deve ter sentido. Mesmo que sejamos a total insignificância, tanto no tempo quanto no espaço. Gosto de olhar para as estrelas e pensar nelas num universo totalmente despovoado. É a maior falta de sentido que já senti. E por isso mesmo a gratuidade da existência me encanta. O acaso produziu tudo. Não sei o que é o acaso. Como alguém pode dizer que não foi o acaso? Dizer acaso significa dizer: não sei! E gosto de não saber. É bom não precisar saber. É um sentimento único olhar para as estrelas sem saber. Sem fingir saber, claro está. Porque saber ninguém sabe, só delira. Como a idéia de Deus empobrece o Cosmos e nossos sentimentos! A religião torna os seres humanos verdadeiros miseráveis. Sem o mistério somos miseráveis. Acho que é preciso escolher: Deus ou o mistério. Com Deus também pode haver mistério, mas o principal mistério se perde. Deus dificulta nosso espanto. Deus retira de nós um sentimento imperdível. Além de limitar nossa vida. Nos aleija no céu e na Terra.
Um dia meu amigo leão morrerá. Se eu não tiver morrido antes provavelmente vou sentir algo enorme, uma lágrima. Talvez muitas. Elas me farão me sentir mais vivo que nunca. E até que consiga tornar todo o Cosmos meu companheiro, a ponto de poder deslizar sobre suas costas, mesmo que não o compreenda, minha solidão irá me amedrontar demais.

