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Sobre Maconha

Nunca quis escrever aqui sobre meu cotidiano. Não o acho tão interessante assim a ponto de ficar divulgando. Também sinto certo receio, talvez devido ao pacto.

Sobre o pacto. Encontrei uma ponta de baseado. Deu para apenas 3 tragos. Uma onda rápida, mais um sopro mesmo, como a brisa que nos toca dizendo estou aqui. Uma coisa pensei. Por que será que condenam esse estado, proíbem que fiquemos nesse estado? Não é possivel que uma coisa tão gostosa, que colore o mundo com tantos encantos, seja maligna. Que colore nossa alma na realidade. Só encontro uma resposta. É devido ao pacto de mediocridade em que vivemos. Fizemos esse pacto e renovamo-lo todo dia. Demos mediocridade e rebemos alguma segurança interna. Em virtude de nos tornarmos, de nos sentirmos mais seguros, vendemos a alma. Eu também fiz esse pacto e renovo-o sempre. Tanto que logo que passe a onda virei apagar o tópico, ou então veremos quanto tempo ele fica no ar…

Coisa mais difícil é percebermos a diferença. Por mais clichê que isso pareça, é verdade. Contemplar a alteridade cara a cara e sem julgamento, apenas com o espanto inerente a ela. É como contemplar a história do universo, o tamanho do universo conhecido. Simplesmente espantoso. E se somos diferentes mesmo seria bom lembrar disso mais vezes. Mas muitas pessoas nem conhecem isso, nem conhecem o espanto, a radicalidade da alteridade. Simplesmente não conseguem ter a perspectiva do outro. Há quem diga que é uma capacidade cognitiva que se não se desenvolveu nunca vai se desenvolver.

Como podemos discutir por exemplo a natureza humana de um ponto de vista moral? O ser humano é bom ou mal? `Mais bom` ou `mais mal`? Não sei, desconfio que a pergunta talvez seja o problema. Muita gente acha que o ser humano é mal. Mais ou menos assim: se você se colocar entre um ser humano e sua necessidade, ele passará por cima de você, assim sem te respeitar em sua qualidade de outro. Também penso isso. E também, quando vejo certas figuras, dificilmente posso imaginar que haja maldade naquele ser. Como contemplar madre Tereza, Dalai Lama… Se realmente admitirmos que não conhecemos a intimidade de ninguém, que realmente somos diferentes, podemos imaginar que é possível que alguns seres humanos tenham só bondade. Não é porque somos tão mesquinhos que os outros todos devam por obrigação ser assim também.

De fato, eu já vivi momentos de puro e incondicional amor. E não consigo esquecer disso ao imaginar que talvez nosso desenvolvimento se encaminhe para essa estado, que viveria latente na grande maioria.  Um estado de puro amor. Que ideal! Na maior parte do tempo acho isso pura ilusão. Mas se nos desenvolvemos mesmo, psíquica e espiritualmente, não importa quão ruim seja o ser humano em seu estado inicial, porque em seu desenvolvimento maior, só o que restará é sua bondade. Os dinossauros dominaram este planeta por 100 milhões de anos. Não estamos aqui há mais que 100 mil. Será que para ser possível a evolução criar tal ser capaz apenas de bondade será necesária nova catástrofe que recomece a evolução de outro ponto e a encaminhe para outro, como aconteceu com os dinossauros? Ou será que em 1oo milhões de anos seremos capazes de atingir essa situação? Ou seríamos capazes de atingir se vivêssemos os 100 milhões…

Outra perspectiva também é que a pergunta está mal colocada porque supõe uma essência humana má ou boa. Talvez haja apenas organismos sujeitos ao seu meio, vítimas do destino que as forças cegas da natureza definiram. No caso do ser humano, da natureza e da cultura. Um vazio totalmente direcionado pelas circunstâncias. Não há resposta para nós. Não sabemos bem o que somos.

Felicidade é gostar de não ver sentido na vida.

Já que pensamos mesmo, eis um pensamento interessante:

 

“Dê 1% de chance para admitir que você é responsável por tudo que acontece na sua vida”.       will schutz

quem somos nós

Essas coisas O Segredo não fala:

“A responsabilidade pela organização de sua vida reside no todo, no “sistema”, a soma total das instituições que determinam, satisfazem e controlam suas necessidades.

O elevado padrão de vida, no domínio das grandes companhias, é restritivo num sentido sociológico concreto: os bens e serviços que os indivíduos compram controlam suas necessidades e petrificam suas faculdades. Em troca dos artigos que enriquecem a vida deles, os indivíduos vendem não só seu trabalho, mas também seu tempo livre. A vida melhor é contrabalançada pelo controle total sobre a vida. As pessoas residem em concentrações habitacionais — e possuem automóveis particulares, com os quais já não podem escapar para um mundo diferente. Têm gigantescas geladeiras repletas de alimentos congelados. Têm dúzias de jornais e revistas que esposam os mesmos ideais. Dispõem de inúmeras opções e inúmeros inventos que são todos da mesma espécie, que as mantêm ocupadas e distraem sua atenção do verdadeiro problema — que é a consciência de que poderiam trabalhar menos e determinar suas próprias necessidades e satisfações.” (Herbert Marcuse – Eros e Civilização)

Um pouco de futebol

Não sei porque nunca escrevi sobre futebol. É coisa que atrai grande parte do meu tempo e dos meus pensamentos. É coisa que me proporciona a maior experiência estética junto com outras coisas. E acontece sempre, pelo menos duas vezes por semana.

Gosto de pensar que o futebol é um refinamento dos antigos combates em arena. Uma coisa inicialmente mecânica. Um tanto para o lado de cá, um tanto para o lado de lá, tem que colocar a bola em tal lugar, em tais e tais e tais condições. Dizendo assim parece aquelas provas ridículas de no limite, coisa gratuita mesmo. Então, futebol era para ser um jogo assim, gratuito, arbitrário. Tirando a invasão monetária que aconteceu com o esporte profissional, é aquilo mesmo o que ele é, gratuito. É do gratuito, besta, que sai a arte. É do ordinário. E não tem nada mais ordinário que o futebol e suas regras que parecem picuinhas.

Dos jogadores que vi jogar o que tinha o mais belo estilo é o Zidane. Uma classe nos movimentos, elegância, técnica, equilíbrio. É, na minha opinião, o maior carrasco do futebol brasileiro de todos os tempos.

Agora o melhor que vi jogar, mais completo, foi o Ronaldinho Gaúcho . A molecagem mais técnica, eficiente e divertida que vi. A mais bonita. Que pena que aquilo só durou uns 4 anos. O auge mesmo foram dois anos.

É, um pouco de futebol não faz mal a ninguém. Muito futebol faz bem à saúde mental. Produz beleza e a beleza é benigna. Sem falar do futsal. No dá pra esquecer do Falcão em termos de inventividade e técnica.

Como expressão da necessidade lúdica humana é perfeito. E como distração da agressividade, refinamento dela, não é mal.

Mudanças

Quis apagar todos os textos, mas não achei uma tecla única que o fizesse por mim. Pensava assim, dando uma renovada nos escritos, dar por consequência uma renovada nos pensamentos, dando assim uma renovada nos sentimentos, que são o que importa. Só quererei mudar meus pensamentos para me sentir melhor com novos pensamentos.

Escrevo isso ouvindo Eduardo e Mônica.

Não percebia que apagar era dar importância demais a eles. E dei tanta importância que não quis apagar.

É como o nosso passado mesmo. Fico querendo apagar certas coisas. Ora, apagar é dar importância demais. Dar importância demais não é uma forma de não apagar? Seria bom nunca ter me interessado por aquela mulher que me ignorou, diz meu orgulho. Melhor seria nem precisar pensar em não ter vivido isso. Quantas negativas! No texto. Umas expressões contradizendo outras… Tantas contradições tornam o texto truncado, a vida.

Apagar seria dar importância demais a eles. E o que quero é tirar sua importância. Então escrevo sobre eles? Não, escrevo sobre escrever, ou penso sobre o viver. É necessário. Será? Gosto de pensar. Pensando, percebo. Penso escrevendo. Quero mudar o rumo dos meus pensamentos. Cansei da estrada de sempre. Se é que existe a estrada de sempre. Talvez não. Dá pra pensar que enquanto caminhava, caminhava em linhas retas ou tortuosas, mas sem nunca voltar ao mesmo lugar. Mas como o modo de me sentir nunca mudou totalmente, parece que havia uma estrada nos meus pensamentos, uma coerência. Mas não consigo distinguir a estrada que havia então da estrada que projeto agora em direção ao passado. Parece que estou agora criando a estrada, criando uma história onde só haveria cacos independentes. Criando o que acho que sou agora, de frente para trás. Será que nos criamos do início para o fim da vida ou do fim para o início? Um pouco dos dois? Quanto dos dois?  Não sei se estou indo ou se estou vindo.

Há alguns caminhos que parecem melhor que outros para percorrer daqui para a frente. Parece melhor não me preocupar em apagar os caminhos e descaminhos, deixá-los seguir seu rumo, rio abaixo. Isso é uma mudança. Onde ela está? Apenas nos pensamentos? Mas me sinto novo. Não, me sinto velho. Quando for me sentir novo mesmo, parece que o silêncio terá que estar junto. Escrever é mais como tentar inspirar para dentro de mim essa mudança. Quando me calar, pode ser que a mudança já esteja lá. Enquanto isso, devo respirar. Respirar palavras. Essas coisas que são as palavras.

Respondi a uma entrevista e vou transcrevê-la. Também fui o entrevistador. Isso desde que aprendi a pensar. Na falta de alguém para entrevistar ou de um entrevistador, vou fazendo as vezes de um e outro.

1: O que você pensa sobre a vida e o que fazemos com ela?

2: Fico consternado com o que fazemos e com o que deixamos de fazer.

1: Consternado?

2: É. Aqui o que fazemos todos é preencher o nosso escasso e insignificante tempo.

1: Por que insignificante?

2: Porque nossa vida é um piscar de olhos do universo. Claro, mesmo um piscar de olhos é tempo demais. A vida é um nada.

1: Ó, que coisa filosófica. Então você tem idéias sobre como desfrutar o melhor possível desse nada…

2: Sim, tenho idéias.

1: Você gostaria de dizer ao mundo suas idéias, é isso? Talvez abrir uma igreja?

2: É, talvez.

1: Ah sei. E qual seria o credo?

2: Gozar e fazer gozar.

1: Ora, há palavras para designar isso. E creio que não são palavras do agrado geral da humanidade, como hedonismo por exemplo.

2: Então talvez seja melhor eu sair da humanidade. Virar animal, digo, outro animal. Porque este animal humano é simplesmente melancólico.

1: Animal… Você parece mesmo um animal com esse negócio de hedonismo.

2: E com muito orgulho. Inclusive alguns dos momentos em que me sinto mais vivo é quando me sinto verdadeiramente animal, quando meu corpo faz movimentos sincrônicos com outro corpo, autônomos. Movimentos ritmicos, sem intervenção do ego.

1: Também temos nome para isso. E temos lugar para isso. Pessoas certas para isso. Hora para isso. Dias para isso. Partes do corpo determinadas para isso. Tempo determinado para isso. Etc, etc, etc.

2: Pois é. Eis o que me consterna. Na época em que mais nos sentimos livres e somos escravos de tantas condições. Por isso ficamos tão melancólicos ou inquietos. Somos cúmplices demais. Há quem diga que o ser humano não é mal por natureza, nem bom, apenas submisso. E todo mal nasce da submissão. Interessante idéia. É engraçado, as pessoas são quase sempre as mesmas. Não renascem. Renascer é doloroso demais. Digo, é amedrontador demais, mas é muito bom.

1: O que é isso? Como assim renascer?

2: É preciso renascer, para saber o que é renascer. O prazer é algo que nos faz renascer. O prazer intenso.

1: Mas há mais coisas do que prazer nesta vida.

2: É mesmo? Não compreendo. Para mim todos nossos atos são motivados pelo prazer. Prazer de se sentir um bom menino ou boa menina, de ganhar assim o amor dos pais e reconhecimento de todos, prazer de ganhar dinheiro, de praticar esporte, de rezar e ser a boa menina de Deus, de ver a novela das oito… Mas depois que se experimenta certos prazeres, ver novela ou tentar ser um bom menino se tornam algo bem próximo ao ridículo. Esse hedonismo é simples. Nosso tempo é curto, tudo o que fazemos é procurar prazer, então façamos o que nos dá mais prazer, façamos essas coisas que nos dão mais prazer sempre, todo dia. Não compulsivamente, obsessivamente, mas com determinação.

1: Mas para uma pessoa o que dá mais prazer não é o mesmo que para você. Não está sendo mimado achando que todos devem compartilhar com você a preferência e disponibilidade para sentir prazer? Digo que todos queremos ser felizes. É para isso que trabalhamos, descansamos vendo a novela, falando dos outros, fazendo compras.

2: É essa satisfação que me consterna. Me consterna quase todo mundo não perceber o que é realmente bom nessa vida. Porque são submissos ao que essa cultura doentia determina. Essa limitação que os valores dominantes determinam.

1: É, parece que você é radical, só conhece como norma aquilo que te satisfaz.

2: É, sou mimado mesmo. Sofro de narcisismo agudo.

1: Então você gostaria que ficássemos todos só fazendo sexo? Isso geraria consequências que no fim iam é diminuir nosso prazer geral, não acha? O sexo iria imperializar os outros prazeres.

2: Não falei que quero só ficar fazendo amor. Há outras coisas que gosto muito e que acho dignas de tomarem o meu tempo. Como ler, fazer yoga, cuidar do corpo, fumar maconha, conversar com pessoas agradáveis, brincar com meus gatos, jogar video game, ir ao cinema, comer bem, ouvir pink floyd, the doors, cafuné…

1: Então o que devemos fazer com o tempo que temos ao nosso dispor?

2: Devemos fazer muito mais sexo que fazemos, muito mais. Com estranhos, com amigos, com parentes, de segunda a segunda, com o corpo inteiro, em qualquer lugar. Pessoas que se cansam de ser o que são, mesmo que não percebam esse cansaço, já que o enganam com compras, trabalho e novelas, deveriam transar mais. Porque uma boa transa é nada menos que um renascimento. Após um orgasmo, olho para o nada e me sinto tão novo e tão bem que não posso nem de longe compreender porque não estamos todos fazendo isso agora. Fora o prazer de conhecer intimamente outra pessoa, seu corpo, seus movimentos, seu prazer. Sentir prazer é tão bom quanto dar prazer. Por isso a norma é gozar e fazer gozar, pelo prazer e pela reciprocidade, que também é prazeroza por si mesma, além de justa.

1: Vamos transar então?

2: Estou cansado de transar com você. E nem estou dizendo só de sexo propriamente, mas de sensualidade. Sonho viver numa cultura sensual, não numa cultura do narcisismo, onde só a imagem é o que vale, onde cada pessoa é tão apaixonada pela própria imagem. Veja essas mulheres e homens que ficam se exibindo, exibindo suas belezas, seus corpos, seus contornos… e se contentam com isso, exibir. Não posso admitir que isso seja felicidade.

1: Então você também tem idéias sobre o que seja felicidade… Que original!

2: Sim, tenho idéias, derivadas de minhas experiências. Só podemos avaliar nosso estado de felicidade comparando-o com outros estados. O que a maioria das pessoas faz é comparar sua satisfação com o sofrimento maior de outros, ou com seu próprio sofrimento em outros momentos, ou com sua capacidade para o sofrimento, as dores que já sentiu e pode sentir. Mas é quando vivemos um estado de maior felicidade que podemos avaliar o anterior. Temos que comparar nossa satisfação momentânea não só com a dor que poderíamos estar sentindo, mas muito mais com o prazer que poderíamos estar sentindo. Acontece que nossa submissão nos impede de experimentar altas doses de prazer, porque o prazer intenso nos tira de nós. E ficamos com muito medo de nos perder. Então nos convencemos que a vida é isso mesmo, essa felicidade de ausência … E para suportar isso precisamos de muitas novelas patéticas, cigarro, álcool e ambição, ambição. Isso definitivamente não é felicidade para mim. Eu já experimentei momentos de intenso prazer, queira dar o qualificativo que for a ele, prazer estético, afetivo, espiritual, carnal, intelectual… O que me consterna é nos contentarmos com os prazeres conservadores. Não sei se somos assim quase todos (ou todos, diferindo em grau) por medo ou preguiça, como questiona um personagem do filme Waking Life.

1: Então você pretende saber o que é felicidade. E não apenas para você, mas para os outros também… Puxa, os outros não têm o direito e a liberdade de escolherem como querem passar seu tempo sobre a Terra?

2: Claro que têm o direito e a liberdade. E eu tenho o direito de me embasbacar com suas escolhas…

sobre livros

Algumas vezes me dou ao trabalho de armazenar aqui passagens de livros que leio. Vou assim abrindo aspas e deitando palavras na vã expectativa de torná-las minhas. A justificativa manifesta é que aqui as deixarei porque me deram especial prazer na leitura e poderei voltar quando quiser para desfrutá-las mais uma vez. Mas não consigo deixar de perceber essa fantasia semi oculta de que vou me apropriando das palavras dos outros, vou fazendo como se elas fossem minhas. É de se esperar que nós, criados para possuir o máximo possível, queiramos possuir as palavras dos outros. Eu gostava de possuir O Amor nos Tempos do Cólera inteiramente. Queria ter sido eu a escrever este livro, mas o Gabriel Garcia Marquez escreveu primeiro, de modo que agora não adianta colocar aqui passagens selecionadas, até porque seria uma injustiça selecionar menos que o livro inteiro.

Bom, tendo feito essa concessão à minha terrível consciência, vou para o que vim, escrever algumas palavras do livro O Outro Pé da Sereia, de Mia Couto. Pelo que tenho lido é também uma injustiça selecionar trechos desse autor moçambicano. Seus livros deveriam ser transcritos por inteiro, ou seja, deveriam ser lidos.

Nessa parte da história há a visita de um casal americano em Vila Longe, vilazinha longínqua perdida em Moçambique. Os da vila pretendem lograr os americanos com falsas sessões de possessão espiritual. Mas a moça designada para ser a médium faz sua performance com tanto sucesso que ilude os próprios conterrâneos. Sua mãe a questiona sobre de onde ela tem tirado tantas informações sobre a história do lugar e o passado de seu povo. Todos já acreditavam estar a moça sendo visitada pelos espíritos. Suas palavras eram visitações.

“Mwadia respondeu vagamente: os livros e os manuscritos eras as suas únicas visitações. De dia, ela abria a caixa de D. Gonçalo da Silveira e perdia-se na leitura dos velhos documentos. De noite, Mwadia ia ao quarto dos americanos e espreitava os papéis do casal. E lia tudo, em inglês, em português. E havia ainda a biblioteca que Jesustino (o padrasto) tinha herdado.

Nesses últimos dias, Mwadia fechava-se no sótão e espreitava a velha documentação colonial. Agora, ela sabia: um livro é uma canoa. Esse era o barco que lhe faltava em Antigamente. Tivesse livros e ela faria a travessia para o outro lado do mundo, para o ouro lado de si mesma.

Na tarde seguinte, Dona Constança sacudiu a filha que repousava na sala para lhe transmitir a seca ordem:

- Vamos as duas lá em cima.

- Agora? Porquê agora?

- Eu quero saber o que está escondido nesses papéis. Eu também quero ser visitada.”

Tendo chegado ao sótão:

– Agora, leia para mim. Eu também quero ir nessa viagem…

E foi assim que, mãe e filha, passaram a ocultar-se no bafiento sótão por tempos tão compridos que só seriam suportáveis se, naquele obscuro nicho, elas estivessem criando um outro tempo, só delas as duas. (…) A mãe, por vezes, adormecia. Se a filha, contudo, interrompesse a leitura, ela despertava e, com voz arrastada, encorajava:

- Prossiga. Por que é que parou?

O interesse de Constança cresceu a tal ponto que começou a aprontar-se de propósito para a ocasião. Benzia-se à entrada das sessões de leitura. E, de cada vez, escolhia um novo e cerimonioso vestido que retirava da velha arca das donas. Constança vingava-se do tempo solitário em que costurava à espera que alguém mais chegasse.

- O problema da solidão é que não temos ninguém a quem mentir. “

(…)

- Você há de ir embora e eu nunca mais subirei aqui.

Não foi preciso que a filha se fosse embora. Nesse mesmo dia, aos berros, Jesustino Rodrigues proibiu a mulher de ir ao sótão.

- Nem nunca mais, está ouvir?

Quando Mwadia lhe pediu explicação, o goês adiantou: a esposa se revelava estranha desde que realizava aquelas excursões. E se esquecia das domésticas obrigações.

(…) Vila Longe nunca mais se riria do seu caráter permissivo. Doravante, ele seria um homem a tempo inteiro, macho de fachada e conteúdo.

Era, contudo, tarde demais para que Jesustino Rodrigues se exercesse como um proibidor competente. Porque as duas mulheres deram, de imediato, a volta à interdição. Mwadia subia e trazia uma carrada de livros. Na cozinha, enquanto fingia ocupar-se de afazeres culinários, Constança continuou escutando e inventando fantasias. De vez em quando ela imitava os novos modos autoritários do marido e, depois, suspirava:

- Coitado do Jesustino. Quando ganhou a manteiga, faltou-lhe o pão.

(…)

Talvez Constança estivesse enganada sobre a natureza dócil do marido. A verdade é que Jesustino ia apurando dotes de mandador. Ao escutar, repetidas vezes, o alegre gargalhar na cozinha, ele despachou a segunda interdição: que livro nenhum circulasse pela casa.

Afinal, o alfaiate revelava aptidões desconhecidas para o exercício da macheza. Acontecia como previa o ditado de Vila Longe: é a vaca que cria o pasto.

O que Jesustino não contava era com a capacidade infinita de sua mulher dar a volta às contingências. Não passaram dois dias e Constança voltou a instigar a filha:

- Vá ao sótão e encha este cesto de livros!

Mwadia obedeceu e regressou com o cesto do bazar abarrotado de papelada. A mãe já tirara a capulana e envergava um vestido de sair.

-Vamos, disse, conduzindo a filha pelo braço. E traga o cesto.

Quando Mwadia se apercebeu estava no cemitério da Vila.  A mãe apontou uma sombra e sentou-se no chão. A filha imitou-a, entendendo o propósito daquela visita.  Do cesto retirou um livro antigo e começou a ler. Mãe e filha cumpriam o velho costume caseiro de respeito pelos ausentes. Como dizia Constança:

- Os mortos não querem flores, mas companhia.

A leitura demorou até deixar de haver luz. Nesse momento, Mwadia ergueu-se e esperou, em vão, que a mãe se levantasse por si mesma.

- Vê como ainda estou colada ao chão? Um dia destes é só juntarem-me os pés e me encaixotarem

Nos restantes dias, assim que soprasse a brisa da tarde, mãe e filha continuariam rumando, de cesto bojudo, para as sombras do cemitério. Quem passasse ao largo, escutava trechos de prosa, por vezes poemas rimados, lidos na voz pausada de uma jovem mulher. E acreditariam que as duas mulheres estivessem rezando. E, no fundo, não estaria longe da verdade.

Post bombástico

Este é um post verdadeiramente bombástico. Mas é para quem estiver com paciência para abrir dois vídeos.

Um deles, o primeiro, é uma linda destruição com a mais linda música que conheço, do Pink Floyd. É a simulação de um asteróide destruindo a Terra.

O segundo é o que me faz lamentar o primeiro.

http://xpock.com.br/simulacao-de-um-asteroide-de-500k-chocando-se-contra-terra

http://tvig.ig.com.br/78975/cadela-adota-gatinhos.htm

Vamos fingir

Reflexão de fim de tarde para passar o tempo sem que eu o perceba passar. Passatempo. Parece que o tempo é o fantasma afinal. O monstro dentro do guarda-roupa.

Somos fingidos de verdade.

Mas tem uns fingimentos que são bons, porque geram bons resultados.

É bom fingir que o mundo tem sentido, que tudo que acontece tem um motivo, que todos os fenômenos estão interligados, são interdependentes. Que não é por acaso que você está exatamente onde está agora, lendo esses fingimentos. Que há motivos movendo as coisas, apenas não os percebemos. Que delícia quando acontece uma daquelas coincidências muito improváveis e nos faz sentir que tudo está em seus devidos lugares! Se fingíssemos isso o tempo todo a vida seria bem mágica, cada pessoa em nosso caminho seria um presente do universo para nós e nós seríamos um presente para os outros.

Nos embrulhamos de todo jeito para presentearmos os outros. Para que os outros nos retribuam sua admiração. Nosso embrulho é uma isca para pescar o reconhecimento, admiração. O êxtase da admiração. Isso vicia. Queremos amor, mas nos contentamos com reconhecimento. E para isso faremos quase qualquer coisa. E sem isso sentimos que morremos. Estamos condenados!

Esse fingimento de que tudo tem um sentido é mesmo necessário? É um fingimento tão encrustrado que até tenho dúvidas se é fingimento mesmo. Em alguns momentos finjo tão completamente que chego a fingir que é sentido o sentido que deveras sinto.

Um pouco zen

Frase de Hui Neng, o Sexto Patriarca da tradição Zen, vivido no séulo VII:

Desde o princípio, nada é.”

Esses paradoxos zen são das coisas mais interessantes que tenho lido. Nunca sei se devo entendê-los como verdades profundas ou como verdadeiras palhaçadas. Como os Koans. Ao batermos as palmas das mãos uma na outra ouvimos aquele barulho conhecido. Qual seria então o barulho de uma só mão? Tem cabimento alguém passar a vida se entretendo com perguntas como essa?

Esses koans são o seguinte: são ataques contra a linguagem, é o que são.

Com desestruturar a linguagem, a lógica das proposições, desestruturam nosso ego, centro da consciência, feita de linguagem.

No reino da linguagem há o que é compreendido, o que não é compreendido mas é capaz de vir a ser; e o que não é compreendido e nunca será. São daqui os verdadeiros paradoxos.

Qual o som de uma mão sozinha? É uma pergunta que atinge o umbigo da linguagem. Normalmente um só golpe não nos desembaraça deste domínio. Mas, fora do normal, pode chegar um momento em que acontece. Parece que o ego coloca a cara para fora da cortina, fora da linguagem. Ousa sair da toca. E como é feito de linguagem, ao sair desta percebe sua própria inexistência. A libertação é um paradoxo.

Quem viu o filme Identidade, talvez lembre. Lá o cara pira e fica repetindo sobre a presença, subindo as escadas, daquele que não estava lá. Aquele que não existe.

No zen, aquele que não existe é que percebe sua própria inexistência.

O objetivo do zen com o golpe do koan é fazer conhecer que fora da linguagem só existe o não-nascido. Por isso dizem que o não-nascido não morrerá. Mas o que nasceu, morrerá.

Conhecer o que é o não-nascido por definição só se poderá conhecer quando morrer o que nasceu.

Desde o princípio, nada é. Que coisa confortadora!

Lost

nossa, eu estava aqui imaginando um titulo pro texto e pensando (porque tem um campo para titulos, entao pensamos que temos que dar um titulo ao texto, simplesmente passamos a vida toda pensando em titulos para tudo, para nosso sair de casa, etc, etc, etc. Ate´ damos titulos a nos mesmos. “Eu sou o Ze´ do Bueiro!” “Eu sou o Joao das Coves!”, etc, etc, etc. Somos mas e´ um texto inintitulavel. Talvez haja tipos de textos que sejam legitimos entao para designar uma pessoa. Sua vida merece um nome de filme de terror? de amor?porno? Ate´ isso fica dificil. O meu tem amor, tem porno, tem comedia, tem ficçao cientifica (uma ficçao e´ meu carater tranquilo, porque quando perco do meu irmao no video game fico possesso. E´ verdade, tenho que admitir. E´ mais forte que eu!) enfim, tambem nao pode haver nada pior que esse teclado desconfigurado, enfeiando meu texto, ou a imagem que tenho de um texto bonito, que agrade os dignissimos leitores.

Entao eu pensava que o nome do meu texto nao devia ser Lost porque nao e´ meu texto um tratado reflexivamente construtivo. E se alguem fosse pesquisar Lost no google ia cair nesse texto que e´ mais uma viajaça~o que tudo atualmente. Se e´ que antes nao era mais viajaçao ainda; o que eu achava que era serio. Discutia com muita, por assim dizer, bricolagem. Entao eu nao deveria deixar Lost como titulo. Huashuashuas, estou paranoico, com medo do google, com medo que com meu texto afasico possa manchar a idoneidade do google. Nao sei se estava com baixa euto-estima ou megalomania. Dificil tb dizer que megalomania nao e´ a mesma coisa de baixa auto-estima. Quanto mais megalomania, menos auto-estima. E assim sucessivamente, quanto mais o sujeito se vangloria menos gosta de si mesmo. Ate nos, que nao somos megalomaniacos, que nao temos baixa auto-estima(!!!) fazemos propaganda de nos mesmos. Entao cada propaganda e´ a mesma coisa que a baixa auto-estima equivalente. De modo que onde nao houvesse baixa-estima absolutamente, ali nao haveria vida, nenhuma expressao, nenhuma afirmaçao. A megalomania e´ a dicotomia da extrema baixa-estima e elas se encontram na morte.

Mas tudo que ia dizer, antes de me deparar com a necessidade ou impulso de escolher um texto, era uma tentativa de expressar o extremo paradoxo que e´ o Sawyer, do Lost. As veze acho que ele e´ bom, apos ele praticar muitas coisas que acho assim, legais. Entao ele faz uma malcaratice eu penso: uai, mas o Sawyer nao era bom? E concluo que ele e´ mal. O que pode ser bastante injusto, de um ponto de vista. Imagine que voce tem um amigo. Entao um dia ele te rouba, foge com sua mulher, o que for. Se uma vez te roubas, tens o bastante para entitula´-lo ladrao.  Mas esqueces que de vinte vezes em que se encontraram ele so te roubou em uma. Nas outras trinta e nove foi nao-ladrao. Entao me pergunto quantas vezes seriam necessarias para fazer o verdadeiro ladrao, 50% + 1? Se uma pessoa surtar duas vezes iremos dizer que ela e´ definitivamente louca? E todas as outras vezes que ela nao surtou, vamos ignorar. O que precisa um homem para conquistar uma mulher? Ser mais vezes seguro que inseguro? Ser sempre seguro? Parece que esta ultima e´ a que povoa o imaginario masculino, ser sempre seguro. Isso parece bem escrutrado na masculinidade. (Que palavras engraçadas! As juntei apenas porque ficaram belas assim no visualizar a frase. Espero que tambem tenham sentido. Se bem que se elas vieram e´ porque algum sentido deve ter, senao para os outros, pelo menos para mim, que sou de quem a palavra esta saindo agora. O meu agora, porque o seu agora e´ o meu futuro. E o meu futuro, e´ o seu agora. Eu tambe´m terei um agora quando voce estiver lendo isso, mas e´ outro agora desse agora em que escrevo. A-g-o-r-a. Diz que a´gora-fobia e´ medo de estar em publico, medo da praça publica, que na Grecia chama-se agora (com acento no “a”, a´gora. Eis o parenteses mais inutil da historia dos parenteses. Inutil nao, nocivo, porque alem de dizer com todas as letras o que nao quis dizer fora do parenteses, ainda fcia gastando masi espaço ainda, mais de 3 linhas, o que e´ muito mais que admitimos para um reles parentese). E como agora e´ o momento presente o medo do publico e´ o medo do momento presente. Toda fobia e´ agora-fobia. Os jogos da linguagem sao o verdadeiro conteudo da loucura. Assim como o megalomaniaco se leva a serio demais, a loucura sao os jogos de linguagem levados a serio demais.

“Warning: Your computer is infected”. E´ o carai, essa mensagem esta chegando aqui e ja me fez reiniciar o computador duas vezes no meio do texto, por isso esta ele assim (ele o texto), sem que nem praque. E sem acentos nas palavras. E´ o virus, socorrrrrroooooooo! Ele esta´ me engulindo, mesmo dentro de mim esta me engolindo, de modo que vou virar ele. E ele vai virar eu. E´ a loucura.

Dizia que Sawyer e´ inescrutavel. John Lock tambem. Lost, lost, lost, lost.

Santa Maria

É, é, é… Que coisa é essa eu escrever meus pensamentos? Atribuir símbolos a eles? Não parece que uma coisa é o símbolo que atribuo ao pensamento (por exemplo, expressando essa coisa chamada pensamento com símbolos como A M O R) e outra coisa é o pensamento? Aquele outro da linguagem, que vem antes dela e a penetra, faz amor com ela e por ela é levado ao mundo. Seria isso o masculino e o feminino?

E também só conhecemos esses tais pensamentos através da linguagem, de modo que mal discernimos isso que é a linguagem, disso que é o pensamento. Daí poder dizer que linguagem é pensamento. Parece que esse é o par mais necessário que existe. Necessita tanto um do outro, que são o mesmo.

Há outros pares também, que existem,… sempre na nossa imaginação. Ser humano e árvore. Parece que uma pessoa abraçando uma árvore combina mais que um homem e uma mulher se abraçando. Porque a pessoa se alimenta do que na árvore sobra; e a árvore se alimenta do que sobra na pessoa. Mas o homem e a mulher e todos que se relacionam entre si se alimentam do que no outro falta, amor. Falta amor porque ele quer se alimentar dela, de amor. E ela de amor quer se alimentar nele. Mas provavelmente se sentem em maior harmonia que o homem e a árvore. Não se sentem como devem se sentir pensamento e linguagem, que não sabem se distinguir. Só dá pra dizer que se sentem, unidos, como algo entre uma coisa e outra, mas ‘algo’ é uma linda palavra para expressar o que não sabemos que seja. É bom demais e não dá pra entender porque não estão todos agora fazendo amor. Em vez disso estamos aqui, lendo blog, escrevendo em blog…

Porque só pra pensar em palavrear tudo o pensamento tem que estar em amor com a linguagem. Nossa parte no mundo é ficar só fazendo amor, homens, mulheres e árvores, todos com todos. Talvez entre as ávores haja também qualquer elo misterioso. Ia dizer algo misterioso, mas vimos que ‘algo’ é já misterioso sem precisar do mistério junto.

Como não podemos viver só fazendo amor, começamos a trabalhar para ganhar o sustento, para amar de novo e de novo. Aí começamos a trabalhar demais. Começamos a proibir fazer amor. Atacamo-lo por todos os lados. De um lado enchemos o sujeito de tarefas e de outro proibimo-lo.

O trabalho tomou do fazer amor a quase toda parte que lhe cabia no gráfico de pizza. E agora só ficamos trabalhando e não fazemos muito amor. Amor tem hora certa, lugar certo, parceiro certo, dia certo. Coitado do amor.

Uma cultura sensual de verdade seria como vivendo para fazer amor, trabalhando para fazer amor, sem se esquecer disso. Seria muito melhor na minha opinião. Seria isso o hedonismo? E por qual motivo mesmo não deveríamos cultivar nosso prazer ao máximo? Incluindo no nosso prazer o prazer de fazer o que é certo, de modo que meu máximo prazer não conseguirá aumentar com o aumento do desprazer que eu cause em outrem. Se isso acontecer me darão a alcunha de psicopata, o que é apenas um descarrilamento do trem, como se colocasse numa fórmula matemática:

prazer em mim —————– prazer no outro

desprazer em mim ——————– desprazer no outro

O de pessoas normais é assim. Seu prazer vai na direção do prazer do outro e não se desvia dele. É só pena que não existem essas pessoas normais, porque nós sempre não desejamos mal a quase ninguém.

Mas era sobre hedonismo, definido como gozar e fazer gozar.

O silêncio

Não sei bem o que sinto. Por isso escrevo, na esperança de encontrar algum saber aqui. E algum calor no meio das palavras, no meio dos leitores que ainda não estão aqui, mas que virão procurar algo que os distraia da vida. As palavras vão dando substituição ao tempo.

Melhor palavras, mesmo banais, do que o tempo puro e simples. Podia sentar na minha cadeira e ficar contemplando o tempo passar, mas como é solitário perceber o tempo passar! É tão solitário que dá um sono danado. De tudo que encontrei para fazer nessa vida, o mais difícil foi ficar parado em silêncio observando o que é. Não fazer nada é o mais difícil que há para fazer.

Podia dormir. Mas insisto em ficar acordado, como se recusasse acreditar que isso tudo é assim tão vazio mesmo. Não, deve haver algum encanto em qualquer lugar…

Mesmo se já não espero encontrar algum brilho agora, nem no computador e nem nesse ar frio que entra pela porta aberta. Continuo acordado.

Não é mais a esperança que me mantém aqui. Essa banalidade, não sei o que é, a banalidade da vida. Sei que é trivial, mas não é vulgar. Quando se tornar vulgar é que perdeu o mistério. Essa trivialidade me interessa.

Minha “lucidez” é uma pergunta que faço à vida, o silêncio é a resposta. Continuarei perguntando.

E agora que surgiu algo no meio das palavras, já posso dormir.

Melancolia

O poeta é um fingidor

finge tão completamente

que chega a fingir que é dor

a dor que deveras sente

Esta é uma das mais belas expressões que existem no meu mundo. É o verdadeiro avesso do avesso.

E

Que não seja imortal,

posto que é chama,

mas que seja infinito enquanto dure

Nada que dure pode ser infinito enquanto dure. A beleza dessa coisa é o que é. E não imagino como fingir que é dor a dor que deveras sinto.

.

Ó tú que vens de longe, ó tú, que vens cansada

Entra, e, sob este teto encontrará carinho:

.

Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,

Vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

.

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,

E a minha alcova tem a tepidez de um ninho,

Entra, ao menos até que as curvas do caminho

Se banhem no esplendor nascente da alvorada.

.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,

Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,

Podes partir de novo, ó nômade formosa!

.

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.

Há de ficar comigo uma saudade tua…

Hás de levar contigo uma saudade minha…

. (Duas Almas / Alceu Wamosy)

.

Sempre levo uma saudade

de tudo que eu ainda não vi.

Levar uma saudade. Uma saudade é um pedaço de outro ou de um tempo, uma experiência que não passou toda, está agora,  presente; melancolicamente presente. O prazer do que foi e o pesar de não ser mais. Vira uma coisa só, melancolia. Que palavra bonita! Saudade é melancolia?

Estar onde estou

Uma das sensações mais pungentes que podemos ter é a da solidão. Quem nunca percebeu esse sentimento? Pequenas sensações de solidão acontecem sempre. E tem a grande sensação, como se fosse a pura solidão. Já senti lampejos dela, momentos rápidos em que me sinto absolutamente sozinho no mundo. É como se o mundo crescesse e ameaçasse me mastigar. É como se o mundo fosse absolutamente hostil, ou absolutamente indiferente, não sei bem.  A indiferença absoluta é extremamente agressiva. Num sonho que tive entrei em contato com uma agressividade enorme jorrando de mim para outra pessoa, medonha. E ela me parece com uma indiferença total, como se ao agredir aquela pessoa eu me colocasse completamente indiferente à existência dela, ao direito de viver dela. Nunca senti conscientemente tanta agressividade como nesse sonho. Há quem diga que vivemos num universo hostil. Carlos Castaneda por exemplo. Aliás, li um livro dele, chamado a arte do sonhar, que é uma das coisas mais delirantes que já li na minha vida. Acho mais provável existir coelhinho da páscoa do que aqueles seres inorgânicos e seu mundo. Não, acho tão provável uma coisa como outra.

Quem acredita em Deus está na obrigação de acreditar que o universo é benigno. Ou não?

Acho que o universo é indiferente.

Voltando à solidão. Uma das formas mais agradáveis de ludibriar esse sentimento é nos sentirmos conectados ao mundo, ao universo e à vida. E me sinto assim quando acontece uma sincronicidade, uma coincidência. Dá aquela sensação de que estou no lugar certo e na hora certa, que estou onde devia estar. Isso é aconchegante. É uma das coisas que me seduzem em Lost, a interdependência, as coincidências. Engraçado, mesmo pequenas coincidências aparentemente insignificantes nos dão um pouco dessa sensação, como se o fato de duas coisas co-incidirem fosse consequência da ação de uma força que as une, ou fosse sinal da união de todas as coisas, da ligação de tudo com tudo.

Enfim, aconteceu uma muito curiosa comigo ontem. Estava sentado na praça da liberdade, em Belo Horizonte, depois do trabalho, lendo um livro, na maior tranquilidade. Eu não me lembro de ter pensado algum dia que nosso mundo ou a humanidade já passou da meia idade.  Estou lendo dois livros. Um chama Breviário de Decomposição, de Émile Cioran. Li o seguinte de manhã:

Ávida (a humanidade) de seu próprio pó, preparou seu fim e o prepara todos os dias. Assim, mais próxima de seu desenlace que de seu começo, só reserva a seus filhos o ardor desiludido ante o apocalipse…”

O outro livro chama-se Confissões do Impostor Felix Krull, de Thomas Mann. A palavra:

-vinte minutos depois:

Putz, perdi a citação. O texto perdeu seu sentido. Se eu achar depois coloco aqui. Mas é a mesma idéia. De que estamos mais próximos do fim do que do começo. Li as duas no mesmo dia. Amém.

Outra situação, acontecida anteontem, me deu a sensação de que eu estava no lugar certo e na hora certa. Estava em casa a noite, 11 da noite. Queria dormir cedo mas fui pego pelo desejo e fiquei vendo coisas eróticas na internet, por assim dizer. Meu cachorro latiu e fui até a janela olhar. Passava um cachorrinho subindo a rua, em frente à minha casa. Fui ver. Assustado pelos latidos do meu cachorro, ele continuou subindo a rua, meio cambaleando. Chamei-o, já na rua. Parou, olhou, veio andando timidamente. Chegou perto. Me assustei muito com sua aparência, um frio, um gelo na alma. Sujo, tremendo de frio, com a pele toda descascada. Entrei e peguei ração. Voltei à rua e coloquei num canto. Ele comeu desenfreadamente. Minha mãe trouxe uma coberta. Ele “correu” e deitou na coberta, depois levantou e foi comer mais, tremendo de frio, sem saber se cuidava do frio ou da fome. Fui dormir com vontade de chorar. No outro dia de manhã, ontem, ele estava lá todo encolhido.
Quis levá-lo ao veterinário, na esperança de aliviar seu sofrimento. Levamos. O veterinário diagnosticou sarna avançada, leshmaniose e cinomose avançada, doença gravíssima e altamente contagiosa. Deu uma injeção, ele dormiu. Segurei-o enquanto ele cambaleava e caía para não levantar mais. Preto, pequeno, despelado. Segundo o médico ele teria ficado mais uns cinco dias na rua, tremendo de frio e fome e coceira e transmitindo a cinomose.Tirei uma foto e talvez depois coloque aqui. Ele andando rua acima bem devagar era um retrato da solidão, do desamparo total. A conta do veterináio foi 112 reais, provavelmente o dinheiro mais bem gasto do mês. E a sensação de estar onde deveria…

Os segredos ocultos

(Relevar redundância do título)

Sempre me surpreendi um pouco ao ver nas estantes das livrarias tantos livros bonitos sobre ocultismo, bruxaria, tantra, essas coisas. Na verdade nem percebia minha surpresa. Livros grossos, sobre nada. Só agora, ao ler um trecho do livro Breviário de Decomposição, do filósofo Émile Cioran, é que percebi que aquilo não fazia muito sentido para mim. Eu não sabia que pensava isso:

Quem não se entregou às volúpias da angústia, quem não saboreou em pensamento os perigos da própria extinção nem degustou aniquilamentos cruéis e doces, não se curará jamais da obsessão da morte: será atormentado por ela, por haver-lhe resistido; (…)

Toda experiência capital é nefasta: as camadas da existência carecem de espessura; quem as escava, arqueólogo do coração e do ser, encontra-se, ao cabo de suas investigações, ante profundidades vazias. Em vão terá saudades do ornamento das aparências.

Eis porque os Mistérios antigos, pretensas revelações dos segredos últimos, não nos legaram nada em matéria de conhecimento. Sem dúvida, os iniciados estavam obrigados a não transmitir nada. No entanto, é inconcebível que em tão grande número não se tenha encontrado nenhum só tagarela; o que há de mais contrário à natureza humana que tal obstinação no segredo? O que acontece é que não havia segredos; havia ritos e estremecimentos. Uma vez afastados os véus, o que podiam descobrir senão abismos sem importância?

Só há iniciação ao nada – e ao ridículo de estar vivo.

… E eu sonho com uma Elêusis de corações desiludidos, com um Mistério claro, sem deuses e sem as veêmencias da ilusão.”


A gente vai passando

Algumas idéias são fecundas. Tava ali lendo um livro do Eric Berne, americano criador da Análise Transacional. Soltou lá que o tempo não passa, isso é uma ilusão, nós é que passamos. Gostei. Não quis avaliar se isso é fato ou apenas jogo de linguagem, apenas gostei. Aí sentei na poltrona que fica no meu quarto e fiquei observando, não o tempo passando, mas eu passando. De outras vezes eu sento para meditar e fico observando tudo passando. Dessa vez fiquei observando eu passando e o tempo parado. Foi puro. Me senti bastante presente.

Estando presente posso perguntar: o que fazer então enquanto passo? Fui perguntando a cada coisa que fazia: isso é digno de absorver o meu passar? Tava vendo um jogo de futebol na televisão e perguntando. Não soube a resposta. Se perguntamos demais queremos u t i l iz a r cada momento. Acho que foi o que aconteceu com Dostoievski depois que foi absolvido na última hora da pena de morte, já no cadafalso. No seu livro O Idiota (salvo engano) ele cria esse personagem que sobreviveu ao cadafalso e decidiu a partir daí pedir contas a cada minuto da vida. Aproveitar cada minuto. Depois chegou à conclusão de que isso é impossível.

Sim, porque precisamos de lazer, aquela hora livre de necessidades, inclusive da necessidade de utilizar. Sentar e se ver passando é uma ótima coisa a se fazer.

Mas tem coisas que são melhores de fazer que outras. Melhor passar transando do que orando numa igreja. Mas a maioria das pessoas acha que não devemos passar transando, transando por transar. Todo mundo devia transar somente por transar, com ou sem amor, o que é outra coisa. A evolução selecionou os animais que adoram transar, amam transar. Mas nossa cultura resolveu abolir esse negócio, nada de putaria. Melhor passar rezando.

Gosto de passar vendo-lendo histórias de vidas interessantes. Tava vendo prison break, seriado americano sobre um irmão que comete um crime para ir preso com o outro irmão que estava condenado a morte, com o objetivo de fugir com ele (o condenado), resgatá-lo. O que mais gosto de tudo é a relação dele, o salvador, com a médica da prisão. Acho que sou romântico.

Estou aqui parado e percebendo que passo e percebendo que posso passar de várias formas diferentes e escolho a vida, o prazer, o amor. Não a anti-vida, a repressão, o medo.

Gosto muito de passar vendo coisas bonitas. Por isso olho para as mulheres na rua.

Bonito é ver o Ronaldo fazer um gol. Ver aquele sorriso de quem tem tudo o que quer na vida é uma bela forma de passar, porque a alegria plena é contagiosa. Parece que a maior alegria da vida dele é fazer um gol. Não é comprar uma Ferrari ou conquistar uma top model. O gol é o êxtase.

Osho diz que uma vez conheceu um homem iluminado, que fazia esculturas maravilhosas na areia, para no fim do dia a maré vir e derrubar tudo. Esse era o prazer desse homem, contemplar a impermanência, a passagem.

A compulsão

Tava ali sentado na minha cadeira. Sentindo frio, puxei para cima de mim aquele cobertor que estava ali ao lado. Parei de pensar outras coisas para sentir o frio e perceber como é. Aquele frio que me subia pelas costas. O que é o frio? É o frio, é só o que sei dizer sobre o frio.

Fui lembrar então de uns gatos abandonados aqui na minha rua, abandonados não, nascidos na rua, da rua. E fui pensar quais são as piores coisas da vida. Me vieram: o frio, a fome, a dor. Tem a sede, mas essa só me veio agora. A sede extrema. E pensar que pesquisadores de laboratório deixam os ratinhos com sede vários dias, muitos ratos, apenas para depois ensinar o rato a apertar umas alavancas e poderem dizer aos arregaçados de sua própria espécie: “Viu, é como diz a teoria!”.  Mas então tava lá pensando qual critério poderia adotar para medir o quão ruim as coisas são. Pensei que a reação que ela causa no ser deve ser o melhor critério, a reação de fuga. Quanto mais fugirmos de algo e quanto mais desesperados fiquemos se não conseguirmos fugir, mais dolorosa podemos dizer que é a coisa. Dizer doloroso já enviesa o pensamento, pois estou pensando em usar a “dor” para a dor física na comparação, não a  dor em geral, coisa que se pode dizer de qualquer sofrimento, “como dói o frio! como dói a sede! como dói a dor! como dói quando dói sem sabermos o que dói!”

Então fiquei querendo avaliar e colocar na comparação a dor da compulsão, já que a compulsão é uma reação de fuga a alguma coisa. Se o organismo faz algo contra sua vontade deve ser porque não fazê-lo é insuportável. E não sei uma coisa que gostaria de saber, se todas as pessoas têm compulsões. Desconfio que sim, mas no estado em que estou agora eu só desconfio de tudo, como o Riobaldo do Grande Sertão, “Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa!”. É como me sinto agora. Eu tenho minhas compulsões, coisas que faço sem querer racionalmente fazer. Um exemplo: descasco os lábios, fico tirando aquelas pelinhas. É impossível não fazer, tem sido impossível. O mesmo com a energia sexual. Não descarregá-la parece impossível. Então fico tentando lembrar a situação, como realmente me sinto quando vou fazer algo compulsivamente. E o estranho é que não me lembro bem, não sei exatamente como é, no meu corpo, estar tomado de desejo. Lembro como me toma e como fico então. Mas como não me lembro na hora de perceber realmente como isso me dói, não percebo de fato. Talvez se conseguisse perceber de fato não seria tão doloroso, ou seja, não exigiria uma ação compulsiva, que é como estou avaliando o grau de dor que algo acarreta, pela reação de fuga que gera no organismo. A compulsão parece ser aquela coisa que nem nos dá tempo de percebermos o que ela é. Fugimos sem saber de quê, como crianças desesperadas com medo do escuro.

E parece que cada pessoa tem sua compulsões mesmo. Problema é que muitos nem conhecem sua compulsão. Uns têm a compulsão de falar mal dos outros, outros de se sobrepor aos outros. Um de cigarro. Parece que a compulsão física, que chamamos de vício, é mais exigente, portanto mais dolorosa. Mas não sei se é mesmo mais exigente. Será que é mais fácil uma pessoa viciada em mentir parar de mentir que outra parar de fumar? Se a pessoa viciada em mentir as vezes nem sabe que é viciada… não sei, se nem damos tempo de saber como é a dor que a compulsão nos promete.

Se alguém ler isso e não tiver nenhum tipo de compulsão, favor dizer, fica sendo minha pesquisa. Se tiver pode dizer também… De minha parte vou tentar conhecer melhor a dor que é não ceder à compulsão quando ela aflorar. Que dor é essa?

Um, nenhum e cem mil

Citação do livro um, nenhum e cem mil, de Luigi Pirandello:

“4. Desculpem de novo

Deixem-me dizer só mais uma coisa, e então termino.
Não quero ofendê-los – ou à sua consciência, como vocês dizem. Sei que não querem que ela seja posta em dúvida. Mas reconheço, reconhecço que, para si mesmos, dentro de si, vocês não são tal como eu, de fora, os vejo. Não por má vontade. Gostaria que ao menos estivessem convencidos disso. Vocês se conhecem, se sentem, se apreciam de uma maneira que não é a minha, mas a sua; e ainda acreditam que o seu juízo seja o correto, e o meu, o falso. Deve ser, não nego. Mas a sua maneira pode ser a minha, e vice-versa?
Posso crer em tudo que me dizem. Acredito. Ofereço-lhes uma cadeira, vocês se sentam, e vamos tentar chegar a um acordo.
Depois de uma hora de boa conversa, nos entendemos perfeitamente.
Amanhã vocês retornam, com o dedo em riste, gritando:
– Como assim? O que você entendeu? Você não me disse isso e aquilo?
Isso e aquilo, perfeitamente. Mas o problema é que vocês, meus caros, nunca entendem; e eu nunca vou poder explicar-lhes como se traduz em mim aquilo que vocês me dizem. Sei que vocês não falaram turco, sei disso. Usamos, eu e vocês, a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos, eu e vocês, se as palavras, em si, são vazias? Vazias, meus caros. E vocês as preenchem com o seu sentido, ao dizê-las a mim; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente as preencho com o meu sentido. Pensamos que nos entendemos, mas não nos entendemos de modo nenhum.
Ah, isso também é uma velha história, todo mundo sabe. E eu não pretendo dizer nada novo. Apenas volto a perguntar-lhes:
– Mas por que, então, santo Deus, vocês continua a fazer como se não soubessem disso? Por que insistem em falar de vocês, se sabem que, para serem para mim aquilo que são para si mesmos, e eu a vocês tal como sou para mim mesmo, seria preciso que eu, dentro de mim, lhes conferisse aquela mesma realidade que vocês conferem a si, e vice-versa. E isso é possível?
Infelizmente, meus caros, por mais que vocês façam, sempre me darão uma realidade a seu modo, mesmo crendo de boa-fé que seja a meu modo. E talvez seja, não digo que não, quem sabe; mas a um ‘meu modo’ que eu desconheço e que jamais poderia conhecer, o qual somente vocês, que me vêem de fora, reconheceriam: portanto, um ‘meu modo’ a seu uso, não um ‘meu modo’ para mim.
Houvesse fora de nós, externa a vocês e a mim, uma senhora realidade minha e uma senhora realidade sua, digo, em si mesma, igual e imutável! Mas não há. Há em mim e para mim uma realidade minha, aquela que eu me dou; e uma realidade sua e de vocês, para vocês, aquela que vocês se dão – as quais nunca serão as mesmas, nem para vocês nem para mim.
E agora?
Agora, meus amigos, é preciso nos consolarmos com isto:
que a minha realidae não é mais verdadeira que a sua, e que tanto a minha quanto a sua duram só um momento”.

Morreu Thor

Hoje foi a morte de um gato. Coisa corriqueira, fato insignificante na vida de uma metrópole com milhões de vidas, bilhões de vidas. Este gato foi batizado há pouco, apesar de que vivia há muito. Um amigo quis chamar-lhe de Thor. Era surdo, olhos quase fechados, enxergava mal. Tinha poucos dentes. Gato de rua que passava na casa da Ana todo dia para tomar um café da manhã. Espalhava as rações porque não conseguia pegar direito com sua boca sem dentes. Nunca conseguíamos pegá-lo. Era arisco, de uma cara larga, forte. Viveu seus anos ariscamente, talvez por isso tenha vivido tanto. Há alguns dias víamos sangue pela casa. Ele mancando, mas não nos deixava chegar perto, fugia mancando. Hoje havia muito sangue pela casa. Ele estava deitado num canto, atrás da máquina de lavar roupas, prostrado. Não queria mais lutar, não podia mais. Fui chegando perto, com medo de colocar a mão nele. Fui chegando com a casinha de gato. Fui empurrando-o para dentro dela. Ele gemia, reclamava, mas não se defendia mais. Levei ao veterinário. Ao tirá-lo da casinha o susto. A pata dianteira esquerda inchada por três, carcomida por larvas. Esburacada. As larvas caíam pela pata.

Sobreviver nessa selva urbana por mais de uma década é heroísmo para um gato. Precisou ser sacrificado, aliviado de seu sofrimento. Dificilmente se recuperaria, sofreria muito. Agora já não sofre mais. Apenas mais um gato morto. Foi triste compartilhar seus últimos momentos. Uma agulhada de tranquilizante. Seu último gemido, um som de dor, defensivo ainda. Ficamos a veterinária e eu perto dele enquanto ele cambaleava, resistindo ao sono, um último alento da vida. Assistimos e lhe fizemos companhia. Se isso é possível, não morreu sozinho. Apenas um animal. Deve ter deixado milhares de descendentes. Acho que ele merece essa lembrança.

A Boa Vida

Os antigos preconizavam uma boa vida. Refletiam e deitavam critérios para o que poderia ser uma boa vida. Atualmente não somos ensinados a construir algo assim. Somos condicionados a uma vida bem-sucedida. Os critérios são claros e independem de reflexão. Digo, dependem da não reflexão. Todos sabem. É ganhar dinheiro, para ser um bom consumidor de supérfluos.

Parece que todos vivemos com alguma crença mais ou menos consciente sobre o que é uma vida digna de ser vivida. Mas como somos quase todos apenas gados de rebanho, já decidiram por nós o que é essa vida.

Quando adolescente eu só pensava em ser popular no colégio. Era puro narcisismo mesmo, porque nem chegar numa mulher eu sabia (será que hoje eu sei?), nem expressar claramente meu desejo eu conseguia. Mas queria ser desejado.

Depois virei religioso (espírita) e a boa vida me parecia como ser um bom menino, obediente a Deus, que tinha como modelo Jesus e todo o ideal ascético que o acompanha. Meu corpo não compartilhava dessa vontade de ser um bom menino. E se era inibido sexualmente, se era incapaz de abordar uma mulher para realizar com ela meus desejos, me masturbava. Com isso vivia em conflito pois masturbação não faz parte do ideal de vida de um bom menino.

Depois conheci as mulheres. Vi que masturbação continuava sendo bom, mas era melhor estar com uma mulher plenamente. Difícil é estar com uma mulher dessa forma, sem inibições, repressões. Atualmente não procuro me economizar sexualmente, não idealizo a avareza sexual. Mas pelas minhas experiências vivemos numa cultura avara. As mulheres foram ensinadas a serem avaras sexualmente. Vide que uma mulher normalmente não toma iniciativa no cortejo. Mesmo que ela queira conhecer um cara, o que ela pensa é: “Ah, se ele quiser ele que venha até mim. Eu é que não dou minha cara a tapa!” Avareza. Também foram ensinadas a se proteger do sexo, a só se entregarem sob garantias. Avareza. Isso me frustra mesmo. As vezes estou com uma mulher, tudo combinando perfeitamente; e começam os limites, como se a aproximação do ato sexual fosse envolvida por vários perigos. Claro que para mim, que não pretendo me economizar, isso é frustrante. Economia sexual é pura perda de tempo. A única coisa que gasta o corpo é o tempo e a falta de exercícios, nunca o sexo. Também a intimidade não gasta. Digo de novo essas coisas porque vou tentando me esclarecer o que é para mim uma boa vida atualmente. Ora, as mulheres fazem parte essencial do que é uma boa vida para mim hoje. Mas confesso que faço muito menos sexo do que gostaria. E para mim sexo envolve o prazer de conhecer outra pessoa, trocar carícias plenas e intimidade, mesmo que apenas uma vez. Melhor seria ser homossexual talvez. Ter como objeto de desejo os homens, sempre tão disponíveis sexualmente! Mas o número de homossexuais é menor que o de heterossexuais. Então o melhor mesmo seria ser mulher. Se eu pudesse me transportar para um corpo de mulher e desejasse tanto os homens como neste corpo desejo as mulheres, eu iria! Enfrentaria menstruação, preconceito e tudo o mais que pese a vida de uma mulher.

Outro fator que não deixa de me seduzir no que sinto ser uma boa vida é a solidariedade. Li uma coisa que disse o Dalai Lama que me tocou sim. Disse ele que o sentido da vida é fazer o bem para os outros. Já passei pela fase religiosa e hoje vejo tal coisa como ética.

De modo que para mim hoje, juntando as coisas, o ideal de uma boa vida pode ser resumido na lei: gozar e fazer gozar! Este é o meu ideal.

Poder e Prazer

Vivemos numa cultura do poder. E do narcisismo. Não vivemos numa cultura do prazer. Uma cultura deste útlimo tipo teria que estar sustentada na soberania do corpo. A nossa não está. Mesmo quando parece que está, não está. Mesmo nas academias, de forma geral, não temos pessoas que valorizem seus corpos. Valorizam suas imagens. Vide a onipresença dos espelhos. Aprendemos a valorizar nossa imagem para nos sentirmos poderosos. Quanto menos poderosos nos sentimos, mais nos preocupa a imagem que os outros têm de nós. Narcisismo não é auto-estima. Narcisismo é auto-valorização, mas da imagem que passamos. É curioso observar nas academias como ficamos enamorados de nossas imagens nos espelhos, olhando nossos músculos. É bastante infantil a busca desordenada pela imagem ideal, que nunca é alcançada por sinal. É curioso.

Auto-estima é baseada na percepção de si como um corpo, na sensação de si mesmo, no prazer que é ser o que se é. Quem desfruta do prazer de ser, cuida-se. O que significa, cuida do corpo. Aí exercita o corpo, dá a ele o de que necessita, exercício, comidas saudáveis, sono. É muito mais gostoso. Cuida-se do corpo sem que isso seja um peso, uma obrigação. É o óbvio, é prazeroso cuidar do corpo, cuidar de nós.

Sonho viver numa cultura do prazer, hedonista. Não vivemos numa cultura hedonista. Vivemos numa cultura repressiva. Não nos enganemos. O chamado “culto do corpo” é na verdade o culto da imagem. Nossa cultura não cultua o corpo. Se cultuasse seria muito diferente, muito mesmo. Numa cultura do prazer seríamos livres para ter prazer. Eis um truísmo, obviedade. Não somos livres para ter prazer. Se eu tenho uma namorada e conheço outra mulher e nos interessamos um pelo outro e nossos corpos se combinam, mesmo assim o encontro é difícil. Há muitas restrições. Muitas. São necessárias várias garantias para que se possa entregar ao prazer afinal. Isso é maior nas mulheres, que foram muito mais reprimidas. Para que se entregue ao prazer livre, são necessárias garantias, intimidade. Muitas mulheres que se entregam ao sexo no primeiro encontro se frustram, não porque isso é errado, mas porque após o sexo sem garantias (compromisso, segurança de ver essa pessoa de novo) se sentem sem o seu poder pessoal. Sentem-se mal, vazias, porque esperam que o outro vai preencher seus vazios e quando o outro se vai o vazio permanece. Claro, sexo não é garantia de preencher vazio de ninguém. Sexo é encontro de corpos, o que é prazeroso e íntimo mesmo que seja eventual. A intimidade de alguém não é algo a ser protegido da forma como é normalmente. “Ah, eu não entrego minha intimidade para qualquer um!” Que pena, pois a intimidade não se gasta. Antes pelo contrário, ela se fortalece quanto mais se encontra com outra intimidade. Uma pessoa não perde seu poder ao compartilhar intimidades. Talvez perca sua imagem ideal, de alguém assim assado, que aprendeu a amar assim assado, que aprendeu a esperar do sexo e dos outros isso e aquilo. Mas é melhor perder essa imagem logo mesmo. E fazer o que seu corpo pede! E ele pede, exige! Satisfação.

Sócrates teve um discípulo chamado Aristipo de Cirene. Curioso que ele não tenha ficado famoso, mas compreensível. Se vivêssmos numa cultura do prazer ele seria famoso. Foi o primeiro hedonista. Sua lógica era o gozo. “Os adeptos de Aristipo inauguram aquilo que, com Nietzche, poder-se-ia chamar o grande sim à vida, a aceitação da existência na menor de suas eflorescências”. (Michel Onfray – A Arte de ter Prazer) Por isso sou contra as religiões, pois elas o que dizem é essencialmente: “Não!” Não à vida na medida que não ao corpo. Por isso são falsas e nocivas, extremamente nocivas. Mesmo que tenham um papel regulador, que controle as angústias das pessoas, o fazem ensinando-as a dizerem não à vida. Portanto não deve haver condescendência. Religiões, principalemnte cristianismo, hinduísmo e judaísmo, são falsas e nocivas!

Para os hedonistas o gozo vale por aquilo que ele é, não como meio para atingir um fim. Vamos gozar, ponto final. “Obtém-se o prazer onde ele está, como se pode, o resto é literatura de moralista mal-humorado.” (Michel Onfray – A Arte de ter Prazer) Eis uma frase estranha para nós, criados para cercar o prazer de altos cuidados. Mas por mais que tente, não consigo mais ver o que tem de errado nessa idéia!

“Corpo em movimento, carne percorrida por energias agradáveis, desvencilhada de tensões desagradáveis, órgãos suscitados pelo que podem trazer de bem-estar, o hedonismo é uma filosofia da matéria corporal, uma sabedoria do organismo”. (idem)

Insana

Nossa vida é um episódio que perturba, sem nenhuma utilidade, a serenidade do nada”.

Muito curioso como senti e sinto prazer ao me deparar com essa frase, escrita por Schopenhauer. Uma frase que ao se encontrar com minha subjetividade, gerou em mim prazer. Variados são os prazeres. Uma delícia a impetuosidade, a verdade quase que extravagante. O melhor vem entre vírgulas, como se fosse um apêndice apenas. Como se começasse a frase violentamente e, entre vírgulas, como que para amenizar o que por si já era feroz, viesse o pior, “sem nenhuma utilidade”. Vivenciei essa frase femininamente, porque atravessado pelo sentido e acolhendo-o lá onde a dor e o prazer são um só.

Sua beleza me seduz de imediato, antes mesmo de acabar. Como um raio que de tempos em tempos rasgasse o Universo à velocidade infinita, o que significa estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Atravessa mas já está no fim e no começo. E julgo que ela seduz pelo paradoxo, pelo inconclusivo, porque sendo o que de mais inclemente atinge nossa angústia e vontade de sentido, também consola. É o maior dos consolos para mim. É um consolo brutal. O paradoxo é a plenitude. É preciso ter um dia rido e chorado absolutamente ao mesmo tempo, para compreender o que é o paradoxo. É o vazio, o silêncio, onde não é uma coisa nem outra e é as duas.

Herman Hesse

Lendo “O último verão de Klingsor” de Herman Hesse, quis registrar aqui uma parte que gostei e que pretendo ler outras vezes. São 3 histórias no livro. Essa parte é da segunda história, chamada Klein e Wagner:

Na realidade, só se sentia medo e angústia de uma coisa: deixar-se cair, dar o passo para a incerteza, o pequeno passo para fora de qualquer segurança que pudesse haver. E quem se tivesse uma vez, uma única vez, abandonado, quem tivesse praticado o grande ato de confiança e se entregasse ao destino, estaria libertado. Ele não pertencia mais às leis da terra; caíra no espaço e era levado pela dança das constelações. Era assim.

“Não pensou nessas coisas como se fossem pensamentos. Viveu-as, sentiu-as, tocou-as, cheirou-as, provou-as. Viu a criação do mundo e o declínio do mundo, como dois exércitos que se enfrentavam perpetuamente, sempre em movimento, sem nunca chegar a termo, eternamente em marcha. O mundo nascia constantemente e constantemente morria. Quem aprendia a não resistir, a deixar-se cair, a morrer com facilidade, nasceria sem dificuldade. (…) Procissões de seres vivos marchavam uns contra os outros, e cada qual não se compreendia e se odiava e procurava em todos os outros seres odiar-se e perseguir-se. O anseio de todos era a morte e a paz e o seu objetivo era Deus, era voltar a Deus e permancer em Deus. Esse objetivo criava angústia porque era um erro. Não era possível permanecer em Deus e não havia paz! Havia apenas o eterno, glorioso e sagrado ato de exalar e de aspirar, de assumir forma e ser dissolvido, de nascimento  e de morte, de afastamento e de volta, sem pausa e sem fim. Por isso, só havia uma arte, só havia um ensinamento, só havia um segredo: deixar-se cair, não resistir à vontade de Deus e não se apegar a coisa alguma.”

Uma metáfora das mais fecundas para compreendermos o funcionamento mental é a utilizada por Jung. Diz que o ego, o centro da consciência, é como uma ilha no enorme oceano inconsciente. Esse oceano é povoado por inúmeras outras ilhas e barcos e entulhos isolados. São idéias, emoções variadas e todo tipo de conteúdo mental, memórias, sonhos, desejos… Ele considera que as idéias se distribuem em volta de um centro. São vários centros, vários núcleos no inconsciente. Quando um desses núcleos está ativo, influenciando a consciência diretamente, diz-se que ele está constelado. Esses núcleos é que são os chamados complexos. Ilustrando pelo muito falado complexo de inferioridade. Algumas situações geram em mim sentimentos de inferioridade, de menos valia, desprezo por mim, etc. Diz-se que essas situações constelam meu complexo de inferioridade. Todos temos esses sentimentos de inferioridade, mas em algumas pessoas eles se constelam facilmente. Jung tentou compreender até as aparições espíritas com a idéia dos complexos. Um espírito seria um complexo constelado projetado “fora” da mente. Tudo bem até aqui. Estou preparando o terreno para descrever um pouco minha própria experiência com a morte.

Quando meu pai morreu, aos 28 anos de idade, há 28 anos atrás, eu tinha 11 meses. Hoje tenho 29 anos e não me recordo do meu pai. Semana passada fui com um amigo até uma comunidade do Daime, em Lagoa Santa. Há já algum tempo eu estava querendo experimentar o chá do Santo Daime, ou ayahuasca. Vivenciei muitas coisas. Passei mal fisicamente, vomitando várias vezes, chorei bastante. No auge da experiência, deitado num colchão, vivenciei um desamparo profundo, uma angústia incalculável, como eu não podia imaginar existir e que eu nunca percebera em mim. Era apenas sofrimento puro, sem objeto. Uma dor insuportável, mas vazia de conteúdos. Simplesmente o desespero, nada menos. Isso durou algum tempo e depois passou. Fiquei me perguntando então que dor é essa que não percebo em mim e que me inundou naquele momento.

Compartilhei a experiência com uma amiga do coração, alguém com quem tenho uma sintonia e cumplicidade profundas. Ao falar sobre essa dor sem objeto essa amiga me disse que conhece essa experiência. Ela perdeu o pai muito cedo, numa época em que ainda não podia simbolizar isso, pensar sobre a morte, tentar compreender esse incompreensível. Depois elaborou a experiência e percebeu que essa dor sem objeto diz respeito a essa perda anterior, que deixou uma marca na alma. E que sente isso em mim também. Nós dois perdemos nossos pais muito cedo, numa época em que não podíamos compreender essa falta, que ficou “registrada só como sensação”. A ficha caiu. Quem conhece um pouco a mente humana sabe que no inconsciente não há tempo. Um afeto não vivenciado conscientemente pode ficar se constelando de forma inconsciente por uma vida inteira.

Faz muito sentido esse sentimento não nomeado, essa dor sem objeto se manifestar agora. Minha mãe está doente. Vivenciar isso naturalmente constela em mim experiências anteriores relacionadas com a morte. A experiência de morte principal para mim foi a da morte do meu pai. Esses sentimentos é que foram constelados pelo Daime e me invadiram a consciência de forma brutal. Minha mãe diz que quando meu pai chegava do trabalho eu já estava esperando-o. Ele entrava fingindo me ignorar, depois vinha brincar, me pegava no colo, etc. A partir de certo dia ele não chegou mais. Com certeza aquela criança de 11 meses não sabia o que pensar. Apenas registrou uma falta, que deve ter sido mais pesada a cada dia, apesar de inconsciente. Depois criei uma personalidade bastante “invulnerável”, como se fosse imune ao sofrimento. É uma defesa compreensível. Nosso ego, a representação que temos de nós mesmos, é isso, uma defesa contra o sofrimento insuportável que a criança experimenta e de que não nos lembramos normalmente. Não que meu ego seja fruto apenas disso, da falta do meu pai. Há outras ilhas na minha mente que se constelam e têm sua própria história. Mas essa foi a que me surpreendeu nestes dias, pela sua força inimaginável, pela fragilidade que evidenciou em mim, fragilidade do meu ego, minha defesa. É muito frágil, sou muito frágil. E quanto mais frágil, mais rígido. Nossa história pessoal é a história de nossas frágeis defesas. E essa criança que um dia não soube como lidar com o sofrimento, ainda vive. Ela precisa de nosso amor, do reconhecimento, não da nossa negação nem de autopiedade. Temos razão em negar que isso exista. É difícil demais. Nosso ego auto-suficiente é frágil demais. Assim somos todos.

Pessoas muito rígidas, e são tantas, apenas continuam batalhando, gastando toda sua energia em se defender. Isso é sofrimento também, essa batalha que nunca acaba. E quando reconhecem o sofrimento, tendem a ser as verdadeiras vítimas da vida, dominadas pela auto-piedade. Me parece que os homens tendem mais a se enrijecerem, negando seus sentimentos, criando personalidades racionalistas, verdadeiras couraças contra a fragilidade e os afetos. Conheço muitos assim. E as mulheres parece tenderam mais ao reconhecimento dos sentimentos mas com auto-piedade, vitimização.

Repressão

Um pouco de Eros e Civilização, de Herbert Marcuse:

As restrições impostas à libido parecem tanto mais racionais quanto mais universais se tornam, quanto mais impregnam a sociedade como um todo. Atuam sobre o indivíduo como leis objetivas externas e como uma força internalizada: a autoridade social é absorvida na “consciência” e no inconsciente do indivíduo, operando como seu próprio desejo, sua moralidade e satisfação. No desenvolvimento “normal”, o indivíduo vive a sua repressão “livremente” como sua própria vida: deseja o que se supõe que ele deve desejar.”

“A organização da sexualidade reflete as características básicas do princípio de desempenho e sua organização social. Freud destaca o aspecto de centralização. É especialmente eficaz na “unificação” dos vários objetos dos instintos parciais num único objeto libidinal do sexo oposto e no estabelecimento da supremacia genital. Em ambos os casos, o processo unificador é repressivo — quer dizer, os instintos parciais não evoluem livremente para um estágio “superior” de gratificação que preserve seus objetivos, mas são isolados e reduzidos a funções subalternas. Esse processo realiza a dessexualização socialmente necessária do corpo: a libido passa a concentrar-se numa parte do corpo, deixando o resto livre para ser usado como instrumento de trabalho. A redução temporal da libido é suplementada, pois, pela sua redução espacial.”

“Originalmente, o instinto do sexo não tem limitações extrínsecas, temporais e espaciais, ao seu sujeito e objeto; a sexualidade é, por natureza, “polimòrficamente perversa”. A organização social do instinto sexual interdita como perversões praticamente todas as manifestações que não servem ou preparam a função procriadora.”

“A Freud deu que pensar por que o tabu sobre as perversões é sustentado com uma tão extraordinária rigidez. E concluiu que ninguém pode esquecer que as perversões são não só e meramente detestáveis, mas também algo monstruoso e terrível — “como se exercessem uma influência sedutora; como se, no fundo, uma secreta inveja dos que as desfrutam tivesse de ser estrangulada”. 48 As perversões parecem fazer uma promesse de bonheur maior do que a da sexualidade “normal”.

“Contra uma sociedade que emprega a sexualidade como um meio para um fim útil, as perversões defendem a sexualidade como um fim em si mesmo; colocam-se, pois, fora do domínio do princípio de desempenho e desafiam os seus próprios alicerces.”

Rivalidade entre os sexos

Muito me surpreende a rivalidade que existe entre os sexos. Entre todos, mas estou refletindo agora sobre homens heterossexuais e mulheres heterossexuais. As relações ocorrem num imenso rio de ambivalência. Ao mesmo tempo que desejamos o sexo oposto, rivalizamos com ele, desprezamos muitas de suas atitudes. Sentimos sua falta se não o contactamos muito, mas se convivemos muito normalmente não o compreendemos de forma alguma. Lê-se compreensão aqui como a atitude de se colocar no lugar do outro e entender de seu ponto de vista a lógica de seu jeito de ser, e aceitar esse jeito. Algo bem parecido com empatia.

Quer me parecer que esse estado de coisas não é muito favorável a ninguém, de modo que seria melhor nos darmos conta do que é que influencia nossos sentimentos e julgamentos em relação a esse outro radical que é o sexo oposto. Estou aqui refletindo sobre algumas coisas que percebo em ambos o sexos. Devem existir outras coisas e talvez algumas percepções minhas sejam viciadas, mas talvez não muito.
Nós homens experienciamos muito mais desejo sexual do que as mulheres no dia a dia, no cotidiano. Já vi pesquisas que de alguma forma mediram quantas vezes por dia homens pensam em sexo e descobriram que é um número muito superior ao número das mulheres. Também estamos mais disponíveis para experiências sexuais. Isso é óbvio, não precisa pesquisa para convencer ninguém, eu imagino. As causas disso é que são controversas. Alguns citam a natureza, outros citam a cultura. Eu percebo nas duas instâncias um encorajamento maior para os homens sentirem o desejo sexual. Na natureza talvez seja mais controverso, mas percebo na biologia masculina uma necessidade sexual mais imperiosa, mais presente. Isso percebo nas reaçõs que julgo causadas pelo hormônio testosterona, presente em doses 10 vezes maiores nos homens que nas mulheres. Já vi um caso de uma mulher que precisou tomar doses desse hormônio e que relatou somente pensar em sexo o dia inteiro. Outra diretiva da natureza é a observação dos animais, onde na grande maioria das espécies os machos são mais disponíveis sexualmente. As fêmeas somente estão disponíveis em épocas limitadas (cio) e com não muitos parceiros, pelo menos não tantos quanto os machos. No nível da cultura é desnecessário dizer, é óbvio que os homens são encorajados a manifestar seus desejos muito mais do que as mulheres. De modo que, sendo verdade ou não (acho que é) que nossa natureza encoraja os homens ao sexo mais do que as mulheres, nossa cultura assim o faz definitivamente.

E aqui estou eu andando pela rua carregando milênios de evolução biológica e cultural. Sinto desejo por cada mulher bonita que passa por mim. E coisa que incomoda: essas mulheres que desejo não se interessam por mim, na grande maioria das vezes. Não se mostram disponíveis. Ora, isso incomoda. Penso: como podem ignorar esse desejo, como podem estar tão alheias a isso? E dá uma certa raiva. Vem daqui uma das fontes de ressentimento dos homens em relação às mulheres. Parece que ser desejado é melhor que desejar. Daqui vem um sentimento pouco reconhecido: a inveja. Nós homens sentimos inveja das mulheres, porque estão normalmente numa posição muito mais cômoda, a de serem desejadas. Desse sentimento vem um despeito e me parece vir daqui a atitude um tanto agressiva dos homens com mulheres desconhecidas, aquelas cantadas obscenas que certamente não ajudarão o homem a realizar seu desejo. Se um homem vê uma mulher que o interessa, certamente ele tem muito mais chance de conseguir algo com ela se tratá-la com delicadeza. Mas não é o que vemos pelas ruas, a atitude de “mexer” com as mulheres sugere muito mais uma vingança do que uma tentativa de persuasão. Isso não é nada consciente para os homens, mas é como se pensassem: “tudo bem, eu te desejo e você não me deseja, você não me quer, então toma uma afronta: kjgg%¨#&¨#%RFF!”. Eles sabem que isso desagrada as mulheres (pelo menos a maioria delas) e se deliciam com seu desagrado. Para mim é obviamente uma vingança. Seria necessário que os homens se dessem conta desse ressentimento. É difícil lidar com a frustração de não realizar nossos desejos plenamente, mas se são nossos desejos então nós é que devemos nos responsabilizar por eles. Podemos lamentar o estado das coisas, nossa situação cultural de milênios de repressão da sexualidade feminina, podemos questionar isso. Mas devemos lidar com nossa frustração de forma mais honesta.

A inveja é um sentimento normal, que não desmerece ninguém. Tendemos a invejar aquilo que não temos. De modo que homens sentem inveja das mulheres e mulheres sentem inveja dos homens.

Outra fonte de ressentimento dos homens diz respeito à maternidade, esse algo que parece bastante mágico. Isso gera inveja. Mesmo que eu não deseje ficar grávido, que eu não esteja disposto a pagar o preço da gravidez se me fosse concedido, mesmo assim a maternidade gera inveja. Dói escutar que sentimos inveja, mas sentimos. Nossa primeira experiência de dependência foi radical. Um dia (melhor dizer, alguns dias, alguns anos, muitos anos em alguns casos) dependemos completamente de uma mulher, nossa mãe. Fomos completamente vulneráveis em relação a ela, de modo que era ela a todo-poderosa. Parece que o sentimento de dependência vivenciado primariamente persiste e daqui, dessa fonte inconsciente e arcaica, deve vir algo do medo que os homens sentem das mulheres. Medo arcaico e desnecessário. Digo medo porque a repressão que as mulheres sofreram e sofrem só pode advir de alguma necessidade muito forte de controlá-las. E se sinto uma necessidade muito forte de controlar alguém, é porque esse alguém de algum modo me atemoriza. Seria necessário nos darmos conta desse medo também, para podermos deixá-lo fluir, ir embora rio abaixo, coisa que melhoraria em muito a harmonia do planeta. A situação que vivemos em relação ao controle das mulheres é absurda, ainda que muitos não vejam isso. O número de mulheres agredidas nesse planeta diariamente é chocante. Segundo dados das nações unidas, uma em cada três mulheres nesse planeta já foram ou serão violentadas de alguma forma por homens. E claro que muitas dessas são e serão violentadas diariamente, uma vida inteira. Isso é uma calamidade ignorada. Acho que se pudermos nos dar conta de nossos ressentimentos e aceitá-los, será melhor para todo mundo.

Então há ressentimento, inveja e medo entre nós. Em outras época eu não podia nem ouvir falar nisso, negava, me ressentiam mais ainda. Mas precisamos reconhecer o que é. E para que os homens reconheçam esses sentimentos é preciso que deles se fale com compreensão e que se reprima suas consequências, a violência. Mas é certo que do lado das mulheres há também muito ressentimento em relação aos homens, de modo que muitas se sentem tentadas a, quando percebem essas fragilidades masculinas, falar delas sem compreensão, usando-as para por sua vez se vingarem dos homens, dizendo de modo depreciativo: “têm inveja de nós, têm medo, são uns porcos mesmo!”, etc. Não percebem também seus próprios ressentimentos e medos e invejas.

Se ressentem da opressão sofrida pelo sexo feminino. Esse ressentimento é bem compreensível.

É curioso perceber como as mulheres se referem ao pênis, como tiram prazer em falar das “deficiências” do pênis, como se divertem quando podem juntar-se e comentar como alguns pintos são pequenos, como ficam moles logo. É patente o prazer de menosprezar os homens com seus pintos ansiosos e pouco resistentes. Ora, aí tem coisa. Me faz desconfiar fortemente que aquela inveja do pênis que Freud percebeu em meninas permanece inconsciente nas mulheres. Não que falte algo às mulheres, mas a menina pensa que falta e essa menina continua viva no inconsciente. É como o medo arcaico que os homens sentem das mulheres porque um dia uma mulher foi todo-poderosa em sua vida. Não é necessário mais. Podemos descartar esse medo. Assim também as mulheres poderiam descartar essa inveja que um dia tiveram, porque um dia o pênis foi sinal de poder, mas agora crescidas sabem que não é sinal de poder nenhum. Mas sabem isso apenas nessa superficial camada mental consciente. Dá para ver aqui como a percepção de algo que não temos (seja algo imaginário ou não) gera efeitos emocionais, sentimentos como inveja e ressentimento. E como esses sentimentos geram comportamentos, que fomentam a rivalidade.

Seria natural as mulheres se ressentirem de serem mais fracas fisicamente, pois isso as torna mais vulneráveis num mundo onde não reinam a paz e o amor. Parece que isso existe. Tende-se a menosprezar a força e não o mal uso dela. A força física me parece uma coisa boa por si só, desde que não utilizada para oprimir nenhum outro ser.

De que mais as mulheres se ressentem nos homens? Fiz um relato sincero do que eu como homem me ressinto ou já me ressenti em relação às mulheres. Seria o caso de as mulheres se abrirem também para sabermos do que se ressentem em nós. Porque o ressentimento não reconhecido gera agressão. Se alguém quiser colaborar sou todo ouvidos.

Alguém falou por aí que para um homem amar uma mulher ele precisa amar as mulheres e vice-versa. Reconhecer nossa rivalidade e seus motivos é uma forma de iniciar essa jornada. Pelo que vejo, de modo algum os homens amam as mulheres em geral. E menos ainda as mulheres amam e compreendem os homens. Elas têm mais motivos para não amar os homens em geral, porque a violência foi e é grande. Normalmente, quando vejo mulheres que tentaram compreender um pouco os homens, principalmente no que diz respeito aos desejos sexuais onipresentes dos homens, vejo apenas atitudes condescendentes. “Ah, deixe-os com seus desejos, são apenas animais!” Atitude bastante agressiva. E pelo que parece, agredimos quase sempre é para nos defender.

Compreensão de fato é muito difícl encontrar.

Pensando alto sobre o tempo

A única questão é o que fazemos do tempo que temos neste planeta. Dinheiro é uma tentação, de modo que boa parte do nosso tempo passamos tentando ganhar dinheiro. Uma parte do tempo em que não estamos tentando ganhar dinheiro, estamos pensando em como ganhar e fantasiando sobre como seria se ganhássemos.

Mas cada pessoa tem assim um centro de gravidade, uma “região” de consciência onde mora, digamos assim. Cada um orbita por essa região e muito pouco por outras. Essa região tem sua própria qualidade de vida, alegria, paz, medo, inteligência, etc. Posso ter um sonho de ter uma moto espetaculosa, fico anos tentando adquiri-la. Quando consigo sinto uma felicidade, mas é certo que uma semana depois já me acostumei e continuo no mesmo nível de consciência, desfrutando da mesma felicidade de antes. Vale o mesmo se eu ganhar 10 milhões na mega sena. Piorando a situação drasticamente já não sei. Digamos que eu sofra um acidente e fique tetraplégico. É, neste caso não sei. Talvez uma depressão possa me jogar mais pra baixo de forma definitiva. Mas para as amenidades de que a vida é feita normalmente, não faz muita diferença. Isso talvez varie também para tipos de temperamento. Eu sou predominantemente introvertido, de modo que o que acontece fora de mim não altera tanto minha disposição quanto a de uma pessoa predominantemente extrovertida, que é mais suscetível ao que está fora, no ambiente. Mesmo assim, essa pessoa também vive em um centro de gravidade que não varia muito.

Algumas experiências podem nos dar acesso a outros centros, mudanças de consciência. Na psicologia chamam isso de experiências de pico. Sujeito vive outro nível de consciência, as vezes algo totalmente pleno, como nas experiências místicas e de conversão religiosa. Depois volta ao centro de gravidade normal. Talvez volte um pouco diferente. Isso pode gerar transformação, que é mudança definitiva no centro de gravidade. Uma forma interessante de ter acesso a outros níveis de consciência é o uso de algumas drogas alucinógenas, como LSD. Esta droga pode proporcionar viagens a outros reinos interiores. Curioso porque isso é proibido. Já cigarro e álcool não proporcionam isso, apenas anestesiam uma inquietude do espírito.

Então a qualidade de vida em última instância é função principalmente do nível de consciência. Sendo pura ilusão o que aprendemos a procurar nesta vida, o que aprendemos a fazer do nosso tempo. Outra coisa interessante sobre isso é que nossa cultura não nos proíbe a mudança de consciência de forma explícita, mas nos distrai com tantas coisas que pouco tempo sobra para descobrirmos outros mundos em nós mesmos. Aprendemos a fazer do tempo um problema. Quase ninguém consegue ficar sem fazer nada. Isso gera tédio, uma inquietação muitas vezes intolerável. Por que será? Sentar, fechar os olhos, ficar observando nosso mundo apenas… Se fizéssemos isso com dedicação poderíamos ver quais fantasmas se repetem em nossos pensamentos e expectativas e medos. Percebendo os fantasmas eles deixam de nos assombrar. O que nos assombra é o que fica na escuridão.

Outra forma difundida de passar o tempo é o sexo e suas manifestações. Inclusive boa parte da indústria do entretenimento se alimenta do desejo sexual. Sexo é bom demais mesmo, o que posso dizer? É algo que vale a pena. Mas nem sempre. Normalmente o tempo que gastamos criando a situação de uma experiência sexual, e o esforço que fazemos, não compensam a rápida fornicação. Também o sexo é algo ainda bastante proibitivo. Muitas pessoas acham que vivemos tempos depravados. Não é bem assim na minha percepção. Primeiro que chamar de depravação atos sexuais é mero moralismo. Segundo que fazer sexo não é assim tão fácil. Eu gostaria de fazer todo dia e com muitas mulheres diferentes. É o meu desejo, o que posso fazer? Moralizá-lo? Muitas pessoas, mulheres principalmente, aprenderam que sexo é algo animal que nos rebaixa, sendo uma atividade que só podemos fazer sob certas condições controladas. Em alguns locais específicos, com uma idade limitada, com certas pessoas apenas que preenchem alguns requisitos, em determinadas horas do dia, com um dos sexos apenas, o oposto. Quantas limitações. Isso é liberdade sexual? O que vejo interpreto como repressão demais. Sinto desejo de transar com uma mulher que vejo na rua por exemplo. Qual o problema se eu chegasse nela e dissesse:”quero transar com você. Você quer? Vamos a um motel ou a minha casa ou algo que o valha?”. Isso seria liberdade sexual. Mas se eu quiser fornicar ou me amassar a uma mulher, que trajeto é necessário fazer… Essa liberdade está muito longe. De modo que até dá preguiça usar o tempo em busca de sexo. A gente ouve cada coisa. É tanto moralismo, repressão! De fato, a atitude da maioria é de que sexo é algo suspeito, perigoso, algo de que devemos nos aproximar apenas com muitas cautelas. Mesmo pessoas que se pensam libertas (quase todas hoje em dia se sentem libertas apenas porque se fala de sexo a vontade), mesmo essas se aproximam com muitas cautelas.

Há outras forms de passar o tempo também. A busca pelo amor. Quase tudo se pode resumir como a busca por segurança. Segurança emocional, financeira… Mas o ego é por natureza insegurança. As pessoas que julgamos como de valor nessa sociedade são normalmente as que conseguiram certa segurança, principalmente financeira. Mas quem continua gravitando em torno do ego, do “eu quero, eu posso, eu preciso”, vive em insegurança. Ou seja, todos nós. Alguns conseguem disfarçar melhor. Podemos dizer que não, que admiramos outras pessoas que não as que conseguiram dinheiro. Mas o que fazemos com o nosso tempo diz mais sobre nós do que o que nós próprios dizemos que são nossos valores. E o que fazemos é procurar segurança ou nos distrair da insegurança. O ego é insegurança. É melhor aceitarmos isso e aprendermos a nos amar mesmo inseguros. Quais são nossos artifícios para nos sentirmos mais seguros? Eu cedo percebi que o conhecimento é um bom artifício, um bom esconderijo, de modo que me pus a ler muitos livros. Aos vinte anos eu tinha todas as explicações sobre o mundo. Era como se eu pensasse: “alguém pode ter dinheiro, mas eu tenho conhecimento”. É a mesma atitude, a mesma fuga da insegurança. Ainda continuo lendo livros, muitas vezes movido pela mesma insegurança, outras vezes apenas desfrutando…

Coisa mais difícil definir quem somos. O lampejo existencialista é uma boa forma de lidar com esse informe sentimento da minha essência. Diz que somos nossa existência. Primeiro existimos e daí definimos nossa essência. Algo como o que disse Aristóteles quando disse que somos o que repetidamente fazemos. Todas essas tentativas de definir…

Você vai numa entrevista de emprego e o entrevistador te pergunta: “quais suas qualidades? quais suas limitações?” A sensação, que na hora não foi clara, quando passsei por isso foi: “mas tenho que definir assim bonitinho, com claras palavras?” Estranho! Quem exige clareza nessas respostas não pode saber o que é o humano. Gostamos de ver um padrão na nossa história de vida. Sim, podemos ver padrões, repetições. Mas quão claro é esse padrão é que é difícil definir, porque sempre que contemplanos nossa história o fazemos do ponto de vista atual, ponto de vista sintético e construtivo, na medida em que constrói ele mesmo o que pretende ser sua origem. Meu passado me criou ou eu que o crio agora? Um pouco de cada talvez. Ou seja, olho para trás e construo uma história, nela acredito. Quem já viu o filme Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas talvez percebeu que nossa história pessoal é uma ficção que inventamos e que tem sua própria existência. Mas enquanto vamos vivendo, nem tudo é tão claro. Há algumas palavras interessantes sobre isso no livro Memórias de Adriano:

No fundo, meu conhecimento de mim mesmo é obscuro, interior, informulado e secreto como uma cumplicidade. (…) Quando examino minha vida, espanto-me ao encontrá-la informe. A existência dos heróis, tal como nos é contada, é simples. Vai direto ao fim como uma seta. A maioria dos homens prefere resumir sua vida numa fórmula, não raro uma fórmula de louvor ou uma queixa, e quase sempre uma recriminação. Sua memória fabrica-lhes complacentemente uma existência explicável e clara. Contudo, minha vida tem contornos menos firmes. Como acontece freqüentemente, é justamente aquilo que não fui que a define com maior exatidão.

A paisagem dos meus dias parece compor-se, como as regiões montanhosas, de material heterogêneo desordenadamente acumulado. Esforço-me em voltar sobre meus passos para tentar encontrar um plano inicial e seguir um veio qualquer, de chumbo ou de ouro, ou mesmo o curso de um rio subterrâneo, mas esse plano inteiramente fictício não é mais que uma aparência enganosa da lembrança.”

E mais:

Distingo perfeitamente, nessa multiplicidade e nessa desordem, a presença de uma pessoa, mas seus contornos parecem traçados quase sempre pela pressão das circunstâncias, e seus traços baralham-se tal como acontece com uma imagem refletida na água”.

A consciência é como um corredor infinito, com infinitas portas. Cada porta é uma experiência, um pensamento, um sentimento, um vazio, um desconhecido, sem acabar. Cada experiência na vida pode nos ajudar a abrir uma porta nas possibilidades.

Acabo de ver o filme 1408. A melhor ilustração da condição humana que tenho visto ultimamente. Ter uma filha foi o que gerou naquele homem a experiência mais afetuosa. Com isso ele abriu a porta do amor e sentiu que há amor incondicional. Talvez não fosse necessário ter tido uma filha para abrir essa porta. Eis o que muitas pessoas não entendem, acham que suas contingências de vida são as únicas passíveis de abrir certas portas. Uma pessoa ingere LSD e diz que só quem ingeriu pode compreender a experiêcia. Ora, nossa ignorância é enorme demais para podermos dizer isso. Vem a vida e retira dele a filha. O sujeito é um escritor que vive caçando lugares mal assombrados para escrever livretos supersticiosos e ganhar dinheiro. Não acredita em fantasmas até que conhece o quarto 1408.

A casa é uma das coisas mais significativas para um ser humano. Desde que vivíamos nas cavernas, sempre nos identificamos profundamente com o local que nos abriga. Os filmes de terror exploram isso a rodo. Sempre o fantasma está em algum recinto. E sempre podemos interpretar o recinto como algo real ou como a mente de alguém. No filme 1408 não é diferente e é aí que a desarrumação mental do sujeito se mostra cruamente. A princípio ele e o quarto do hotel são seguros, mas basta algumas coisas ignorarem as regras que impomos ao mundo para que este, ou a construção que fazemos deste, venha abaixo. Imagino que seria muito enriquecedor entrar na minha mente e ver o que há em cada “local”. Pode ser que os sonhos sejam essa representação, esse quarto mental, essa casa pessoal. Na verdade essa é a visão dos sonhos que mais me atrai.

E a casa daquele sujeito, ou para dizer mais diretamente, aquele sujeito, estava despedaçado. Realmente de chorar o momento em que ele reencontra sua filha, a toma novamente nos braços e de novo a perde. Não adianta lamentar, dizendo: “de novo não!” É como a vida dizendo para ele: “de novo sim! Não tem jeito, abra suas portas, mas tudo vai morrer, de novo e de novo!” Mas é preciso vivenciar isso, chorar essa perda. É o que a experiência da própria mente o obriga. Ao entrar em seu quarto mal assombrado há de toda bagunça, mas no fim da destruição só resta aquele sentimento de amor, a pessoa amada e a dor de perdê-la. E a mente até parece sádica, obrigando o sujeito a vivenciar de novo aquilo que é intolerável e que não foi bem vivenciado, o abandono, o despedaçamento da mais doce ilusão. E John Cusack chora. Poderia ver a imagem da filha como um aspecto saudável dele mesmo, tentando reconciliá-lo com a natureza: “Papai, todo mundo morre!”. Tento descrever aquele personagem, mas não imagino como. Seu caos é perturbador e bonito demais! Ele descobre que os fantasmas existem, deixam marcas, reaparecem. E podem ser mais amorosos que o próprio amor.

Inclusive é o segundo filme que ele (John Cusack) protagoniza que faz analogias riquíssimas entre a consciência e o espaço, que questiona quem somos nós. O outro é o chamado “Identidade”. Filmes com temáticas batidas, mas bastante originais na minha opinião. Esse ator não tem erro. Outro excelente dele é o “Alta Fidelidade”, uma delícia de filme.

Medo ou preguiça?

Uma pergunta feita por um personagem do filme Waking Life fica me rondando desde que vi o filme pela primeira vez. Ao falar sobre a potencialidade do ser humano, um homem diz que gênios como Nietzche e Platão estão mais longe de nós, normais, que nós estamos dos macacos. Então ele pergunta qual a característica humana mais universal: o medo ou a preguiça?

A vida do ser humano médio me parece extremamente entediante. Sujeito é criado para estudar, trabalhar, criar família, ganhar dinheiro para pagar cada vez mais contas. Há até um certo fetiche com a tal da conta. “Ah, eu preciso pagar as minhas contas!” Quando escuto isso não posso deixar de pensar em como a maior parte dessas contas são desnecessárias. Roupas, carros, móveis, viagens. Tudo é bastante sem graça diante de uma experiência de expansão da consciência. Não entendendo mal, qualquer expansão da consciência é uma viagem incomparável. Conhecer uma bela pessoa, olhar nos seus olhos, admirar suas peculiaridades, beijar um beijo molhado daqueles que não dá vontade de acabar. Mas essa experiência é limitada, pois uma vez encontrada uma pessoa casa-se com ela e nunca mais se poderá desfrutar dessa viagem ao mundo de outros, ou ao mundo que fica entre um e outro, pleno. Conhecer uma pessoa é uma viagem única e que na minha opinião não fica devendo nadíssima a uma viagem à Europa, aos Andes, à Índia (apesar de eu não ter ido a esses lugares para comparar. Mas comparando com as viagens que já fiz, insisto que não se compara). Diz que o casamento é conhecer todo dia a mesma pessoa, fazendo essa viagem sempre com a mesma, conhecendo-a sempre de novo. Mas mesmo que isso fosse assim, se o encanto fosse o mesmo ou comparável, ainda fica a perene questão de porque essa viagem excluir as outras possíveis.

A parte da preguiça no que diz respeito à pergunta do primeiro parágrafo me assusta porque percebo a prescrição para sermos normais, normóticos, que só fazem trabalhar, contar dinheiro, buscar realizar seus sonhos profissionais-financeiros, onde a auto-exploração não entra, a não ser como epifenômeno: você precisa se conhecer para “subir” profissionalmente, aprender para melhorar de cargo, se relacionar melhor porque é o que as empresas esperam, etc.

O que me espanta é que há muito para se fazer em proveito da vida. Nossa cultura, com tudo de destrutivo que a caracteriza, fornece boas alternativas para quem quiser utilizar bem o tempo que tem sobre a Terra. Mas não aprendemos nem a conferir o que há, nem experimentar. É tudo para o trabalho, para as contas, as viagens, a igreja, a família. Por isso continuamos mais perto dos macacos. No início do Grande Sertão: Veredas, o protagonista Riobaldo pergunta: “Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe?” Eis a pergunta que devemos nos fazer a cada dia, queremos devassar e conferir o que existe? Me parece que é isso ou ficar na mesmice de sempre, contando dinheiro e vivenciando da nossa mente, como disse William James da maioria dos seres humanos, o mesmo que vivenciaria de seu corpo uma pessoa que só movesse o dedinho do pé.

Nosso corpo permanece um desconhecido, nem poderia dizer ilustre, pois da forma como é tratado pela maioria… E se não conhecemos nosso corpo, não há nenhuma chance de conhecermos a nós mesmos, pois a viagem pela consciência começa pelo corpo. E alternativas não faltam. Pode-se ficar uma vida desenvolvendo-se pacientemente em Yoga, kung-fu, tai-chi, corrida. Tudo depende da atitude diante dessa coisas. Mesmo a musculação, terra privilegiada do narcisismo, pode constituir acesso ao corpo. Os sonhos, quem os conhece? Quem dedica dois minutos do seu dia para conhecê-los? Para estudar o que já descobriram sobre eles? A própria consciência, os pensamentos, quem conhece seus caminhos? Sim, estamos mais perto dos macacos.

Há muitas Veredas e continuo com a dúvida do que é que mais nos impede de conferi-las, a preguiça ou o medo?

O Susto

Uma experiência alucinógena. Deitei e fiquei viajando, assistindo Holanda x Rússia pela Eurocopa. E tudo em câmara lenta. Tive muitos insights. Insight. Há quem diga que é uma reorganização súbita do campo perceptual. Fiquemos por aqui, é algo que nos faz perceber subitamente algo que não tínhamos percebido conscientemente ainda. Ou seja, não significa que meus insights em viagem sejam verdades. Claro, são apenas reorganizações. Estas sumiam rapidamente, memória de curto prazo prejudicada.

Uma dessas novas percepções me encantou, de modo que consegui não esquecê-la rapidamente. Até agora não sei bem o que ela significa. Escrever é um modo de ir costurando sentidos. É que eu começava a perder a consciência, como se fosse cada vez me aproximando mais do sono. E ficava viajando nisso, percebendo atentamente o que aconteceria no limite entre a vigília e o sono. Ia acompanhando a consciência se obnubilando e de repente tomava um susto, ria muito. Recomeçava a perceber, ia apagando, susto, risadas… assim sucessivamente, sem conseguir vivenciar a passagem ao sono de forma consciente. E pensei que não poderia vivenciar essa passagem de forma consciente mesmo, já que essa passagem seria por definição a perda da consciência. Uma verdadeira impossibilidade, parecia, levar a consciência onde ela não pode ser. Queria ter a consciência onde por definição é outro reino, da não-consciência. E ria… Como a última coisa que acontecia quando já ia perder a consciência de vez era um susto, concluí de forma peremptória que o limite entre a consciência e a inconsciência é o susto. Acontece que o susto é uma volta súbita e violenta à consciência ordinária. Mas há sonhos lúcidos. Há quem relate mesmo a possibilidade de sono sem sonhos, lúcido! De modo que o sono não precisaria ser identificado com a inconsciência. Voltando ao susto, isso significa que eu poderia ultrapassar o limite entre a vigília e o sono sem precisar passar pelo susto, que me leva de volta à vigília imediatamente. Perceberia meu corpo se aproximando do sono, entrando no sono, sonhando, consciente. Acho que vale a pena dedicar uma vida para aprender isto (ou várias vidas, caso existam). Parece que o susto é um puxão da consciência destreinada, é um Cérbero feroz, ou a Pisadeira (sobre a Pisadeira ver: www.samsara.blog.br/search?q=pisadeira) que expulsa violentamente quem não está pronto, quem não tem a mente verdadeiramente tranquila. Ele se coloca na saída da consciência ordinária e late, late. Cérbero, o cão feroz que guarda o inferno, é a melhor representação de nós mesmos. É nossa ressonância. Babamos e latimos tanto que ao tentar penetrar o mundo além da consciência ordinária o que encontramos é o eco de nossa própria confusão, o latido é o latido nosso de todo dia, de toda hora. É nossa própria confusão que rosna desenfreadamente, e assusta o corpo inteiro de uma vez. Dependendo da situação isso pode ser bastante engraçado, mas fico pensando que melhor seria passear suavemente de reino em reino.

Gatos

Esses dois foram acolhidos na minha casa. O pretinho é o gato mais carente que já vi.

Guimarães Rosa escreveu sobre eles na maravilhosa estória de Miguilim:

“O gato somente vivia na cozinha, na ruma de sabucos ou no borralho, outra hora andava no quintal e na horta. Lá os cachorros deixavam. Mas quando ele queria ir para o pátio, na frente da casa, aí a cachorrama se ajuntava, o esperto do gato repulava em qualquer parte, subia escarreirado no esteio, mas braviado também, gadanhava se arredobrando e repufando, a raiva dele punha um atraso nos cachorros. Por que não botavam nele nome vero de gato nas estórias: Papa-Rato, Sigurim, Romão, Alecrim-Rosmanim ou Melhores-Agrados? Se chamasse Rei-Belo… Não podia? Também, por Qùóquo mesmo, ninguém não chamava mais – gato não tinha nome, gato era o que quase ninguém prezava. Mas ele mesmo se dava respeito, com os olhos em cima do duro bigode, dono-senhor de si. dormia o oco do tempo. Achava que o que vale vida é dormir adiante. Rei-Belo…

O gato Sossõe, certa hora, entrava. Ele vinha sutil para o paiol, para a tulha, censeando os ratos, entrava com o jeito de que já estivesse se despedindo, sem bulir com o ar. Mas, daí, rodeando com quem não quer, o gato Sossõe principiava a se esfregar em Miguilim, depois deitava perto, se prazia de ser, com aquela ronqueirinha que era a alegria dele, e olhava, olhava, engrossava o ronco, os olhos de um verde tão menos vazio – era uma luz dentro de outra, dentro doutra, dentro doutra, até não ter fim”

Sísifo Feliz

Há muito tempo atrás os deuses condenaram Sísifo a empurrar uma enorme pedra montanha acima. Chegando ao cume, a pedra rolava montanha abaixo, apenas para Sísifo descer de novo e retomar subida, indefinidamente. Não se sabe ao certo o porquê de tal castigo. Diz que ele era esperto demais, astuto, rebelde. Por um bom tempo me senti como imaginaria que Sísifo se sentia. Sabedor de que tudo passa, observava a morte, devoradora de qualquer sentido. Não há atividade humana que se justifique do ponto de vista da eternidade. A não-existência é enorme, absoluta. A existência de cada ser é mínima, é nada. Pois antes de cada existência houve uma eternidade em que ela não foi; e após, haverá outra eternidade sem existência, salvo engano. De modo que me pegava em desacordo com esse aburdo chamado existência. Ainda vejo as ilusões que os humanos inventam para emprestar sentido às suas vidas, projetos de carreira, de ganhar dinheiro. Inventaram até uns termos que tentam estabelecer critérios de justificação. Um tal busca na vida ser um “vencedor”. Ora, o que seria um vencedor? Alguém que é capaz de consumir muitas coisas inúteis e de contar com a admiração de pessoas também inúteis. Quanto mais coisas puder consumir, mais vencedor será considerado. Ou então pode ser alguém que ganhe competições. Alguém ganha a medalha de ouro nas Olimpíadas. Eis aí o “vencedor”, alguém cuja vida enfim tem sentido. Mas vem a morte e nos diz que do ponto de vista da eternidade não há o menor sentido, nenhumas diferenças entre ficar em primeiro ou último lugar, comprar uma Ferrari ou ir trabalhar de bicicleta. Sempre me surpreendi em perceber como as pessoas conseguem acreditar de fato nessas ilusões.

Os deuses, ao condenar Sísifo, condenaram-nos a nós. Acho que sorrateiramente colocaram uma semente de Sísifo em nossos genes e nos fizeram carregar a pedra pela vida afora. Muitos acreditam que empurrar a pedra faz sentido mesmo, conseguem abafar esse incômodo que assusta o ego. Mil meios são utilizados, entre eles a negação da nossa condição pela religião.

Albert Camus, em O Mito de Sísifo, diz que não há esperança mesmo, não há apaziguamento se quisermos manter alguma autenticidade. Que só podemos é nos rebelar, mas continuar empurrando a pedra, sabendo que ela vai descer de novo, conscientes. E que não há sentido nisso, nunca teve e nunca vai ter.

O interessante é que me sinto mais em paz reconhecendo a inutilidade de tudo. Até retiro algum prazer em contemplar o absurdo. Camus define o absurdo como a distância inapelável entre nossa necessidade de sentido, de unidade do mundo e a multiplicidade desse mundo, sua indiferença. Tudo que nega essa separação, que nega o absurdo, seria apenas um artifício de seres amedrontados. Mas penso que o absurdo não mete tanto medo, não é nenhum monstro. É o que é. E mesmo com isso, ou talvez porque consciente disso, me sinto bem vivo. Apesar disso, estar vivo é muito bom. Fazer parte desse milionésimo de segundo da história da eternidade é gostoso.

É gostoso apenas estar vivo (desde que não esteja sentindo dor), mas também podemos desfrutar de algumas ilusões, alguns subterfúgios. Os subterfúgios seriam como o quê em Sísifo? Colorir a pedra, fazer uma tatuagem nela, para fingir que pelo menos ela é bonita. Tentar empurrar a pedra dos outros, para se sentir forte, poderoso, útil. Ficar chorando sem empurrar a pedra, vítima, lamentando a maldade dos deuses. O amor é o melhor dos subterfúgios. (Mas se além da condenação dos deuses, ainda somamos nossas neuroses e inibições moralistas e religiosas, nos impedindo de amar livremente… então é o vazio.) Subimos com a pedra, tudo bem, mas na descida podemos fazer amor. Mesmo na subida podemos trocar olhares, ir cantando assim:

Lança menina
Lança todo esse perfume
Desbaratina
Não dá prá ficar imune
Ao teu amor
Que tem cheiro
De coisa maluca…

Vem cá meu bem
Me descola um carinho
Eu sou neném
Só sossego com beijinho
Vê se me dá o prazer
De ter prazer comigo…

Me aqueça!
Me vira de ponta cabeça
Me faz de gato e sapato
E me deixa de quatro no ato
Me enche de amor, de amor

Ou:


Venha sugar o calor
De dentro do meu sangue…vermelhoooo!
Tão vivo tão eterno…veneno!
Que mata sua sede
Que me bebe quente
Como um licor
Brindando a morte e fazendo amor…

Diferença Homem Mulher

Eis aqui uma das principais diferenças entre homens e mulheres. Foi feita uma pesquisa muito interessante, mais real do que aquelas em que se pergunta a uma pessoa se ela faria sexo com um desconhecido. Neste caso, as pessoas podem mentir.

O que fizeram foi o seguinte. Um homem ou mulher atraentes aproximava-se de estranhos do sexo oposto num campus universotário e dizia: ” Tenho te visto pelo campus. Acho você muito atraente.” Depois faziam uma de três perguntas, escolhidas aleatoriamente: (1) “Quer sair comigo hoje a noite?”  (2) “Quer ir ao meu apartamento hoje a noite?”  (3) “Quer ir para a cama comigo hoje a noite?”

Dos homens que foram convidados para sair 50% disseram sim. 69% concordaram em ir ao apartamento da mulher e 75% concordaram em ir para a cama com ela naquela noite. Das mulheres convidadas para sair, 50 % concordaram, das que foram convidadas a ir ao apartamento, 6% concordaram. E das que foram convidadas ao sexo, nada mais que nenhuma concordou!

O que você responderia a cada uma das perguntas?

Uma coisa é estranha para mim. Se as mulheres não estão imediatamente disponíveis, porque elas se mostram, tentando despertar o desejo nos homens? Uma mulher sai de casa toda produzida, tentando ser bastante sensual, deixando pernas visíveis, bunda saliente, etc. Por quê? Pra quê?

Diógenes, o Cão.

    Uma situação me deixou chocado alguns anos atrás quando eu passava a pé na rua da Bahia com Tamoios, antes do viaduto Santa Tereza, área central de Belo Horizonte. Foi que um mendigo agachou-se no passeio, na esquina, baixou a calça e fez cocô. Da posição em que eu vinha vi o cocô saindo e pousando no chão, no passeio. Achei deprimente a cena, pensando que o sujeito chegou ao fundo do poço ao ignorar as noções mais elementares de higiene e educação humanas. Senti uma tristeza na hora e um incômodo por ver uma pessoa cagando sobre os valores que eu achava os mais básicos.

Mas pensando bem, porque uma coisa natural deve ser tão escondida, como o é o fazer cocô? Muita gente nem fala a palavra cocô. Não me digam que é por higiene, o que choca no cara fazendo cocô na rua não é a possibilidade de doença, que ninguém se engane sobre isso; é o escancaramento de nossa condição animal, natural.

Surgiram em Atenas por volta do séc. IV a.C. os filósofos cínicos, nome que deriva de cão (kyov). “Os cínicos eram indiferentes em relação ao seu modo de vida; comiam, dormiam nas praças, nas ruas, conduziam um bastão, uma sacola e andavam descalços. ” (http://diogenesapolh.sites.uol.com.br/paginaindex.htm)

Diógenes de Sinope, o cão, foi o mais famoso dos cínicos. Dizia que para o humano, basta a vida, uma filosofia que afirma ser a simplicidade a maneira mais correta de se viver. Para ele o viver bem era o viver natural pois tudo que é natural é respeitável e decente, não precisando ser escondido. Vivia, dormia, masturbava-se em público. Sobre isto dizia:

“Seria ótimo se pudéssemos aplacar a fome esfregando o estômago”. 

Realmente.

Sua meta era nada menos que a liberdade, liberdade das convenções humanas anti-naturais. Um seu discípulo, Crátes de Tebas, que era amansebado com uma cínica chamada Hiparquia, se unia a sua consorte em praça pública.

Diógenes, o cão, desdenhava os prazeres excessivos e desnecessários, as falsas necessidades. Se vivesse hoje, seria considerado um mendigo louco, esquizofrênico. Defendia a necessidade do exercício físico e da fadiga como formas de alcançar a virtude e liberdade. Realmente, após uma boa sessão na academia, sinto-me bastante leve. Será que Diógenes, o cão, era viciado em endorfina?

Diz que certo dia estava Diógenes tomando sol quando chegou Alexandre Magno e lhe disse: “Pede-me o que quiseres”. Ao que o cão teria respondido: “Não me faças sombra. Devolve meu sol.” E se diz também que Alexandre comentava: “Se não fosse Alexandre, eu queria ser Diógenes”.

Hoje posso olhar a cena do mendigo defecando com outros olhos, não aqueles olhos moralistas, que pensam ser as normas da civilização a verdade última no que se refere à forma mais correta de viver.

Cristianismo e os animais

Parte interessante de um texto de Schopenhauer que li. Escrito em 1851:
Posso mencionar aqui outro erro fundamental do cristianismo, um erro que não pode ser justificado, e cujas conseqüências nocivas são óbvias o tempo todo: refiro-me à inatural distinção que o cristianismo faz entre o mundo humano e animal – ao qual, de fato, pertence. Estabelece o homem como todo-importante e olha aos animais tão-somente como coisas. O bramanismo e o budismo, por outro lado, verdadeiros para com os fatos, reconhecem de um modo positivo que o homem está relacionado genericamente com toda a natureza, especialmente e principalmente com a natureza animal; e, em seus sistemas, o homem é sempre representado pela teoria da metempsicose ou, do contrário, como intimamente conectado com o mundo animal. O importante papel representado pelos animais através de todo o budismo e bramanismo, em comparação com seu completo desprezo no judaísmo e cristianismo, põe fim a qualquer dúvida a respeito de qual sistema está mais próximo da perfeição, apesar de na Europa termos nos tornado acostumados à absurdidade da alegação. O cristianismo contém, de fato, uma grande e essencial imperfeição em limitar seus princípios ao homem e em recusar direitos a todo o mundo animal. Como a religião falha em proteger os animais das multidões brutas, insensíveis e freqüentemente mais que bestiais, o dever recai sobre a lei; e como a lei é desigual nesta tarefa, formaram-se agora por toda a Europa e América sociedades pela proteção dos animais. Em toda a não-circuncidada Ásia, tal procedimento seria a coisa mais supérflua do mundo, pois animais são suficientemente protegidos pela religião, que até os faz objetos de caridade. Um exemplo de como tais sentimentos de caridade se manifestam pode ser visto no grande hospital de animais em Surat, ao qual cristãos, maometanos e judeus podem enviar seus animais enfermos que, se curados, muito corretamente não são devolvidos aos seus donos. Do mesmo modo, quando um brâmane ou um budista tem boa sorte, um acontecimento feliz em qualquer questão, em vez de murmurar um Te Deum, vai ao mercado, compra pássaros e abre as gaiolas nos portões da cidade; algo que pode ser visto freqüentemente em Astrachan, onde os adeptos de todas religiões se encontram: e assim por diante em centenas de outras maneiras. Por outro lado, veja-se o rufianismo revoltante com o qual nosso público cristão trata seus animais; matando-os sem nenhum motivo e rindo-se disso, ou os mutilando ou torturando; mesmo seus cavalos, que constituem os meios mais diretos para seu sustento, são exigidos ao máximo em idade avançada, e o último esforço é explorado de seus pobres ossos até que finalmente sucumbam sob o chicote. Alguém poderia afirmar, com razão, que a humanidade é o diabo da Terra, e os animais as almas que atormentam. Mas o que se poderia esperar das massas quando há homens educados, mesmo zoólogos que, em vez de admitir o que lhes é tão familiar, a essencial identidade entre o homem e o animal, são fanáticos e estúpidos o suficiente para oferecer uma diligente resistência aos seus colegas honestos e racionais quando classificam o homem corretamente como um animal ou demonstram a semelhança entre este e um chimpanzé ou orangotango. É algo revoltante que um escritor tão devoto e cristão em seus sentimentos como Jung Stilling use um paralelo como este, em seu Scenen aus dem Geisterreich. (livro II, p. 15) “Repentinamente o esqueleto enrugou-se numa forma indescritivelmente horrenda e acanhada, assim como quando se coloca uma grande aranha no foco de uma lamparina, e observa o sangue purulento assoviar e borbulhar no calor”. Esse homem de Deus era, então, culpado de tal infâmia! Ou observou calmamente enquanto outro a cometia! Em ambos os casos, chega-se à mesma conclusão. Pensou-o um mal tão pequeno que o mencionou de passagem, e sem um traço de emoção. Tais são os efeitos do primeiro livro de Gênesis e, de fato, de toda a concepção judaica de natureza. O padrão reconhecido pelos hindus e budistas é o Mahavakya (o grande verbo) – “tat-twam-asi” (isto é a ti próprio), que pode sempre ser dito de qualquer animal para lembrar-nos da identidade de seu ser íntimo com o nosso.”

http://ateus.net/artigos/critica/o_sistema_cristao.php

Sexo é amor

Acontecido: uma elefanta num circo na Índia fugiu com um elefante selvagem. Ela estava lá presa na sua corrente, numa região de florestas próximas. Veio um elefante selvagem, derrubou a cerca que a separava do mundo externo. Ela por sua vez rompeu as correntes que a prendiam. Fugiram juntos. Foram encontrados depois tomando banho juntos num lago. Os animais humanos fizeram barulhos e espantaram o elefante macho. Trouxeram o caminhão e resgataram a mocinha, que subiu mansamente no caminhão de volta à prisão.

É uma imagem bem bonita a dos dois elefantes andando juntos, tomando banho juntos, até mesmo tentando criar juntos uma nova vida. Ao impulso que une os dois podemos chamar amor, por que não? Podemos chamar amor a qualquer sentimento de união. Se vejo uma pessoa sofrendo muito e me emociono, compartilho um pouco de sua dor. Por isso a palavra com-paixão. De alguma forma me uno a ela em seu sofrimento. Essa unidade formada pode ser mais ou menos completa.

Todos que pesquisam os estados mais intensos de consciência, mais significativos, sabem que o estado é tanto mais elevado quanto mais o ser se une ao universo, quanto mais sai de seu próprio ego e se identifica com o todo. As pequenas doses de compaixão que sentimos seriam talvez como um impulso da alma para sair de si própria e se vivenciar como realmente é, o conjunto da vida. Seria a alma tentando se libertar, sendo a via régia o amor, aquele sentimento que em algum nível nos une a outra vida ou a toda a vida. De modo que parece óbvio a necessidade de cultivarmos a capacidade de compaixão, capacidade de nos ligarmos aos outros seres. Pelo menos é o que deveria fazer uma pessoa interessada em significar de forma plena sua vida, tornando-se o que se é de fato. É claro que o sistema em que vivemos nos estimula em outra direção, a da competitividade, separação por excelência. Quanto mais uma pessoa é defensora do sistema de competição, mais alienada está do nível de consciência integrador, único nível realmente significativo para a vida.

O que eu queria mesmo é contemplar a união dos elefantes. Sabemos que o impulso que estimula o elefante é principalmente sexual. Pela necessidade sexual, eles se unem. A essa união estou chamando amor. Podemos chamar amor a um sentimento e também a uma situação. Estou enfatizando a situação. Quando me uno a outro ser, estou amando-o. Os dois elefantes juntos, no lago, estimulados pelo instinto sexual, estão amando-se. Daqui se poderia concluir que duas pessoas quaisquer, em estado de união sexual, estão se amando, mesmo que não o saibam. Suponhamos um casal que se encontra uma noite para fazer sexo sem compromisso e sem envolvimento emocional anterior. Estão movidos pelo apetite sexual, pelo desejo. Mas quando estão transando, estão juntos. Como vimos acima, união é amor, é a saída para fora de nosso ego limitado. Então, quando duas pessoas estão fazendo sexo de forma descompromissada, estão se amando. Seria melhor que essas pessoas soubessem disso, pois poderiam valorizar o encontro como algo bem maior do que a troca de fluidos. Seria bom todos termos em consciência essa amplitude do ser, que se estende a toda a vida. Mas mesmo quando não temos isso em conhecimento, quando apenas transamos para aliviar a pressão do desejo, estamos fazendo algo bom. Com a consciência da união em todos os níveis estaria melhor. Sendo consciência apenas no nível físico é um começo, e bem gostoso por sinal.

Dá a impressão que as mulheres foram criadas para sacralizarem demais sua intimidade, de modo que para a maioria um ato sexual só pode ser algo muito emotivo, um envolvimento mais longo, uma expectativa. Sem isso muitas sentem-se como que invadidas, como se praticar o sexo fosse entregar a alma. Muitas dizem com orgulho que sexo é entrega e que isso é amor, de modo que só pode ser feito com alguém especial, etc, etc. Também estão buscando a união, mas com garantias, garantia de envolvimento emocional (se o cara quiser “apenas” sexo muitas até se ofendem. Imagine um cara chegar para uma mulher na rua e dizer com todo o respeito: “quero transar com você, vamos?” É considerado ofensa, mas analisando bem não compreendo), alguma garantia de que não é só desejo momentâneo, etc. Por que essa necessidade de garantias para se envolver em algo tão bom e enriquecedor como o é o sexo? A elefanta não precisou de garantia nenhuma e não venha alguém dizer que é isso que nos separa dos animais, que sexo sem envolvimento é coisa de animais e esses moralismos baixos e mentiras que tentam fazer de nós espécie especial. Por que cercar o sexo de garantias? Há quem diga que isso é uma invenção dos homens (sexo masculino) para controlar a sexualidade das mulheres. Faz sentido. Houve quem dissesse: “A virtude feminina é a melhor invenção dos homens”.
Sei que muitas mulheres se sentirão incompreendidas ao ler isto. Pensarão: “Ele não sabe o que é o amor!” Como se eu estivesse defendendo apenas o sexo dito casual. Defendo a união e se ela é melhor de um jeito do que de outro, não significa que o outro não seja muito bom e enriquecedor. Essa virtude ou esse purismo sexual, essa sacralização, parece mais uma prisão em que se fica de bom grado enquanto a alma anseia pela união com a vida.

Um caso típico

Acontece um caso típico perto de mim, sobre o qual não consigo calar. É mais ou menos o seguinte.

Um homem e uma mulher se conhecem, transam, ela fica grávida, se casam; depois de pouco tempo ele desiste, se separam. Os problemas começam então. O bebê é desde sempre de índole bastante sensível, expressando desde logo os desencontros do casal. Um bebê, uma criança, têm alta sensibilidade, inconsciente, aos problemas entre os pais. Quase sempre ficam no meio de tiroteios mil. No nosso caso o tempo passa, os problemas são toleráveis, vai-se levando.

Dez anos depois, atente, dez anos… Alguns problemas de atraso de pensão. Essa mãe, depois de muitas discussões com esse pai resolve telefonar enfezada para descontar a raiva e o ressentimento em cima de quem? Da sogra. Isso mesmo, da sogra. E tenta desqualificar o ex-marido de todas as formas, dizendo que está com isso engasgado há dez anos. Ora, o sentimento de abandono é intolerável para certas personalidades mesmo, é tomado como traição, gera ressentimento, reaviva outras experiências de abandono e se soma a elas num ataque feroz ao frágil ego. Isso acontece com todo mundo; a questão é quando se torna patológico. É quando não passa, quando fica apodrecendo a pessoa, mesmo que ela não tenha consciência disso.

No nosso caso a patologia se esclarece quando avaliamos a relação dessa mãe com o filho. Ora, é sinal claro do problema se a mãe bastante inconscientemente projeta o ressentimento em relação ao ex-marido no filho. E isso é claro quando ela proíbe o filho de ver o pai, a avó paterna, os primos paternos, os tios paternos e todos que têm alguma relação com o pai!!!!!!!!!!!! Pense friamente nisto. Que culpa tem o menino??? Acho que nunca vou me acostumar com tal estupidez. Como isso é comum, como é vulgar! A pessoa usa o filho para atacar o pai, num ato de total insensibilidade e covardia. É o que me deixa transtornado. Nada atiça tanto nossa indignação quanto isso não é mesmo? Quando um inocente e indefeso, porque não consegue entender as motivações latentes, serve de bode expiatório.

Ora, as pessoas têm o direito de serem neuróticas, o que tende a torná-las bastante insensíveis aos outros seres. Mas não têm o direito de se vingar através de crianças, não, isso não devia ser permitido. Uma mãe que faz uma coisa dessa não tem capacidade emocional de criar um filho. Parece tempestade em copo d’ água porque a coisa é muito vulgar, todos conhecem casos, muitos vivem isso. Mas não nos enganemos, isso é um absurdo.

Jung dizia que uma neurose grave é mais grave do que um câncer, do que ter um membro amputado. Concordo inteiramente.

Mães, não façam isso com seus filhos, não os ensine a lidar tão mal e covardemente com o ódio e o ressentimento!

Mulheres, não sintam que estou sendo perseguidor. Sem dúvida os pais podem ser piores do que isso e muitos e muitos o são. Isso quando estão perto, quando têm a dignidade de não fugir ou fingir que não é com eles! Se fosse falar da violência deles teria que escrever um livro inteiro, mas no momento o que me atormenta é esse caso em que me inspirei para escrever, porque conheço de perto a criança-vítima e sei que ela é sensível demais para ter que aguentar esse lodo!

Sim, sou desesperançado em relação à criação de filhos na nossa sociedade, o que vejo é quase somente educação pela neurose. Os pais tendem a “educar” os filhos através de suas (dos pais) neuroses. E não há boa vontade que supere a ignorância.

Citações

“Avalia-se a inteligência de um indivíduo pela quantidade de incertezas que ele é capaz de suportar” (Immanuel Kant)

“Se é certo que um Deus fez este mundo, não queria eu ser esse Deus: as dores do mundo dilacerariam meu coração” (Schopenhauer)

“Os homens jamais serão livres enquanto não seja estrangulado o último rei com as tripas do último padre” (Diderot)

“Nossa vida é um episódio que perturba, sem nenhuma utilidade, a serenidade do nada” (Shopenhauer)

“A vaidade dos outros fere nosso gosto apenas quando fere nossa vaidade” (Nietzsche)

 

“A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.”
Arthur Shopenhauer

 

 

 

Literatura para mim, entre outras coisas, é o seguinte. A gente entra nela para esquecer um pouco da vida, de nós mesmos, pois ser nós mesmos o tempo todo as vezes cansa. E o que acontece é que, surpresa, nos reencontramos lá. Nos identificamos com os sentimentos, desejos, ideais. E eu particualrmente me emociono bastante com uma descrição bonita e autêntica da nossa condição humana. Acho belo reconhecer nossa condição, vê-la nua e crua.
Acabei de ler O Apanhador no Campo de Centeio. Uma história muito bonita sobre um adolescente perdido e revoltado com a merda toda que o rodeia. Se sente deprimido todo o livro, tudo o deprime. Revoltado com tudo e todos, menos com sua irmã pequena, de dez anos. É na relação com ela que aparece a beleza da vida, o sentido que o amor pode dar a uma existência. Ele queria fugir, ela quis ir com ele, ele não deixou, ela ficou com raiva. Foram andando pela rua, ela emburrada do outro lado, seguindo-o de cabeça baixa, olhando de rabo de olho. Vão ao parque. Acabam se comunicando e a parte final é assim:

“Ela apanhou o dinheiro e disse: – Não tou mais de mal com você.

-Eu sei. Corre que o negócio (o carrosel) vai começar outra vez.

Então, de repente, ela me deu um beijo. Aí, , estendeu a mão e falou: -Tá chovendo. Está começando a chover.

-Eu sei.

Aí ela fez um troço que me deixou maluco: enfiou a mão no bolso do meu casaco, tirou o chapéu de caça vermelho e botou na minha cabeça.

- Você não quer mais ele? – perguntei.

-Pode usar ele um pouco.

-Tá bom. Mas corre agora. Você assim vai perder essa volta. Não vai mais pegar teu cavalo nem nada.

Mas ela continuou por ali.

-É verdade aquilo que você disse? Que não vai mais embora? Você vai mesmo para casa depois?

-Vou- respondi. E era verdade mesmo. Não estava mentindo. Fui mesmo para casa depois.

-Agora, corre. O negócio já tá começando.

Ela correu, comprou a entrada e pulou na droga do carrosel bem na horinha. Aí deu a volta toda, até encontrar o cavalo dela, e montou. Acenou para mim e eu acenei de volta.

Puxa, aí começou a chover pra burro. Um dilúvio, juro por Deus. Todos os pais e mães, todo mundo correu pra debaixo do teto do carrossel, para não se molhar até os ossos, mas eu ainda fiquei ali no banco mais algum tempo. Me molhei pra diabo, principalmente no pescoço e as calças. Até que meu chapéu de caça me protegeu mesmo um bocado, mas acabei ensopado de qualquer maneira. Mas nem liguei. Me senti tão feliz de repente, vendo a Phoebe passar e passar. Pra dizer a verdade, eu estava a ponto de chorar de tão feliz que me sentia. Sei lá porque. É que ela estava tão bonita, do jeito que passava rodando e rodando, de casaco azul e tudo. Puxa, só a gente estando lá para ver.”

Talvez seja preciso ler o livro para compreender essa alegria dele. Mas é muito bonito, fiquei pensando que é isso o que importa de fato, não essas picuinhas que as pessoa ficam vivendo, querendo dificultar a vida uns dos outros, contando dinheiro sem parar…

Monogamia e desespero

Americana tem 3 maridos e é acusada de poligamia.

A americana Stacie Warren não estava satisfeita com um marido só, então solucionou o problema casando-se com dois outros homens.


Stacie, 33 anos, foi intimada na semana passada e acusada de poligamia. As autoridades informaram que ela se casou com Frank Gray no ano passado, mesmo já sendo casada com dois outros homens.

A polícia de Lyndonville, no Estado de Vermont, disse que a mulher se casou pela terceira vez em dois meses depois de já ter sido acusada de bigamia. Na ocasião, o segundo marido também foi acusado, porque, assim como ela, era casado com outra pessoa.

Ao que parece, o abuso de drogas seria uma das causas para a poligamia da mulher. A policial Callie Field disse que, ao saber da situação da mulher, os dois primeiros maridos não se importaram “nem um pouco”. Warren pode ficar até cinco anos presa se for condenada.”

Ah sim, claro, a culpa é das drogas. Engraçado, será que ela vive drogada 100% do tempo? E todas as escolhas que ela faz são feitas pela droga?

A mulher pode ser presa e não duvido mesmo que o seja, numa sociedade extremamente moralista e cínica. Mesmo os maridos não se importando é considerado crime. Como tudo o mais, é preciso analisar qual o tipo de mentalidade que permite esse tipo de coisa; e combater tal mentalidade. É claro que a mentalidade que possibilita e exige isso é a mentalidade da monogamia, da posse do outro.

É uma maneira interessante de se analisar as coisas que acontecem em nosso mundo, para nos posicionarmos diante delas. Qual a mentalidade que permite que comamos animais criados e assassinados crua e cruelmente? Qual a mentalidade que permite que milhões de mulheres sejam agredidas todos os dias neste país, em pleno lar e nas ruas também? São as representações coletivas, muitas vezes nada conscientes, que possibilitam e dominam as ações. São idéias e direcionamentos, visões do mundo e dos outros, da legitimidade maior ou menor dos outros seres, injunções, avaliações. É preciso ficarmos conscientes delas.

O que permite um ato bárbaro desse, prender uma mulher, talvez com isso acabar com sua vida, é essa idéia maluca de que as pessoas devem se pertencer umas às outras, mais ainda, que tal pertença é boa, agrada a Deus, que a legitima e sacraliza. Essa idéia diz ainda que o sentido maior da vida é encontrar alguém a quem possamos pertencer e que pertencerá a nós por sua vez; fomos ensinados a buscar isto, a pensar que é esta a única forma de aliviar a angústia de existir, a solidão inerente ao ego, de modo que se busca tal coisa de bom grado. Permitir que essa crença caduca se escoe pelo ralo seria muito melhor na minha opinião, geraria bem menos sofrimento. Não acabaria com ele, claro está para qualquer um que pense, mas seria um mundo menos sofrido.

Os maiores sofrimentos que tive na vida foram fruto de decepções amorosas, porque o centro do meu ser, meu sentido, era colocado na necessidade de ser amado por outros. Essa idéia de que somos incompletos até que encontremos alguém que nos saciará faz parte da ideologia da monogamia. Claro, somos incompletos, solitários, desamparados, por isso facilmente acreditamos nessa ideologia, que cai como uma luva no nosso desespero. Mas cada dia acredito mais que quanto mais usamos os outros para tamponar nosso desespero e desamparo, menos amamos; e que mais somos capazes de amar quanto menos necessitamos do outro, de modo que sem essa necessidade desesperada, podemos escolher livremente e sem compulsões a companhia de uma pessoa, escolher por amor, não por medo da própria solidão.

Este medo, desespero, nem sempre é reconhecido, sentido de forma consciente. Quanto menos reconhecido, mais compulsivo. Se reconhecido e sentido com coragem e abertura, aceitação, se mostra menos assustador do que parecia, e no acolhimento desses sentimentos é que podemos encontrar nossa alma, nosso senso de existência, de legitimidade, de pertencimento ao universo, sentido de vida.

Não que seja impossível este reconhecimento vivendo em monogamia. Esta está sustentada sobre a compulsão de fugir da própria solidão, mas o que importa, mais do que ser ou não monogâmico ou poligâmico, é a atitude diante do outro e do nosso próprio desamparo. A atitude monogâmica tende a ser autoritária e os motivos que temos para adotá-la tendem a ser escapistas, mas há pessoas, muito poucas, que podem viver monogamicamente de forma consciente e saudável. Só é difícil conhecer alguém assim, mas creio ser possível.

Ir e Vir

Muitas vezes me pego perplexo ao olhar um mar de gente passando, indo e vindo. Pode ser na rua, pessoas andando, cada qual com suas preocupações, cada um com seus desejos, suas aspirações, caprichos, necessidades, ilusões e tudo mais. Vejo passar uma mulher, penso que em algum lugar deve ter alguém esperando-a. Vejo gritar um vendedor de fotos instantâneas, tento imaginar como é sua vida. Ou vejo os carros que passam, também são passantes, também vão à procura de chegar. Sei que muitas pessoas se pegam observando o movimento que é o viver que conhecemos, sei que muitos se impressionam…

A mim causa impressão, me reaviva o sentido de mistério, porque não posso entender como andamos todos de um lado a outro e do outro de volta ao um, para ir de novo, indefinidamente em busca de coisa nenhuma. Viver, crescer, consumir, comprar, reproduzir, morrer. Este ciclo é um mistério. E não é um mal mistério, como gostam de pensar os que não pensam sobre essas coisas. Afora o dito de Schopenhauer :

“Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência.”

Afora me consolar com isso, dizia, tiro certo prazer em perceber o absurdo das vidas humanas. Não é necessariamente ruim, não é sofrimento olhar esses tantos projetos de vida, projetos conscientes ou não, com um olhar de ironia. Não, é até gostoso, é prazeroso não acreditar que tudo isso faça sentido algum, é tudo vaidade, como diria Salomão, invenção, artifícios. Talvez seja “feliz” quem não questiona o sentido de tudo, cada um com sua felicidade. Dizem que a ignorância é uma bênção.

Mas eu não trocava esse “desconforto”, esse comichão na alma, que faz duvidar da legitimidade de tudo, por uma ignorância e uma vida de formiga. Sinal de que a consciência tem seu próprio valor, seu próprio gosto. Também, criticar o projeto de todos é se colocar acima deles, afirmação do ego, prazer. Vai esse prazer não tão belo de mistura com o prazer de se diferenciar, no caminho de se tornar o que se é.

Olho para a praça sete, pessoas demais indo e vindo. Me pergunto porque ao invés de ir e vir desse jeito, não estão todos transando agora, indo e vindo também, mas bem melhor.

“O que a história conta não passa do longo sonho, do pesadelo espesso e confuso da humanidade.” (Schopenhauer)

José Saramago

Sobre a morte e enterro de Herodes, sobre a experiência de José:

O cortejo: “… e depois vinham os guardas do rei, a cavalo, à frente da tropa, armada de lanças, espadas e punhais, como se fossem para a guerra, passavam e não acabavam de passar, entra-nos no coração o medo, assim também eram aquelas tropas marchando atrás de um morto, mas também em direção à sua própria morte, aquela de cada um, que mesmo quando parece demorar-se sempre acaba por bater-nos à porta, São horas, diz ela, pontual, sem diferença, tanto faz com reis ou com escravos, um que ia lá adiante, carne morta e corrupta, na cabeça do cortejo, outros no couce da procissão, comendo o pó de um exército inteiro, por enquanto vivos, mas já à procura, todos eles, do lugar onde ficarão para sempre. (…) Não perguntemos a José se ele se lembra de quantos bois puxaram a carroça de Herodes morto, e se eram brancos ou malhados, agora, voltando a casa, só tem pensamentos para as últimas palavras do conto do almocreve, quando ele disse que aquele mar de gente que ia no funeral, escravos, soldados, guardas reais, carpideiras, tocadores de pífaro, governadores, príncipes, futuros reis, e todos nós, onde quer que estejamos e quem quer que sejamos, não fazemos mais na vida do que procurar o lugar onde iremos ficar para sempre. Nem sempre é assim, cismava José, com uma amargura tão funda que nela não entrara a resignação que dulcifica as maiores dores, nem sempre é assim, repetia, muitos houve que nunca saíram do lugar onde nasceram e a morte foi lá buscá-los, com o que se prova que a única coisa realmente firme, certa e garantida é o destino, é tão fácil, santo Deus, basta ficar à espera de que todo o da vida se cumpra e já poderemos dizer, Era o destino, foi o destino de Herodes morrer em Jericó e ser levado de carroça para o seu palácio e fortaleza de Herodium, mas às crianças de Belém poupou-lhes a morte todas as viagens.”

Fim de ano

Fim de ano o que é, para que afete tanto as pessoas? É nada mais que o fim de um ciclo e o início de outro, o fim de uma volta da Terra em torno do Sol. Claro, tudo arbitrário, quem definiu por onde começa e termina a volta? Vimos que dá a volta e percebemos que também a Terra gira em volta do próprio eixo. Descobrimos que são quase 365 voltas em torno do próprio eixo no período de uma volta completa em torno do Sol. Chamamos a umas de dia e a outra de ano. Determinamos números e nomes aos períodos. Dia, mês, ano… Onde está o problema?

É que esquecemos de continuar percebendo os fenômenos e nos concentramos nos nomes e números. De modo que há aqui dois níveis de ciclos, por assim dizer. O caminho que o planeta azul faz em torno do Sol e a forma como representamos isso em números. O vazio doloroso é quando só vivenciamos o ciclo numérico, pensamos em números, vemos números, fazemos um balanço do que fizemos no período de 365 dias, o que ganhamos, o que realizamos. Tentamos fazer a balança pesar de forma a que o que chamamos de ganho seja maior que o que chamamos de perda. E quem oferece os pesos para essa pesagem é uma sociedade caduca, não harmônica, não acolhedora.

O outro nível do ciclo dispensa a numeração. Me refiro à percepção das voltas da Terra. Significa ver o sol nascer, ver seu aparente deslocamento no céu, ver seu ocaso, crepúsculo. Vivenciar este ciclo sem precisar medi-lo em números é outro tipo de experiência. Foi o que percebi este ano, que é pleno de sentido vivenciar os ritmos da natureza. Ver o sol nascer, ver o sol se pôr, perceber esse ciclo de forma desapegada de resultados, é uma plena experiência. Significa que estar em harmonia com esse ritmo dispensou-me de encontrar um sentido para a vida no fim do ciclo, pois o sentido está em cada momento. Explico: não é preciso fazer balança sobre se o ano valeu a pena quando estou em harmonia com os ritmos, com os ciclos em questão. É assim para mim, não sei se é ou deveria ser para outros, mas quando percebo o caminho do sol, o caminhar se torna suficiente. O sol nasce, a Terra roda, e vivenciar isto me dispensa da compulsão relacionada com a forma artificial de lidar com os ciclos, em termos de ano que passou, dias que não voltarão, padrões que eu deveria ter seguido, conquistas várias que eu deveria ter realizado, de qualidade duvidosa, para dizer o mínimo.

Quando se chega ao fim do ano tal (2007 ou 1996 ou 2008…) somos interpelados pelo vazio. No fim de um ciclo percebemos o nada que compõe cada vida, nossa vida. Porque a vida também é um ciclo, tão absurda ou plena de sentida como cada ciclo que vivemos. É bastante enriquecedor contemplar o pôr do sol, pois me toca, sinto que me desperta o sentido de apenas existir. Muito mais enriquecedor do que encher os bolsos de dinheiro. Vivenciar esses ritmos, ainda que ocasionalmente, foi beleza, é beleza. Valeu mais do que o dinheiro que ganhei. Me preencheu mais, sem dúvida, equilibrou, harmonizou.

É apenas minha experiência, mas quer me parecer que o fim do ano seria menos penoso para as pessoas se elas pudessem perceber o ano como aquilo que ele é, voltas e voltas do planeta, em torno de si, volta em torno do sol. O sentido de que preciso está todo aí, no ritmo. Talvez daí Nietzche dizer que a Natureza é a grande fonte de unidade da alma moderna. De fato, ao entrar em sintonia com um pôr do sol, com as mudanças no céu, já não me importam as faltas que sinto, que aprendi a sentir, falta de dinheiro, falta de carinho, falta de reconhecimento. Tudo isso é da ordem artificial e não há nenhuma experiência de unidade em se realizar planos, artifícios criados para fingir que nossa vida isolada tem sentido, pode ter sentido. É, para mim conquistas são apenas ilusões, distrações. Muitos defendem a ambição, o dizer que devemos ser ambiciosos, pois é no realizar das ambições que encontramos o sentido possível da existência. É preciso fazer bem pouco valor da vida para acreditar nisto, pois é acreditar que existir não é significativo por si mesmo. Tudo bem procurar realizar melhorias nas condições de vida, mas achar que o sentido da vida depende de conquistas me parece uma extrapolação.  Quando se contempla e vivencia os ritmos da natureza, da respiração aos movimentos do planeta, não há necessidade de fabricar sentido, pois a existência se basta.

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?”
(Drummond – José)

 

 

100 livros antes de morrer

Fizeram uma lista por aí de 100 livros “obrigatórios” que uma pessoa deve ler antes de morrer. Cá comigo penso que não há obrigação nenhuma, apenas uma boa forma de passar algum tempo que temos nesse planeta. Acho que li 16 desses 100. Estou lendo outros dois, alguns eu comecei e não terminei (acho que estes são mais do que os 16 que li) e muitos eu não tenho vontade ler. E me pergunto porque não colocaram Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa), O Amor nos Tempos do Cólera (Gabriel Garcia Márquez), Ensaio sobre a cegueira (José Saramago), etc. Claro, cada um tem sua lista. Vou riscando à medida em que for lendo. Vejamos onde estarão os riscos daqui a 50 anos.

1. Ilíada, Homero.
2. Odisséia, Homero
3. Hamlet, William Shakespea
re
4. Dom Quixote, Miguel de Cervantes
5. A Divina Comédia, Dante Alighieri
6. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
7. Ulysses, James Joyce
8. Guerra e Paz, Leon Tolstoi
9. Crime e Castigo, Dostoiévski
10. Ensaios, Michel de Montaigne
11. Édipo Rei, Sófocles
12. Otelo, William Shakespeare
13. Madame Bovary, Gustave Flaubert
14. Fausto, Goethe
15. O Processo, Franz Kafka
16. Doutor Fausto, Thomas Mann
17. As Flores do Mal, Charles Baldelaire
18. Som e a Fúria, William Faulkner
19. A Terra Desolada, T.S. Eliot
20. Teogonia, Hesíodo
21. As Metamorfoses, Ovídio
22. O Vermelho e o Negro, Stendhal
23. O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald
24. Uma Estação No Inferno,Arthur Rimbaud
25. Os Miseráveis, Victor Hugo
26. O Estrangeiro, Albert Camus

27. Medéia, Eurípedes
28. A Eneida, Virgilio
29. Noite de Reis, William Shakespeare
30. Adeus às Armas, Ernest Hemingway
31. Coração das Trevas, Joseph Conrad
32. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley
33. Mrs. Dalloway, Virgínia Woolf
34. Moby Dick, Herman Melville
35. Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe
36. A Comédia Humana, Balzac
37. Grandes Esperanças, Charles Dickens
38. O Homem sem Qualidades, Robert Musil
39. As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift
40. Finnegans Wake, James Joyce
41. Os Lusíadas, Luís de Camões
42. Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas
43. Retrato de uma Senhora, Henry James
44. Decameron, Boccaccio
45. Esperando Godot, Samuel Beckett
46. 1984, George Orwell
47. Galileu Galilei, Bertold Brecht
48. Os Cantos de Maldoror, Lautréamont
49. A Tarde de um Fauno, Mallarmé
50. Lolita, Vladimir Nabokov
51. Tartufo, Molière
52. As Três Irmãs, Anton Tchekov
53. O Livro das Mil e uma Noites
54. Don Juan, Tirso de Molina
55. Mensagem, Fernando Pessoa
56. Paraíso Perdido, John Milton
57. Robinson Crusoé, Daniel Defoe
58. Os Moedeiros Falsos, André Gide
59. Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
60. Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
61. Seis Personagens em Busca de um Autor, Luigi Pirandello
62. Alice no País das Maravilhas, Lewis Caroll
63. A Náusea, Jean-Paul Sartre
64. A Consciência de Zeno, Italo Svevo
65. A Longa Jornada Adentro, Eugene O’Neill
66. A Condição Humana, André Malraux
67. Os Cantos, Ezra Pound
68. Canções da Inocência/ Canções do Exílio, William Blake
69. Um Bonde Chamado Desejo, Teneessee Williams
70. Ficções, Jorge Luis Borges
71. O Rinoceronte, Eugène Ionesco
72. A Morte de Virgilio, Herman Broch
73. As Folhas da Relva, Walt Whitman
74. Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati
75. Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez
76. Viagem ao Fim da Noite, Louis-Ferdinand Céline
77. A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós
78. Jogo da Amarelinha, Julio Cortazar
79. As Vinhas da Ira, John Steinbeck
80. Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar
81. O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger
82. Huckleberry Finn, Mark Twain
83. Contos de Hans Christian Andersen
84. O Leopardo, Tomaso di Lampedusa
85. Vida e Opiniões do Cavaleiro Tristram Shandy, Laurence Sterne
86. Passagem para a Índia, E.M. Forster
87. Orgulho e Preconceito, Jane Austen
88. Trópico de Câncer, Henry Miller
89. Pais e Filhos, Ivan Turgueniev
90. O Náufrago, Thomas Bernhard
91. A Epopéia de Gilgamesh
92. O Mahabharata
93. As Cidades Invisíveis, Italo Calvino
94. On the Road, Jack Kerouac
95. O Lobo da Estepe, Hermann Hesse
96. Complexo de Portnoy, Philip Roth
97. Reparação, Ian MacEwan
98. Desonra, J.M. Coetzee
99. As Irmãs Makioka, Junichiro Tanizaki
100 Pedro Páramo, Juan Rulfo

Seleção natural

Sou vegetariano, opção ainda singular nesse mundo, haja visto que sou questionado sistematicamente sobre os porquês. Meus motivos são estritamente éticos. Tento viver neste mundo percebendo a realidade e refletindo sobre ela, de modo a agir, gastar o meu tempo sobre a Terra da forma que julgo correta. Isto é um sentido de vida, refletir e agir eticamente. Se a vida for um desastre, se todas os objetivos que nos são ensinados são meras ilusões, ilusões que sem dúvida mostrarão seu vazio na hora da morte, pelo menos na hora de morrer pretendo olhar para trás e ser capaz de reconhecer que fiz o que pude para tornar a vida neste planeta mais amena, e mais amena não só para mim, pois isto não seria consolo nenhum, mas para e pela vida. Claro, isso não é privilégio meu, quase todas as pessoas raciocinam assim. Todos temos uma necessidade de justiça e pensamos que fazemos o que podemos para que a vida seja mais amena no planeta. Mas não é suficiente só concluir isso, é necessário refletir sobre o que fazemos para aprimorar nossa ética, sobre o risco de estarmos sendo apenas conformistas, cínicos. Vamos à reflexão então.

Percebendo, lendo e refletindo sobre a condição dos animais não humanos no planeta, vi que sua condição é a da maior injustiça que já se cometeu a qualquer grupo de seres. Negros, mulheres, escravos, homessexuais, deficientes, todos já sofreram e sofrem com a discriminação, já foram violentados (e são ainda), oprimidos, mas nada se compara ao que se faz aos animais em laboratórios, matadouros e “criadouros”. Poderia citar exemplos, mas fica para outro texto.

Neste primeiro sobre o tema, gostaria de questionar o motivo que me parece um dos mais fortes para a exclusão dos animais da nossa consideração ética. Trata-se de um sofisma, na melhor das hipóteses um mal entendido sobre o darwinismo e a seleção natural. Diz-se, tentando justificar a matança e tortura dos animais para o nosso prazer, que a lei da natureza é assim mesmo, é a seleção natural, o mais forte faz o que quer com o mais fraco. Mas confunde-se as coisas. Não tem nada de seleção natural em comer animais. A seleção natural é uma “lei” da natureza, ou o hábito, a frequência maior com que os animais mais fortes, mais adaptados, sobrevivem aos mais fracos. Mas tal seleção acontece principalmente entre animais da mesma espécie, que disputam os mesmos recursos. Ora, nós humanos abolimos a seleção natural pelo menos em boa parte. Temos leis e princípios que não nos permitem tripudiar em cima dos mais fracos. Não posso agredir uma pessoa cega, assassinar um paralítico, que teria mais dificuldade em se defender da minha agressão, simplesmente dizendo que são pessoas mais fracas (fisicamente mais vulneráveis). Não podemos matar uma pessoa porque é estéril, não poderia transmitir seus genes e darwinisticamente falando estaria menos adaptada. Ou seja, temos uma ética para regular nossas relações de modo a não agredirmos e matarmos uns aos outros. Mas quando se trata da relação com os animais, muitas pessoas usam essa justificativa, a lei natural permite que matemos! Como se vivêssemos por conta da ‘lei natural’. Não vivemos. Será um mal entendido as pessoas usarem essa justificativa? Ou mero cinismo? Diz-se: “É assim mesmo. É a vida.” Claro, quem fala isso não está na mira do machado. Por isso é cinismo.

Quando tentaram usar essas justificativas de seleção natural, sobrevivência do mais apto, tivemos nada menos que o nazismo e sua tentativa de “depurar” a raça, assassinando sem pudor os que não cabiam na fôrma definida pelos que tinham o poder. Claro, quem tiver o poder, vai dizer que a melhor raça, espécie, grupo, é o seu e se puder utilizar a justificativa da sobreviência do mais forte, vai matar é os outros. Não por acaso a bíblia diz que os animais foram criados para os seres humanos. Claro, um livro escrito por homens só poderia colocar no centro do universo os próprios autores. Uma ética desprezível!

Portanto, ou estou muito enganado, ou não há seleção natural nenhuma agindo em nossa consideração ética na sociedade em que vivemos. Aliás, nossa ética existe justamente para impedir que matemos e agridamos porque queremos. Existe para que através de reflexão e ações, possamos criar um mundo mais justo. Não é para isso que existe a ética? Dizer então que nossa relação com os animais está regulada pela lei natural é dizer que não há simplesmente ética entre nós e os outros seres que habitam este planeta, o que significa pura barbárie. Este é o estado em que a grande maioria da humanidade está no que se refere à relação com os outros seres do planeta.

Homem duplicado (citação)

Lendo o livro O Homem Duplicado, do José Saramago, me deparei com algumas partes que quero gravar aqui. Os românticos de plantão vão gostar da primeira, é bonita mesmo, mas o livro não é nenhum romântico.

Tertuliano Máximo Afonso ao telefone com Maria da Paz:

Ele começa:  “Digo-te que te amo, Já ouvi tantas vezes essas palavras, sobretudo na cama, antes, durante, mas nunca depois, E contudo é verdade, amo-te. Por favor, por favor, não me atormentes mais, Ouve-me, Estou a ouvir-te, nunca quis tanto alguma coisa como ouvir-te, A nossa vida vai mudar, Não acredito, Acredita, tens de acreditar, E tu tens cuidado com o que estás a dizer-me, não me dês hoje esperanças que depois não possas ou não queiras cumprir, Nem tu nem eu sabemos o que nos trará o futuro, por isso é para este dia em que estamos que rogo me concedas a tua confiança, E para que vens pedir-me hoje uma coisa que sempre tiveste, Para viver contigo, para que vivamos juntos, Devo estar a sonhar, é impossível que seja verdade o que acabei de ouvir, Não tenho dúvidas em dizê-lo outra vez, se quiseres, Com a condição de que seja pelas mesmas palavras, Para viver contigo, para que vivamos juntos, Repito que não é possível, as pessoas não mudam assim, de uma hora para outra, que foi que se passou nessa cabeça ou nesse coração para que estejas a pedir-me que vá viver contigo, quando até agora toda tua preocupação tinha sido fazer-me perceber que semelhante idéia não entrava nos teus planos e que o melhor era não alimentar ilusões, As pessoas podem mudar de uma hora para a outra continuando a ser as mesmas, É então certo que queres que vivamos juntos, Sim, Que amas Maria da Paz o suficiente para querer viver com ela, Sim, Diz-me outra vez, Sim, sim, sim, Basta, não me afogues, que quase estalo, Cuidado, quero-te completa, Importas-te que diga à minha mãe, levava a vida a espera desta alegria, Claro que não me importo, embora ela não morra propriamente de amores por mim, A pobre lá tinha as suas razões, tu andavas a empatar, não te decidias, ela queria ver a filha feliz, e eu de felicidade não dava grandes mostras, as mães são todas iguais, Diz à tua mãe que a partir de agora pode dormir descansada, Quem não vai dormir sou eu. Tertuliano Máximo Afonso pousou o telefone, cerrou os olhos e ouviu Maria da Paz a rir e a gritar, Mãezinha, mãezinha, depois viu as duas abraçadas, e em vez de gritos, murmúrios, em vez de risos, lágrimas, às vezes perguntamo-nos por que tardou tanto a felicidade a chegar, por que não veio mais cedo, mas se nos aparece de improviso, como neste caso, quando já não a esperávamos, então o mais provável é que não saibamos que fazer, e não é tanto a questão de escolher entre o rir e o chorar, é a secreta angústia de pensar que talvez não consigamos estar à altura”. 

Outra:

(…) foi como se lhe tivessem vindo pôr uma mão no ombro e lhe dissessem, Tenha paciência, com o tempo o seu desgosto há-de passar, é verdade, com o tempo tudo passa, mas há casos em que o tempo se demora a dar tempo para que a dor se canse, e casos houve e haverá, felizmente mais raros, em que nem a dor se cansou nem o tempo passou.”

O canto das baleias

O Japão está com sua frota baleeira pronta para atacar a Antárctica. Só não partiram ainda por medo de um constrangimento diplomático com os EUA, que são contra a caça e estão pressionando o Japão. (http://www.greenpeace.org/brasil/oceanos/noticias)

Mas tudo indica que a matança não tarda. Serão mais de mil baleias assassinadas, incluindo 50 jubartes, em risco altíssimo de extinção. Essa coisa me deprime e me revolta. Me vem uma dor profunda não poder fazer nada contra. Várias manifestações são feitas, inclusive de muitos países pequenos que se localizam perto da Antárctica e ganham com o turismo de observação de baleias. Mas no fim o Japão irá caçar, sem dúvida. Se eu pudesse, com certeza soltaria bombas em cima dos navios, matava todos os assassinos e dormia com a consciência tranquila. Infelizmente pessoas extremamente insensíveis não são vulneráveis a protestos pacíficos, por mais que se proteste, eles vão lá e vão matar. De modo que sendo assim, penso que merecem ser mortos também. Gostaria muito que isto acontecesse.

Mas por quê? Por que essa raiva? Por que as baleias merecem tanta consideração? Se fossem caçar baratas, seria aceitável moralmente? Parece que sim, só porque não gosto de baratas, o que me coloca num ponto de vista egocêntrico. Se o animal me sensibiliza, não pode matá-lo… minha sensibilidade como centro da minha moral. Não, são necessários outros argumentos. Me parece mais refinada uma ética do respeito pela vida integrada com uma ética pragmática.

Um raciocínio pragmático leva em conta as consequências do ato. A dor e sofrimentos que a baleia é capaz de sentir, o possível desequilíbrio biológico gerado com sua ausência, o prejuízo de países e lugarejos que lucram honestamente com o turismo de visitação…

A ética do respeito pela vida me parece mais sutil de ser explicada e defendida, mas igualmente necessária e profunda. Parece que é uma ética melhor sentida do que racionalizada. Pense numa baleia corcunda, um macho cantando aquelas melodias inefáveis durante 20 horas seguidas, com a intenção de se unir a uma fêmea.

A voz das baleias ressoa mais profundamente em nós, ecoa nos vazios internos, plenos, despertando uma nostalgia indecifrável. Seu canto é suave demais e seu silêncio um hino de paz e tranquilidade. Mesmo se não cantassem, se fossem agressivas, mereceriam nossa consideração, pois não temos o direito de matar e agredir só porque um ser não nos toca a ternura. Mas matar mesmo quando isto acontece tão fortemente é triste demais…

Ele só quer uma coisa

Capítulo dos mais frequentes e de difícil apaziguamento no livro dos desencontros entre os sexos é aquele da motivação. Parece preocupação constante entre boa parte das mulheres saber de fonte segura qual a intenção do moço que a aborda ou que já é ficante ou cousa do gênero. Se ela desconfia, coisa comuníssima, que o moço se motiva principalmente pela vontade de fazer amor, parece que ele perde um possível brilho que pudesse prometer. Então se diz: “mas ele só quer uma coisa!” Eis aí uma sentença ouvida ao cansaço e que mal compreendo. Quando me interesso por uma mulher a ponto de procurá-la, faz mesmo diferença quais são minhas motivações? Essa é a primeira pergunta. Ora, me parece que a vontade de me unir fisicamente com uma mulher é de todo legítima. Mas se é esta minha intenção principal, isso tende mesmo a ofender algumas mulheres. Minha incompreensão é justamente o não entender em quê isso é ofensivo ou porque é um motivo que só poderia ser secundário.

Diz-se que a mulher se torna objeto se ceder a esta motivação. Justificativa das mais confusas esta. Objeto de quê, do meu desejo sexual? Tudo bem, pensemos no que seria o romântico. Eu me aproximaria cheio de sentimentos de ternura, mas não prioritariamente sexuais diga-se logo, interessado em conhecer a fundo tal pessoa, interessado em me conectar com sua alma, seu jeito de ser, conhecer e admirar suas singularidades, conversar, entabular intimidade. Mas que isso não fosse feito com objetivo oculto de terminar na cama, pois tal denegriria toda a intenção.

Uma coisa: se tal (sexo) não fosse o objetivo, o objetivo seria outro, está claro; e me apoiar em outro objetivo não faz da mulher que o satisfará também objeto? Objeto desta intenção e não de outra. Ou seja, sempre que me aproximo de outro ser o faço com objetivos e ele sempre será objeto dessa vontade, seja de prazer físico ou emocional principalmente. Mas o se tornar objeto físico ofende, diz-se que ser tomado só pela capacidade de satisfazer a necessídade física atinge a dignidade. Quantas questões! Primeiro: só a necessidade física? Não consigo vivenciar uma relação sexual onde só a necessidade de descarga física seja satisfeita, onde exista uma separação absoluta entre minha necessidade de descarga energética e minha emoção. Mesmo que eu me empenhe numa relação sexual momentânea e descompromissada, é todo o meu ser que é carregado pela quase urgência física que me movimenta. Mesmo que seja possível relações sexuais bastante impessoais, acho inconcebível eu ficar verificando qual necessidade minha parceira está satisfazendo. Se for A ou B, então o encontro vai desabonar minha dignidade? Isto é muito falso na minha opinião, uma defesa sinistra e prejudicial. Por vários motivos. Mesmo que eu percebesse uma impessoalidade na intenção da minha parceira, é claro para mim, mesmo baseado na minha pouca experiência, que não há ato sexual de todo impessoal . Sempre que se ligam os corpos se ligam as almas de carona. Portanto, mesmo que me fosse possível procurar uma mulher unicamente baseado no meu desejo sexual, o que é falso demais, ainda assim, se fora consumado o encontro, a intimidade e conexão se apresentariam demais no ato sexual, como sói acontecer. O que me impressiona mais nessa expressão “ele só quer uma coisa” então é essa subestimação do encontro dos corpos. Como se isso fosse “apenas” sexo. Talvez ocorra em casos de prostituição por exemplo, mas mesmo aí é possível questionar se o desejo sexual que move a pessoa é totalmente desligado de sua alma, e mesmo que assim seja, é possível questionar qual o problema disso.

Talvez seja apenas uma ordem de prioridades em que homens e mulheres tendem a se diferenciar em nossa cultura. Umas querendo primeiro conversas, seduções e intimidades não sexuais para daí partir para a união de corpos. Tudo bem, compreendo que seja assim e devo respeitar esse jeito de desejar. O que me parece principal é começar e refletir sobre isso imparcialmente. Por que a intimidade sexual de uma mulher deve ser uma fortaleza a ser protegida, por que muitas mulheres se sentem tão vulneráveis nesse recinto do ser, de modo que precisem de garantias de que o cara não quer só um ato sexual? Fica parecendo que se o cara transar uma vez só e não voltar, ele terá pisado um terreno sagrado e não retornando com os devidos rituais, terá cometido heresia, sentida pela “vítima” como verdadeira invasão e apropriação de seu tesouro. Ora, esse pensamento é ainda muito comum e me parece desnecessário e nocivo, apenas isso. Me parece arbitrário e fruto de mal-entendidos, errado e limitador, além de auto-realizador; ou seja, se uma pessoa alimenta toda a vida a idéia de que um ato sexual isolado e descompromissado vai lhe invadir a intimidade e roubar-lhe dignidade, acontecendo tal ato a pessoa se sente menos digna, óbvia auto-sugestão alimentada por séculos de dominação sobre a sexualidade das mulheres. Pura profecia auto-realizadora. Parece mesmo uma boa forma de manter sobre controle a sexualidade das mulheres fazê-las acreditar nessas coisas todas.

Reflito isso tudo por sonhar viver numa sociedade mais sensual, onde encontros sexuais, completos ou não, sejam comuns e leves de se viver. O medo de mudar é que leva as pessoas a pensarem que já estamos vivendo isto. Não estamos! O que temos é uma polarização, de um lado conservadores dizendo que o mundo está perdido, que devemos voltar aos valores da família e da igreja, no que miram certo, pois igreja e família são os bastiões da vida repressiva e capitalista. (Vide o livro Psicologia de Massas do Fascismo, de Wilhelm Reich) E de outro lado tentativas incipientes de libertação das amarras, tentativa de jogar os limites às favas, coisa vista em bailes funk e outras tribos, em que não há nada de errado na minha opinião, apenas tentativas de fazer diferente. Mas ainda não próximo de uma cultura verdadeiramente sensual, onde o trabalho compulsivo e a necessidade de ganhar mais para consumir mais não sejam os valores do viver, mas sim a satisfação do corpo e consequentemente da capacidade de amar sem defesas e controle da sexualidade. Tal familiaridade com o corpo e suas necessidades e capacidades me parecem muito mais conectadas com a natureza e com a vida em geral, conexão que sem dúvida alguma nos aproxima da maior harmonia uns com os outros, menor competição e verdadeira espiritualidade.

De modo que sensualidade-sexualidade é uma forma de viver, uma visão de mundo, como bem o expressa Tinto Brass em seus filmes eróticos mas não pornográficos (vide “A Pervertida” e “Faça Isto!”). Cheguei aonde não programei de início, estava apenas refletindo sobre algumas defesas que as pessoas aprenderam a usar e vim parar numa crítica da cultura. Não devia me surpreender.

Pesquisa sobre Poliamor

“Poliamor é o termo que descreve as relações interpessoais amorosas que recusam a monogamia como princípio ou necessidade, defendendo a possibilidade prática, sustentável e responsável de relações íntimas e profundas com vários parceiros simultaneamente. Em resumo, o poliamor é estar aberto para a possibilidade de gostar de mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

Tendo como base a honestidade e o compromisso entre os envolvidos, o poliamor se diferencia completamente do adultério tão praticado na monogamia. A fidelidade não se refere à posse do outro, de seu corpo ou de seu ‘coração’, e sim à confiança mútua no envolvimento dos parceiros.” (http://www.samila.com.br/kelly/bitch/folheto_poliamor.html)

A pergunta é tirada do livro “Deus – um delírio” de Richard Dawkins: “Aceitamos sem problemas que somos capazes de amar mais de um progenitor, mais de um filho, mais de um irmão, mais de um professor, mais de um amigo ou mais de um animal de estimação. Pensando assim, a exclusividade total que esperamos do amor conjugal não é esquisita?”

Pergunto: não é esquisita a exclusividade? De onde vem isso? Por que devemos ser monogâmicos? É um atavismo, um sintoma, uma necessidade criada por Deus, pelo capitalismo?…

Pesquisa sobre Deus

Lendo o livro “Deus – Um Delírio”, de Richard Dawkins, me deparei com uma graduação que vai de 1 a 7, onde 1 significa teísta convicto e 7 ateu convicto. Gostaria de saber onde se posicionam as pessoas que lêem este blog e principalmente POR QUÊ! Comente aí, qual opção se parece mais com a sua orientação e porque.

“1) Teísta convicto. Probabilidade de 100% de que Deus existe. ‘Eu não acredito, eu sei’.

2) Probabilidade muito alta, mas não chega aos 100%. Teísa de fato. ‘Não tenho como saber com certeza, mas acredito fortemente em Deus e levo minha vida na pressuposição de que ele está lá’.

3)  Maior que 50%, mas não muito alta. Tecnicamente agnóstico, mas com uma tendência ao teísmo. ‘Tenho muitas incerteza, mas estou inclinado(a) a acreditar em Deus’.

4) Exatamente 50%. Agnóstico completamente imparcial. ‘A existência e a inexistência de Deus têmprobabilidades exatamente iguais’.

5) Inferior a 50%, mas não muito baixa. Tecnicamente agnóstico, mas com uma tendência ao ateísmo. ‘Não sei se Deus existe, mas estou inclinado a não acreditar’.

6) Probabilidade muito baixa, mas que não chega a zero. Ateu de fato. ‘Não tenho como saber com certeza, mas acho que Deus é muito improvável e levo minha vida na pressuposição de que ele não está lá’.

7) Ateu convicto. ‘Sei que Deus não existe’.

Memória do Corpo

Que é isso que me surge num sonho e continua me tomando de assalto na consciência do dia, que me faz acordar perturbado? É um sentimento. Todos sentimos certos frios na barriga, por falta de termo melhor, porque cada um pode sentir o frio num lugar; ou quente. Dizia que sentimos essa reação corporal, mais ou menos visceral em determinados momentos. São águas passadas movendo moinhos, experiências passadas no fio do tempo e da consciência, mas que sobrevivem numa memória específica, prontas para surgir e brilhando fazer brilhar o nosso cotidiano.

Normalmente quando amamos alguém, na adolescência principalmente, quando os sentimentos são mais intensos que nunca, gravamos no corpo a experiência. O tempo pode passar, novos amores surgem, aquele amor não faz mais sentido, podemos raciocinar com acerto que não seria possível agora. Mas quando encontro alguém dessa experiência ou o que é mais forte, quando sonho com alguma experiência de encontro desse tipo, os afetos retornam como cachoeira, podendo ser uma enorme queda d´água ou uma pequena e não menos profunda cascata. Sinal de que os afetos intensos não se perdem, apenas ficam guardados em algum canto do corpo, prontos para darem o ar da graça. Sinal de que a saudade que possamos sentir de algo ou alguém pode ser a saudade do que sentimos na ocasião. Perdemos a pessoa, mas não perdemos o sentimento, que fica guardado. E quando sonhamos com o alguém, é a vivência do sentimento que sentimos que estamos buscando, ou é o sentimento que está com saudade de ser sentido de novo e nos assalta no sonho.

A atitude diante do sentimento pode ser uma ou outra. Um pode viver a coisa como situação mal resolvida e tratar de entrar em conflito com o sentimento há tanto guardado.

Outra possibilidade é desfrutar de novo dessa profundeza, o que significa um reencontro com si mesmo afinal, com o que há de belo enterrado na sabedoria do corpo. E não precisa ficar diferenciando se o sentimento é atual ou é resquício do passado, se é real ou é sonho de criança que não quer crescer. Pode-se desfrutar apenas, sem compromisso. Não me parece perigoso, não é ameaça real se aceitamos o que sentimos. Pode ter um doce amargo de solidão, de falta, carência, mas pode ser um deixar correr o rio da consciência naturalmente, o que significa transformação. O que é carência num momento, no outro é plenitude, é a gostosa sensação de ser o que se é, intensa satisfação dessa vida. Entrando assim em amizade com o que surge de nós mesmos é que deixamos o corpo que guarda memórias desenvolvê-las, transformá-las, aprimorá-las, reinventando o que há de melhor em cada um . Libertá-las para voarem em outras direções.

Pode ser de outras formas também, cada um com seu cada um. Para mim não é apenas doloroso, é significativo, no mais pleno sentido do termo.

Mentiras

Estou lendo um interessante livro chamado “Os Papéis que Vivemos na Vida”. Resolvi fazer um pequeno resumo (mais baseado em citações diretas) de um dos capítulos e divulgar.

Aí vamos. O livro está inserido numa escola de terapia chamada Análise Transacional. Esta escola propõe que nós podemos ser livres e responsáveis pelo que fazemos, que podemos nos sentir bem com o que somos e com o que os outros são, valorizando a nós mesmo e aos outros. Mas normalmente as pessoas não desenvolvem seu potencial de ser OK porque aprendem scripts (roteiros) durante a infância e adolescência, roteiros de vida baseados em pouca informação e capacidade de compreender a realidade. Tais roteiros definem toda a vida da pessoa, o que ela será, como será, o que fará com o seu tempo. São as normas e modos de ser aprendidos em família as principais diretrizes para o script. Cito:

“Alguns pais não gostam que seus filhos fiquem tristes; outros não gostam que os filhos se sintam felizes; outros ainda não gostam quando os filhos se zangam. Quando essas emoções se expressam os pais fazem o possível para ignorá-las, para fazer que desapareçam, para invalidá-las. Em certos lares a raiva é desconsiderada, ao passo que em outros se desconsidera o medo, e assim por diante. (…) O resultado dessa desconsideração de sentimentos é que, mais uma vez, uma importante fonte de informação e entendimento é retirada da criança. Ronald Laing ressalta como a invalidação dos seus sentimentos transforma as pessoas em inválidos mentais. O resultado das desconsiderações é que as pessoas se tornam divididas dentro de si mesmas. Uma porção inteira do seu ser, seus sentimentos, não é reconhecida. Todavia, os sentimentos continuam a existir e afetam grande parte das atitudes corporais da pessoa, bem como seu comportamento.”

Mas não quero falar das desconsiderações e sim das mentiras. Coisa interessante é quando neste livro o autor, Claude Steiner, fala do aprendizado da confusão por assim dizer, de como aprendemos a ser confusos, incongruentes, incoerentes. Ele explica algumas formas de “aprendermos” isso, mas vou citar suas falas relativas à mentira:

As mentiras corroem a compreensão das crianças. Mentir é a regra, e não a exceção, quando se trata de assuntos humanos. Todos temos presente o fato de que nos são ditas mentiras por aqueles que nos governam, aqueles que nos cercam e aqueles que constantemente tentam nos convencer a gastar nosso dinheiro em seus produtos, quer os necessitemos quer não. Mas somos menos inclinados a tomar conhecimento do fato de que a mentira é mais comum do que o dizer a verdade em nossas relações cotidianas. (…)

Se, em acréscimo às descaradas mentiras contadas às crianças, considerarmos as meia-verdades e as omissões de verdades às quais elas são sujeitas, é claro que a mentira constitui uma dimensão básica da experiência da criança. É preciso um longo período de treinamento, durante a infância e adolescência, para acostumar os seres humanos a mentir e aceitar mentiras sem protestar. Contam-se mentiras instituídas quando se diz às crianças que a cegonha traz as crianças, que o papai noel traz os presentes, e quando se dão explicações falsas sobre o que acontece em suas vidas diárias. Também são ditas mentiras por omissão, quando são afastadas de informações consideradas fortes demais, ou prematuras para as suas mentes ‘delicadas’.

Quando uma criança pergunta a um dos pais ‘Como nascem os bebês?’, é uma mentira clara dizer ‘A cegonha os traz’. Mas também é mentira dizer ‘Eles simplesmente saem da barriga da mãe’, ou mudar de assunto. Os pais possuem a informação que a criança deseja. No sentido de ser sincero, ou o pai deve dar a informação, ou, sem mentir, explicar porque ela não é dada: ‘Estou embaraçado em lhe contar’ não é uma mentira. ‘Você é jovem demais para entender’ é mentira. ‘Estou com medo que você fique perturbado’ não é mentira. ‘Eu lhe direi quando você estiver preparado’ é mentira.

A verdade é muito rara entre os seres humanos; mas de adultos para crianças ela praticamente não existe.

Nós não devemos mentir. Ainda assim, se examinarmos esta regra, descobriremos que ela possui infinitas exceções. Apenas um tipo de mentira parece ser realmente não admissível: aquelas que contamos às pessoas que estão acima de nós (pais, professores, patrões, governo) e aquelas que nos são contadas por aqueles que estão abaixo de nós (filhos, alunos, empregados, aqueles que governamos) [É mesmo, nunca tinha percebido essa permissão hierárquica. O mesmo pai que mente desacaradamente para o filho o pune se o pega em mentira!!!]

Podemos mentir para os nossos alunos, filhos, empregados e constituintes. Esperamos que nossos pais, professores, patrões e políticos nos mintam.

As crianças acreditam naquilo que se lhes diz. Quando as coisas que lhes dizemos como verdades se contradizem, isto ‘embaralha o computador’ delas, e faz com que se sintam bobas e idiotas.

Afirmações e mentiras podem ser feitas verbalmente, mas podem também serem feitas com gestos. Uma pessoa pode fazer verbalmente uma afirmação, e negá-la com um gesto. Por exemplo, John se lembra que seu pai lhe dava a seguinte informação:

1) ‘Amo sua mãe.’ 2) ‘Se vc ama alguém não olha para outras.’ 3) ‘Não tenho olhos para outras mulheres.’

John via o pai agir de maneira odiosa com a esposa e xingá-la, e sabia que ele olhava para uma vizinha porque tinha visto os dois se beijarem na lavanderia. Pelo fato do pai ter mentido claramente em 3, levantaram-se dúvidas a respeito de todas as outras afirmações.

Se espera que as crianças se tornem adultos sinceros, porém, dadas as circunstâncias da sua educação, este resultado é muito improvável. (…) A origem da espécie humana, seu funcionamento biológico, é mantida à distância do conhecimento das crianças o maior tempo possível. Os adultos escondem das crianças seus corpos nus e quaisquer sinais de sexualidade, e ocultam e distorcem suas conversas qaundo na presença das crianças. E, naturalmente, os adultos as encorajam a não dizerem a verdade sobre o que sentem ou pensam realmente.

Vivemos numa sociedade de consumo. Por meio da compra e da venda de mercadorias estamos profundamente imersos em mentiras referentes àquilo que compramos ou vendemos. O consumo e as relações públicas constituem a venda de coisas e pessoas por meio de mentiras. Nós nos vendemos por meio de mentiras.

Assim sendo, à medida que crescemos e entramos no mundo adulto civilizado, vamos nos preparando não somente para sermos mentirosos, mas também para aceitarmos mentiras dos outros. Não é de admirar que as pessoas aceitem passivamente as mentiras de seus políticos eleitos, dos anunciadores e do meio; o treinamento é implacável desde a primeira infância.

Mentiras por omissão encontram-se armazenadas aos montes no sistema educacional, que constitui um sofisticado campo de treinamento em adiantadas formas de mentira.

Uma criança não treinada tem grande dificuldade em dizer algo que não seja verdade, bem como falhar em dizer algo verdadeiro. Tanto a expressão da falsidade como a não-expressão da verdade são atividades não-naturais. Logo depois de a criança começar a falar mesmo as sentenças mais breves, já tem início seu treinamento de dizer mentiras e evitar dizer verdades.

Supostamente as crianças são incentivadas a não mentir. É lhes dito que mentir não é bom. Quando mentem ou são surpreendidas mentindo, são punidas ou passam vergonha. As crianças honestas são, a meu ver, apenas crianças que aprenderam a mentir habilmente (como os adultos); e apenas aquelas que não aprenderam a mentir de maneira aceitável, sendo grosseiras e indiscriminadas em suas mentiras, recebem punição. Em outras palavras, a ‘honestidade’, da forma como é ensinada pelos adultos às crianças, é simplesmente um modo sofisticado de mentir, ao contrário da maneira mais rude e simples, que é punida.

Cem motivos

Eu querendo atualizar este blog mas sem idéias do que escrever. Pior que escrever a partir da falta é idéia velha, batida, torturada. Drumonnd o fez mas ele podia fazer o que quisesse, Fernando Pessoa também, idem. Tom Jobim também, quando começou a cantar atabalhoadamente e acabou fazendo uma música inexplicável. É pau , é pedra, é o fim do caminho, é o resto de toco, é um pouco sozinho…

Mas o que é que é que merece ser escrito? Quase tudo já foi dito, escrito em livros, blogs, sites, revistinhas… pelo menos quase tudo o que eu sei. Escrever quase que por pirraça sabendo que leitores existem que também cumprem sua função religiosamente, lendo o que for que se esborrache diante dos olhos! De modo que se não tenho motivo para escrever, você tampouco o tem para ficar aí, lendo… no entanto escrevo, no entanto lês!

E parece ser isso mesmo esta vida, de tanto não ter motivo para viver, cada um inventa motivos mil e a eles se apega como um cão a seu dono, se é que alguém é dono de algo ou alguém também, não será essa palavra “dono” um ardil, uma astúcia, manha de quem só quer mais motivos? Seja esse talvez o maior fingimento do humano, fingir que acredita nos seus motivos de viver. Afetação só! “Tenho filhos, família, ambições, sem elas não viveria” diz um. É verdade, mas que existência curiosa para mim esta que não se justifica por si mesma, que demanda artifícios tão desincumbidos.

Então um tem que ter motivo para viver, digo, para escrever? Melhor é viver sabendo que não há motivos, que tudo isso aqui é um absurdo e pronto! Isto não é tão assutador quanto deve parecer a nós que passamos a vida ávidos de motivos. Tão ávidos que construímos igrejas em qualquer povoado dos cantões por aí. Ora, é sensação de liberdade contemplar o mundo e aceitar que é porque é. Também cada sujeito pode assim olhar para si mesmo, dizendo de si para consigo: sou o que sou, sem precisar ser qualquer outra coisa, jardineiro, presidente, pai, filho, namorado, esposa, homem, mulher, heterossexual ou o raio que me parta. Se um sujeito contempla assim a si mesmo pode então mirar o mundo do mesmo jeito? É fora de dúvida que uma pessoa que sente nas entranhas seu próprio valor sem precisar ser qualquer coisa, apenas sendo, está mais bem plantada nesta terra do que uma necessitada de ser outra coisa, rico, poderoso, chefe, proprietário, namorado… Daqui poderíamos concluir que a mesma atitude vale em relação ao mundo? Que então mais bem enraizada está neste solo uma que aceite o ser estranho do mundo sem precisar projetar motivos e se apegar a eles, uma que aceite a estranheza, quiçá desfrute dela? Nunca tinha pensado nisso, mas a analogia urge, insta, impele.

Dizia então que melhor estás se aqui lês sem motivos ou expectativas, que o valor do texto ou o de passar o tempo lendo não carece de maiores sucessos que o ato simples de ler o que se escorre por aqui. Mas dirá que também a mim não careceria escrever palavras se fosse apenas necessário existir? Pode ser, não carece. Por isso é mais gostoso. Já então tô tentando me convencer de que estou escrevendo sem carência de escrever, apenas para desfrutar o sem sentido ser do mundo e de mim mesmo, desfrute possível no percebimento e aceitação do absurdo. Que coisa!

Arremedo

As vezes bate na gente uma vontade de perfeição. Quando vi o filme “O Último Samurai” duas coisas me marcaram: primeiro a beleza da mulher que fica com o herói americano, segundo uma fala sobre o modo de vida dos Samurais: “eles se dedicam à perfeição do que fazem”. Isto despertou em mim aquele sentimento de perfeição que as vezes nos acomete de forma despretensiosa mas intensa. Despretensiosa porque não é bem aquele perfeccionismo neurótico e compulsivo, preocupado com picuinhas e com impor ao mundo uma ordem que não é necessária. Esse impulso à perfeição me parece como um impulso à plenitude. Penso que é um impulso legítimo que nos motiva e que é a força motriz responsável por vários movimentos que fazemos nesse mundo. Eu mesmo já busquei isso quando fazia capoeira e nas vezes que tentei o tai chi chuan, quando buscava tanto num como noutra a perfeição dos movimentos. Uma vez pelo menos senti essa perfeição praticando tai chi, os movimentos fluiam suaves e sabiam por onde ir. Hoje em dia procuro isso no Yoga e me peguei procurando na musculação.Na musculação como? Quando me percebi ansiando pelo corpo perfeito. Aqui o impulso saudável à perfeição vai misturado com o narcisismo, paciência!

Quando escrevo um texto tenho uma intenção meio velada de combinar as palavras de forma perfeita. Perfeito aqui significa aquela sensação de que uma coisa é e não podia ser melhor de outra forma. Quando me arrumo, quando faço a barba, corto os cabelos, penteio, miro o espelho, o que procuro? Parece que isso, a perfeição. Quando jogo futebol imagino aquele lance perfeito, quando vejo um jogo de futsal vibro com os lances espontâneos, que surgem rápidos e imprevistos em direção ao que não poderia ser diferente. No entanto acho triste aquele simulacro de plenitude que se nos apresenta em forma de narcisismo, como o exemplo da musculação, o exagero das aparências e dos luxos. São simulacros dessa plenitude possível, na medida em que dependem da aprovação dos outros, são heterônomos demais.

Qual critério podemoríamos adotar para diferenciar o impulso legítimo e adocicado pela plenitude do arremedo narcisista e inseguro, que busca aprovação e o perfeccionismo? Nietzche dizia que a natureza é a grande fonte de equilíbrio do espírito moderno, é onde podemos reconhecer a experiência da unidade. Vide uma grande cachoeira, como alimenta algo em nós. Por outro lado, se compro um carro novo e de luxo e o exibo para os outros, isso me dá uma satisfação passageira e superficial. É difícil separar o joio do trigo através de palavras, trata-se de uma experiência subjetiva. No íntimo creio que sabemos a diferença entre o sentimento de plenitude que uma grande montanha nos desperta e a sensação de perfeição que a pintura irretocável do carro novo estimula.

Os momentos em que me senti mais feliz foram momentos em que senti essa plenitude, momentos em que senti como que a unidade do corpo, uma energia única. A qualidade é de presença, de desfrute do momento. Talvez seja um bom sentido para a frase sobre os Samurais: “se dedicam à perfeição do que fazem”. Se dedicam ao que estão fazendo no momento presente, de forma leve, espontânea e decidida. Não por acaso foi quando senti no corpo a presença do presente que me senti pleno. Para mim parece clara a diferença entre essa energia que me estimula de dentro e que se me aflora de forma gostosa e espontânea quando consigo desfrutar o momento, daquela energia compulsiva que age para conquistar coisas e posições valorizados por convenção e que é a base da nossa cultura, a base do capitalismo. São até mesmo opostas essas energias, na medida em que uma nos acalma e satisfaz, enquanto outra, a do ego heterônomo (contrário de autônomo), nos cansa e não nos permite descansar, já que o sistema só funciona se formos insatisfeitos, se acreditarmos que não podemos parar, que precisamos conquistar sempre, diplomas, posições, coisas, admiração. A cultura nos impede de desfrutar a plenitude, é de sua essência que sejamos insatisfeitos, ela carece que não nos dediquemos ao presente. E usa nossa necessidade e nostalgia da plenitude direcionada para uma conquista inacabável de coisas e busca de sofisticação. Acabamos soldados dedicados da nossa própria insatisfação, defensores inconscientes do nosso próprio distanciamento, elogiantes da nossa fragmentação.

Outra forma, talvez mais efetiva ainda, que a cultura atual usa para nos impedir o acesso a essa consciência expandida que é a consciência do presente, é nos superestimular. Há um tal acúmulo de coisas a consumir e novidades, tecnologias que simulam a perfeição! Isto se soma com nossa insegurança e medo de acolher o que somos de fato, acolher o que é. A realidade social nos ataca de várias fontes, nos ensina a acreditar na insatisfação (ao mesmo tempo em que promete plenitude a cada bem de consumo produzido, que filosofia barata!) e nos superestimula, encontrando ressonância na insegurança e no medo de ser o que somos.

Mas queria é falar do equilíbrio e harmonia que podemos sentir. Nietzche é mais eloqüente: “Nós, homens de hoje, sentimos exatamente o contrário: quanto mais rico o homem se sente agora interiormente, quanto mais a polifonia de sua alma ressoa, tanto mais poderosamente atua sobre ele a unidade da natureza; todos nós reconhecemos na natureza o grande meio de equilíbrio da alma moderna, escutamos o bater do pêndulo do maior relógio aspirando ao repouso, ao recolhimento e à calma, como se pudéssemos absorver em nós essa unidade e, com isso somente, chegar a fruição de nós mesmos”.

Essa harmonia não podemos produzir com atos compulsivos, mas podemos deixá-la aflorar, pois que ela já existe em cada pessoa, apenas sendo ofuscada por estímulos externos incansáveis e nossa insegurança interna, que cria movimento contínuo de pensamentos e aspirações de perfeição deslocadas do alvo.

Ser o que é

Coisa mais difícil é ser o que somos, obviamente porque pra começo de conversa não sabemos o que somos. O que conhecemos do que somos normalmente é apenas uma soma de identificações que acumulamos sofregamente para ter o que possamos reconhecer. Um é carrancudo e diz para si mesmo que é assim que ele é, “sou o que sou”. Mas pesquisemos e quase sempre se verá esse aspecto como uma reação apenas. Um dia quando criança precisou ser carrancudo porque lhe parecia que sua sobrevivência dependia disto e assim continua usando uma resposta que um dia foi boa mas que agora muitas vezes não é útil mais, servindo apenas como uma identificação. E por aí com quaisquer traços que observo em mim. Todo traço teve sua história, eu sou apenas o conjunto desses traços? Eu (ego) sim, mas está claro que um não é apenas o ego que lhe aparece diante do espelho do olhar alheio. E coisa triste é quando um acha que é apenas suas identificações, sem perceber que há um espaço em si que lhe é desconhecido e que reserva formas de ser desconhecidas, desconhecidas, desconhecidas.

E para se ir agregando o desconhecido e aumentando a consciência é preciso algumas coisas. Por exemplo, é preciso ter confiança que no fundo ser humano vale a pena. Se não confio nisso prefiro viver numa personalidade que é limitada mas pelo menos é adaptada, tem tido o sucesso que este mundo proclama como tal. Neste caso a busca pela honesta verdade do que se é não acontece de modo algum, pois o que é se torna o que foi inventado de saída! Então não somos seres interessados na verdade? Definitivamente não. O que interessa aos seres dessa espécie é a segurança, é o se sentir seguro, mesmo que precariamente, dolorosamente.

O personagem Nietzche no livro “Quando Nietzche Chorou” fala a Breuer:

“Atinge-se a verdade através da descrença e do ceticismo, e não do desejo infantil de que algo seja de certa forma. O desejo de seu paciente de estar nas mãos de Deus não é a verdade. É simplesmente um desejo infantil, e nada mais! É um desejo de não morrer, um desejo do eterno mamilo intumescido que chamamos de Deus”

Ernest Becker no maravilhoso livro “A Negação da Morte” cita José Ortega e Gasset:

Examine as pessoas a seu redor e você… as ouvirá falar em termos precisos a respeito de si mesmas e de seu meio, o que poderia parecer indicar terem elas idéias sobre o assunto. Mas, ponha-se a analisar tais idéias e verificará que nem de longe refletem de alguma maneira a realidade à qual aparentemente se referem, e se você se aprofundar descobrirá que nem há sequer uma tentativa de ajustar essas idéias à realidade. Bem pelo contrário: por meio desses conceitos o indivíduo está tentando cortar qualquer possibilidade de visão pessoal da realidade, de sua própria vida. Pois a vida é no começo um caos no qual a pessoa se acha perdida. O indivíduo desconfia disto, porém tem medo de ver-se face a face com tão terrível realidade e procura ocultá-la com uma cortina de fantasia, onde tudo está claro. Não o preocupa se suas idéias são verdadeiras, pois ele as emprega como trincheiras para a defesa de sua existência, como espantalhos para afugentar a realidade.

Voltando a Nietzche (personagem do livro de Irvin Yalom):

“Não é a verdade que é sagrada, mas a procura de nossa própria verdade! Uma de minhas sentenças de granito é: ‘torna-te quem tu és’! E como descobrir quem e o que se é sem a verdade?”

E de volta a Ernest Becker:

“Dizer que alguém é anal significa que está tentando, com exagero, proteger-se dos acidentes da vida e do perigo da morte, buscando empregar os símbolos da cultura como um meio seguro de trinfar sobre o mistério natural, procurando fazer-se passar por qualquer outra coisa que não um animal. (…) O que perturba na analidade é ela evidenciar que toda a cultura, todos os estilos de vida criativos do homem são, fundamentalmente, um protesto inventado contra a realidade natural, uma negação da verdade da condição humana e um esforço para esquecer a criatura patética que o homem é”.

Uou! Parece que é daí que um tem que começar quando quiser dizer com um mínimo de honestidade: é assim que eu sou!

 

 

 

Coisa abafada

Um vento sopra lá fora, é só o seu barulho que se ouve aqui dentro.

Assobia triste, convicto…

e não se incomoda se não se acaba nunca, se atravessa os espaços reverberando uma dor aqui, uma angústia, quem sabe um desespero

e, dizia, atravessa o espaço, atravessa tanto que passou por tudo e de tanto viajar já conhece os segredos de todo mundo,

e os canta aos quatro cantos e quem o entende escuta as dores e pequenas alegrias.

E como não encontramos o fim do vento, sabemos que ele está em todo lugar,

por isso todas as histórias começam com o vento, por isso esse palavreado com o vento começou,

não porque houvesse o sopro do lado de fora. De fato não havia nenhum, mas sussurrava aqui dentro uma voz abafada e muda,

e desejava que do lado de fora houvesse um vento que soprasse harmoniosamente. Não havia!

Mas um vazio seboso que não me deixa fazer mais nada além de procurar barulhos do lado de fora, para que dele me esvazie, isso havia.

Há duas espécies de vazio, esse seboso e inquieto que vive de ventanias, tornados e manias;

e aquele tranquilo, pleno e saboroso, como o é o do rio que desce devagar e produz no barulho das águas calmas a ressonância daquele nosso silêncio.

Serão esses dois vazios um só? Quando é seboso é porque seria como um rio que impedimos de escorrer?

Que desgraça não permitir que corra livremente essa angústia recorrente, pois no que corre e escorre, também morre.

“O digitador aposentado D.L.R., de 40 anos, foi queimado na segunda-feira 06/08/07 em Belo Horizonte.

A família diz que ele é homossexual e que isso teria motivado a agressão. A polícia vai investigar o caso.

Segundo o irmão da vítima, R. estava bebendo na loja de conveniência de um posto de combustíveis, na Avenida Barão Homem de Melo, quando foi agredido.

A vítima teria dito à família que um homem bateu nele e outro jogou gasolina em sua cabeça e ateou fogo.

A vítima chegou ao hospital com queimaduras de segundo grau no rosto e outras partes do corpo.

Funcionários disseram que ele teve 18% do corpo queimado, está sedado e respira com a ajuda de aparelhos.”

 

Isto aconteceu esse mês em nossa Belo Horizonte. Muitas pessoas com quem falei não ficaram sabendo. Por quê será? Por quê não foi tão divulgado? Será porque foi com um homossexual? Então pode??? Dois dementes jogaram fogo em outro ser e saíram livres por aí. Dá para aceitar uma coisa dessas?

De quem é a responsabilidade por esse tipo de coisa? Pra responder isto precisamos pensar em que contexto esse ato está inserido, qual mentalidade possibilita e permite que essa coisa aconteça. Uma forma interessante de olhar para a nossa evolução dá algumas pistas.

Alguns pesquisadores da consciência, como Jung e Erich Neumann, afirmam que no início da vida individual humana e também em fases mais primitivas do desenvolvimento coletivo o ego tal como o conhecemos hoje não existia. Pense num bebê. Não há ego ali, há apenas inconsciente. À medida que ele vai se diferenciando, vai surgindo um senso de individualidade, o que podemos chamar de ego. Este ego é algo como o centro da consciência e onde ele não está, está o inconsciente, tudo o que ele não conhece, todas as experiências que foram vividas e revividas pela humanidade anterior e gravadas de alguma forma na memória coletiva. Não só o que foi vivido pela humanidade, mas por todos os seres. É a idéia de que a ontogênese (desenvolvimento individual) repete a filogênese (desenvolvimento da espécie). Isso pode ser visto no desenvolvimento do embrião humano, que passa pelas fases anteriores da evolução, assumindo formas semelhantes à dos peixes, aves e mamíferos, sendo difícil distinguir embriões jovens de peixes, sapos, tartarugas, pássaros e seres humanos.

Enfim, foi uma árdua luta para o ego se diferenciar, para a individualidade surgir, para garantirmos um mínimo de direitos individuais. Mas essa evolução ainda está acontecendo e parece que é ainda bem incipiente. Ela se extravia por aí, se ensaiando em narcisismo e também se perdendo de novo nas brumas inconscientes. Erich Neumann diz:

O advento da individualidade na história da evolução surge de forma paulatina e nela o ego está ligado a uma consciência inicialmente ainda muito frágil e de funcionamento intermitente.” (A Grande Mãe, pg. 38)

Desse caráter intermitente e ainda frágil podemos entender as compensações, o apego desesperado a uma identidade limitada. Se um sujeito sente (mesmo que não muito consciente disso) que sua identidade é frágil, ele tende a se apegar fortemente a ela, como defesa contra o desconhecido. Neumann relaciona a fase matriarcal do desenvolvimento coletivo (pensando em desenvolvimento psicológico, não necessariamente social) como a fase de predomínio do inconsciente e o desenvolvimento do ego como paralelo ao advento e desenvolvimento do patriarcalismo.

Então, tendemos a nos apegar fortemente ao ego, à identidade conhecida. Acontece que tal identidade é fornecida pelo que há disponível na cultura e aqui me interessa o que há disponível para um sujeito do sexo masculino. Todos conhecem a ideologia do machão. Há mensagens circulando por aí dizendo o que um homem pode ser, definindo o limite de seu mundo. Resumindo, não pode ser sensível, delicado, compreensivo, acolhedor, cuidadoso com o outro. Daqui podemos voltar à mentalidade que permite a agressão de um sujeito homossexual. Podemos ir mais longe e dizer que a mentalidade que ainda domina o construto “homem” não só permite a agressão aos diferentes, mas exige-a, por ser uma mentalidade fortemente insegura, que diante do diferente entra em tal estado de angústia que é compelido a destruí-lo, senão fisicamente, pelo menos em idéias, preconceitos, gracejos mil e até teorias mais ou menos desonestamente embasadas.

Uma novela atual demonstra um relacionamento homossexual entre dois homens. Não vi a novela, mas vi o mal-estar em pessoas comentando sobre. Fazer a sociedade ver um relacionamento desse é um serviço que se faz à nossa evolução, na medida em que se tenta familiarizar as pessoas com o diferente. Nossa evolução ética se dirige na expansão da nossa consideração a todos os grupos de seres. Antigamente só os poderosos se encontravam protegidos pela ética, não as mulheres, não os negros, não os homossexuais, não os animais. Todos estes ainda precisam lutar muito para serem incluídos como existentes legítimos deste mundo, com direitos à vida, ao respeito e bem-estar. Mas dá pra perceber avanços no sentido dessa expansão da consideração ao outro.

O que me motivou a esse texto enfim, é a dúvida: por quê os homens são tão resistentes ao homossexualismo? Tentei rastrear a resistência ao diferente (se o homossexual é tão diferente assim e em que nível é diferente é outro assunto) aproximando-a da insegurança por um ego ainda frágil e necesitado de se garantir diferenciando-se de outros padrões. Mas as mulheres, de maneira geral, não me parecem ser assim tão seguras de si, não me parecem ter o ego mais bem sustentado. Por quê os homens são tão mais temerosos da homossexualidade? Será que no plano da identidade sexual é que são bem menos desenvolvidos? Talvez. E seriam mais desenvolvidos no plano de uma identidade existencial talvez? Digo isso por precisarem menos de religião do que as mulheres (vide a predominância massiva de mulheres em templos religiosos quaisquer), mas é uma hipótese (Sim, aqui estou associando religião com insegurança existencial, dificuldade de se reconhecer existindo desamparado no mundo) .

O preocupante é que os homens é que detêm o poder. São a grande maioria na política, são os pastores, padres, chefes de empresas, polícia, tráfico. E me parece que até nossa consciência se desenvolver mais e ser capaz de expandir nossa identidade sexual no sentido de absorver e aceitar conscientemente valores conhecidos como femininos, como carinho a qualquer ser, delicadeza, sensibilidade, dizia, me parece que isso vai demorar bastante, muita gente vai ser queimada, muitos outros vão continuar se suicidando por não serem aceitos na família e na sociedade. Infelizmente a evolução caminha a passos que nos sabem muito lentos e os que estão no poder são crianças ainda, já que são egos frágeis que precisam afirmar sua identidade com base no poder e em ideologias ultrapassadas, como a religiosa. E não apenas isso, mas os que ainda não estão no poder, os jovens, em grande parte são apenas bons soldados, robotizados pela ideologia do machão, proibidos, com toda cumplicidade, de serem mais do que apenas o foram seus pais. Demonstram a jovialidade da força conservadora, que insiste fervorosa e religiosamente em limitar a evolução ética.

A idéia não é nova: agride-se por insegurança. Mesmo pessoas que se dizem não preconceituosas (a maioria se intitula assim!) perpetuam julgamentos moralistas e pseudo-científicos a respeito da diversidade. E considero estes julgamentos, que muitas vezes acontecem em forma de brincadeiras a respeito de ser homossexual, como agressão! Ainda este mundo está muito violento demais para o meu gosto e quem reforça a mentalidade que permite a violência é no mínimo um cúmplice bastante cínico, pois normalmente reforça a mentalidade agressiva e se diz defensor da liberdade, se diz não-preconceituoso.

 

 

 

 

A poligamia é assunto bastante polêmico. Parece que toca em questões arcaicas, relativas à história de vida emocional, além de questões religiosas (também arcaicas), sociais e tudo mais. Um aspecto curioso me chamou a atenção.

Tanto homens quanto mulheres em geral são contra a poligamia. A recusa das mulheres é que me interessa no momento. Isso por um motivo simples: parece que as mulheres estão envolvidas num dilema e não estão apercebidas disso. Lembrando que o número de mulheres é maior que o de homens e que quase toda mulher reclama da falta de homens, me pergunto: por que elas não aderiram à poligamia ainda? Isto seria mais interessante pra elas por vários motivos. O aspecto grupal é interessante e é aí que tem algo interessante. Vejamos o famoso dilema do prisioneiro, o qual passo a explicar com algumas citações que encontrei por aí.

O que é o tal dilema?

O dilema do prisioneiro é um jogo amplamente estudado na Teoria dos Jogos e é ilustrado como segue. Dois bandidos são presos pela polícia, colocados em salas separadas e são oferecidas as opções de delatar o parceiro ou não dizer nada (cooperar). Se um deles delatar e o outro não, o que não delatou se dá muito mal, pois é indiciado sozinho pelo crime (pega, digamos, 10 anos de cadeia) e o delator sai livre. Se ambos delatarem um ao outro, ambos se dão um pouco mal mas não tanto (pegam 5 anos de cadeia). Se nenhum dos dois falar nada, são indiciados por um crime menor e pegam algo como 1 ano de cadeia.

O dilema é o que deve cada prisioneiro fazer. O ideal seria ambos não falarem nada, pois ambos pegam uma pena leve. Mas se eu pensar assim e resolver cooperar, meu parceiro pode pensar “ah, ele vai cooperar; se eu delatar saio livre”. Assim, o medo de que o parceiro delate impede que qualquer um dos dois coopere e ambos acabam delatando e essa é a escolha mais racional. É o medo da possibilidade de pagar um preço alto que impede que se consiga atingir a melhor das alternativas.”

(http://pontomidia.com.br/ricardo/arquivos/dilema_do_prisioneiro.html)

“O dilema do prisioneiro tem atraído a atenção dos pesquisadores em ciência social por retratar de modo penetrante uma situação paradoxal: a busca do melhor por parte de cada jogador produz um resultado não ótimo do ponto de vista do conjunto dos jogadores. “

Eleutério F. S. Prado

Tendo em vista que o número de homens em idade sexual é certamente menor que o de mulheres, (senão em números absolutos, pelo menos no imaginário delas) então para que o grupo mulheres tenha uma satisfação sexual-emocional ótima é óbvio que elas precisam compartilhar seus homens umas com as outras. Se insistirem em não fazê-lo, muitas ficarão descontentes, solitárias, enquanto outras terão seus homens (mas mesmo neste caso sabemos que o adultério impera!).

Então cada mulher talvez deva pensar: “bom, eu posso recusar a poligamia e arrumar um homem só pra mim (isso ignorando o fato de que a maioria dos homens não é domesticada), mas corro grande risco de não panhar nenhum, já que é artigo em falta. Por outro lado, se eu aceitar a poligamia e as outras mulheres também, não faltará homem. Se eu aderir e as outras não, aí a perda é maior, porque os homens não endossando mulheres poligâmicas, vão preferir minhas amigas monogâmicas a mim.”

A escolha cultural é pela monogamia, se é que posso dizer escolha aqui, já que quase ninguém teve opção de escolher até agora, preconceitos pessoais e sociais dominam. Tal monogamia significa: ninguém coopera com ninguém, se a outra está sozinha e carente é problema dela. Já a poligamia significaria cooperação: eu empresto meu homem e se eu estiver sozinha, não será talvez o melhor individualmente, mas pelo menos haverá mais homens disponíveis para encontros significativos. A analogia com o dilema do prisioneiro não é perfeita, mas ilustra bem o significado de cooperação e competição no mundo amoroso.

Assim, a insatisfação das mulheres se deve a uma desunião da classe. São levadas a escolher como ideal de vida uma estrada conservadora, competitiva, não ótima, não cooperativa.

É ou não é?

Duas Almas

Alceu Wamosy



Duas almas
Ó tu que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
Entra, e, sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
Vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
E a minha alcova tem a tepidez de um ninho,
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
Se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
Podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.
Há de ficar comigo uma saudade tua…
Hás de levar contigo uma saudade minha…

Desespero

Ontem me ocorreu uma experiência que se aproximou do extremo. Tava no fim da aula de yoga, momento de relaxamento, de entrar em harmonia com meu corpo, mente, espírito e com o universo. E quando estou todo relaxado eis que me vem à mente a lembrança da foto de um cachorro que vi na internet. Ao me aproximar da harmonia com o universo, uma barreira indevassável me interpelou. O animal estava com a cara toda esfolada, praticamente sem nariz. Foi encontrado abandonado em uma estrada após ser levado a participar de lutas clandestinas. Colocado num ringue, foi obrigado a matar ou morrer. Ao lembrar disso, uma extrema tristeza me invadiu e as lágrimas rolaram do meu relaxamento. E a tristeza foi se aproximando do desespero, desespero pela dor do inocente, pelo desamparo dele, que é o meu também, mas principalmente por não ver saída…

Um dos insights interessantes do livro dos espíritos é quando Allan Kardec pergunta aos “espíritos” qual o pior sofrimento ao qual o ser está sujeito. Eles (seja lá quem forem) respondem que é sofrer e acreditar que o sofrimento não tem fim. De fato, isso é o pior da dor, não avistar seu fim! Foi o que me aproximou do desespero, pensar que tal violência não terá fim enquanto existir esse mundo. Perto do desespero apelei para Deus (em quem não acredito), pedindo que expandisse a paz a todos os seres. Logo vi que isso não mudaria o mundo e tentei me apegar a alguma outra qualquer coisa. Pensei então na idéia de reencarnação. Isso me consolou bastante, pensar que aqueles que fazem sofrer sofrerão o mesmo, que há justiça enfim. Com isso me distanciei um pouco do abismo da realidade! Senti que eu também já pratiquei violências . Isto por sua vez me aproximou um pouco dos agressores e assim pude chegar um tanto quanto perto de ser compreensivo em relação à violência. Me aproximou um pouco (só um pouco e momentaneamente) da idéia de que fazemos o que fazemos e não podemos fazer diferente! Não somos livres enfim. É uma idéia extremamente cômoda além de perigosa. Mas pode ser verdadeira. E naquele momento foi confortável, talvez pelo comodismo inerente a ela, já que me isentou de qualquer responsabilidade, me permitiu ser cúmplice sem angústia.

Mas questões filosóficas à parte, o que me marcou foi a aproximação do abismo do desamparo, algo que um psicanalista diria ser da ordem do indizível. É disso que nos aproximamos ao sentir a crueza da violência sem uma crença que nos amorteça, que nos impeça! A dor da realidade direta tem seu sabor, acre, rude, áspero, ríspido, pungente, mas autêntico! E isso nos fortalece. Saí isolado da harmonia com o universo, mas me senti um pouco mais forte ao ser intimado e confrontado com a dor! Mais forte ou mais duro?

As vezes acontece alguma situação que nos parece inusitada. Se trata de algo sumamente improvável e que desafia as tendências da mera probabilidade. Exemplo clássico é quando um raio cai em cima da cabeça de um cidadão. A probabilidade é muito pequena e ele sempre, se sobreviver, irá se perguntar como poderia estar justamente naquele lugar justamente àquela hora. Exemplos são vários (escreva um seu se quiser), mas o milagre não é tão fácil de ser percebido, senão vejamos.
Imagine uma partida de futebol. O jogador vai rolar a redonda pra frente. O que está envolvido aí? O seguinte: todo o desenrolar da partida. Uma fração de força maior ou menor irá desencadear um cascata de eventos que se acumularão e tornarão o jogo o que ele se tornar! Uma força menor provoca uma força maior ou menor do próximo jogador, uma presença mais ou menos próxima do adversário, que resultará em outra direção e assim por diante. E sendo tantas possibilidades, infinitas mesmo, que me permito chamar o acontecido de milagre. Ora, podia ter sido de tantas outras formas, a probabilidade de que fosse da forma como acabou sendo era o mínimo do mínimo. De modo que seja assim com o restante acontecer da vida, suponho razoavelmente que tudo o que acontece é nada menos que um milagre. A tudo cabe esse raciocínio. Eu ser como sou é um milagre, pois estive sujeito a tal sucessão de eventos, e cada um deles me influenciou a ser de um jeito, que esta síntese que vos fala é um acontecimento infinitamente milagroso, já que poderia ter sido de tantas infinitas outras formas. Mesmo geneticamente é assim, pois o genoma é uma tal junção de possibilidades com exclusão de tantas outras, que ter sido como foi é quase uma indecência. E mais, tudo isso, a contar da criação do universo, a direção tomada pelos átomos e assim sucessivamente por bilhões de anos até aqui e agora! É um milagre estar aqui agora, um milagre ter te encontrado, você estar lendo isso, exatamente neste lugar.

Ora, então não há mesmo coincidencia, já que tudo é coincidencia, tudo é absurdo! E só o fato de ser como é, o fato de você estar aqui agora é tão improvável que me parece um milagre ter acontecido e isso me deixa consternado! Sendo assim não preciso procurar o sentido de estar aqui agora neste sábado gostosamente solitário. Isto existir é um sentido inesgotável. O que vc está fazendo exatamente aí onde está agora? Como foi parar aí? Desde o início do universo uma sucessão indecente de eventos possibilitou esse acontecimento!

Vem-e-vai

Quando me visita a dor de existir

Vindo assim por vão motivo

Sinto o mundo como estranho sujeito,

frio, descolorido, como que esgotando o espaço, enchendo todo o espaço com sua truculência indiferente.

Não me anima intervir aí, ir lá , ser aí

Fico aqui, na minha experiência conhecida, confortável, protegida

Esperando talvez algum outro vão evento, inesperado acontecimento, me venha cutucar solenemente, sutilmente convidando ao prosseguimento.

Já vem? Vem, escuto seus sinais, é daqui do meu peito que evém, desconhecido, quase violento, no entanto um vazio.

Ah, seja como for, venha ou não venha, daqui a pouco durmo e já nao lembro se algo devia vir.

Talvez aqui já esteja, dizendo palavras perdidas,

que no afã de se encontrarem fiam uma presença distraída.

Vinícius

SONETO DA FIDELIDADE

Vinícius de Morais

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Poesia

E poesia não é o fluxo ininterrupto em direção ao imprevisível que surge espontaneamente da condição propícia?