Respondi a uma entrevista e vou transcrevê-la. Também fui o entrevistador. Isso desde que aprendi a pensar. Na falta de alguém para entrevistar ou de um entrevistador, vou fazendo as vezes de um e outro.
1: O que você pensa sobre a vida e o que fazemos com ela?
2: Fico consternado com o que fazemos e com o que deixamos de fazer.
1: Consternado?
2: É. Aqui o que fazemos todos é preencher o nosso escasso e insignificante tempo.
1: Por que insignificante?
2: Porque nossa vida é um piscar de olhos do universo. Claro, mesmo um piscar de olhos é tempo demais. A vida é um nada.
1: Ó, que coisa filosófica. Então você tem idéias sobre como desfrutar o melhor possível desse nada…
2: Sim, tenho idéias.
1: Você gostaria de dizer ao mundo suas idéias, é isso? Talvez abrir uma igreja?
2: É, talvez.
1: Ah sei. E qual seria o credo?
2: Gozar e fazer gozar.
1: Ora, há palavras para designar isso. E creio que não são palavras do agrado geral da humanidade, como hedonismo por exemplo.
2: Então talvez seja melhor eu sair da humanidade. Virar animal, digo, outro animal. Porque este animal humano é simplesmente melancólico.
1: Animal… Você parece mesmo um animal com esse negócio de hedonismo.
2: E com muito orgulho. Inclusive alguns dos momentos em que me sinto mais vivo é quando me sinto verdadeiramente animal, quando meu corpo faz movimentos sincrônicos com outro corpo, autônomos. Movimentos ritmicos, sem intervenção do ego.
1: Também temos nome para isso. E temos lugar para isso. Pessoas certas para isso. Hora para isso. Dias para isso. Partes do corpo determinadas para isso. Tempo determinado para isso. Etc, etc, etc.
2: Pois é. Eis o que me consterna. Na época em que mais nos sentimos livres e somos escravos de tantas condições. Por isso ficamos tão melancólicos ou inquietos. Somos cúmplices demais. Há quem diga que o ser humano não é mal por natureza, nem bom, apenas submisso. E todo mal nasce da submissão. Interessante idéia. É engraçado, as pessoas são quase sempre as mesmas. Não renascem. Renascer é doloroso demais. Digo, é amedrontador demais, mas é muito bom.
1: O que é isso? Como assim renascer?
2: É preciso renascer, para saber o que é renascer. O prazer é algo que nos faz renascer. O prazer intenso.
1: Mas há mais coisas do que prazer nesta vida.
2: É mesmo? Não compreendo. Para mim todos nossos atos são motivados pelo prazer. Prazer de se sentir um bom menino ou boa menina, de ganhar assim o amor dos pais e reconhecimento de todos, prazer de ganhar dinheiro, de praticar esporte, de rezar e ser a boa menina de Deus, de ver a novela das oito… Mas depois que se experimenta certos prazeres, ver novela ou tentar ser um bom menino se tornam algo bem próximo ao ridículo. Esse hedonismo é simples. Nosso tempo é curto, tudo o que fazemos é procurar prazer, então façamos o que nos dá mais prazer, façamos essas coisas que nos dão mais prazer sempre, todo dia. Não compulsivamente, obsessivamente, mas com determinação.
1: Mas para uma pessoa o que dá mais prazer não é o mesmo que para você. Não está sendo mimado achando que todos devem compartilhar com você a preferência e disponibilidade para sentir prazer? Digo que todos queremos ser felizes. É para isso que trabalhamos, descansamos vendo a novela, falando dos outros, fazendo compras.
2: É essa satisfação que me consterna. Me consterna quase todo mundo não perceber o que é realmente bom nessa vida. Porque são submissos ao que essa cultura doentia determina. Essa limitação que os valores dominantes determinam.
1: É, parece que você é radical, só conhece como norma aquilo que te satisfaz.
2: É, sou mimado mesmo. Sofro de narcisismo agudo.
1: Então você gostaria que ficássemos todos só fazendo sexo? Isso geraria consequências que no fim iam é diminuir nosso prazer geral, não acha? O sexo iria imperializar os outros prazeres.
2: Não falei que quero só ficar fazendo amor. Há outras coisas que gosto muito e que acho dignas de tomarem o meu tempo. Como ler, fazer yoga, cuidar do corpo, fumar maconha, conversar com pessoas agradáveis, brincar com meus gatos, jogar video game, ir ao cinema, comer bem, ouvir pink floyd, the doors, cafuné…
1: Então o que devemos fazer com o tempo que temos ao nosso dispor?
2: Devemos fazer muito mais sexo que fazemos, muito mais. Com estranhos, com amigos, com parentes, de segunda a segunda, com o corpo inteiro, em qualquer lugar. Pessoas que se cansam de ser o que são, mesmo que não percebam esse cansaço, já que o enganam com compras, trabalho e novelas, deveriam transar mais. Porque uma boa transa é nada menos que um renascimento. Após um orgasmo, olho para o nada e me sinto tão novo e tão bem que não posso nem de longe compreender porque não estamos todos fazendo isso agora. Fora o prazer de conhecer intimamente outra pessoa, seu corpo, seus movimentos, seu prazer. Sentir prazer é tão bom quanto dar prazer. Por isso a norma é gozar e fazer gozar, pelo prazer e pela reciprocidade, que também é prazeroza por si mesma, além de justa.
1: Vamos transar então?
2: Estou cansado de transar com você. E nem estou dizendo só de sexo propriamente, mas de sensualidade. Sonho viver numa cultura sensual, não numa cultura do narcisismo, onde só a imagem é o que vale, onde cada pessoa é tão apaixonada pela própria imagem. Veja essas mulheres e homens que ficam se exibindo, exibindo suas belezas, seus corpos, seus contornos… e se contentam com isso, exibir. Não posso admitir que isso seja felicidade.
1: Então você também tem idéias sobre o que seja felicidade… Que original!
2: Sim, tenho idéias, derivadas de minhas experiências. Só podemos avaliar nosso estado de felicidade comparando-o com outros estados. O que a maioria das pessoas faz é comparar sua satisfação com o sofrimento maior de outros, ou com seu próprio sofrimento em outros momentos, ou com sua capacidade para o sofrimento, as dores que já sentiu e pode sentir. Mas é quando vivemos um estado de maior felicidade que podemos avaliar o anterior. Temos que comparar nossa satisfação momentânea não só com a dor que poderíamos estar sentindo, mas muito mais com o prazer que poderíamos estar sentindo. Acontece que nossa submissão nos impede de experimentar altas doses de prazer, porque o prazer intenso nos tira de nós. E ficamos com muito medo de nos perder. Então nos convencemos que a vida é isso mesmo, essa felicidade de ausência … E para suportar isso precisamos de muitas novelas patéticas, cigarro, álcool e ambição, ambição. Isso definitivamente não é felicidade para mim. Eu já experimentei momentos de intenso prazer, queira dar o qualificativo que for a ele, prazer estético, afetivo, espiritual, carnal, intelectual… O que me consterna é nos contentarmos com os prazeres conservadores. Não sei se somos assim quase todos (ou todos, diferindo em grau) por medo ou preguiça, como questiona um personagem do filme Waking Life.
1: Então você pretende saber o que é felicidade. E não apenas para você, mas para os outros também… Puxa, os outros não têm o direito e a liberdade de escolherem como querem passar seu tempo sobre a Terra?
2: Claro que têm o direito e a liberdade. E eu tenho o direito de me embasbacar com suas escolhas…